O Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, destaca a importância de conscientização sobre os danos causados pelo tabagismo. Anualmente, diversas doenças estão associadas a esse hábito, incluindo vários tipos de câncer, como câncer de pulmão, fígado, estômago, pâncreas, rins, ureter, cólon e reto, bexiga, ovários, colo do útero, cavidade nasal e seios paranasais, cavidade oral, faringe, laringe, esôfago e leucemia mieloide aguda, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Entre os mais jovens, o cigarro eletrônico tem se tornado muito popular. Devido à sua aparência “disfarçada”, os jovens têm preferido esses dispositivos, acreditando que sejam menos prejudiciais à saúde. Ao contrário da versão convencional, os sabores e aromas agradáveis do cigarro eletrônico acabam disfarçando e tornando os riscos invisíveis para esse grupo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Inca, o uso do cigarro eletrônico aumenta em mais de três vezes o risco de experimentação do cigarro convencional e em mais de quatro vezes o risco de tornar-se usuário habitual do cigarro.

Além disso, o estudo também ressalta que o uso do cigarro eletrônico aumenta as chances de iniciar o uso do cigarro tradicional para aqueles que nunca fumaram anteriormente.

“Há cerca de 30 anos, o cigarro convencional era visto como sinônimo de status e isso não tem sido diferente para o cigarro eletrônico, principalmente entre os mais jovens. Apesar de na última década o Brasil ter diminuído 40% o número de fumantes, não devemos fechar os olhos para um problema que, mesmo tendo um outro formato, faz parte da narrativa atual”, comenta a oncologists, Dra. Mariana Laloni.

Câncer de pulmão

O câncer de pulmão continua sendo amplamente causado pelo tabagismo, tanto no Brasil quanto em todo o mundo. Na verdade, não se limita apenas a esse tipo de tumor: de acordo com o Inca, anualmente, 161.853 mil mortes poderiam ser evitadas se as pessoas deixassem de fumar, e cerca de ⅓ desses óbitos estão relacionados a algum tipo de câncer causado pelo hábito de fumar.

No Brasil, estima-se que durante o período de três anos (2023-2025), aproximadamente 32.560 casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão, conforme classificação do Inca, sejam diagnosticados anualmente. A maioria dos pacientes com câncer de pulmão apresenta sintomas que afetam diretamente o sistema respiratório.

“Os sinais de alerta são tosse, falta de ar e dor no peito. Outros sintomas inespecíficos também podem surgir, entre eles perda de peso e fraqueza. Em poucos casos, cerca de 15%, o tumor é diagnosticado por acaso, quando o paciente realiza exames por outros motivos. Por isso, a atenção aos primeiros sintomas é essencial para que seja realizado o diagnóstico precoce da doença, o que contribui amplamente para o sucesso do tratamento”, diz.

Vício

Cerca de 10% dos brasileiros com idade acima de 18 anos são fumantes, o que equivale a mais de 20 milhões de pessoas no país, mesmo com os avanços no combate ao vício. “Quando falamos do cigarro eletrônico, o Ibope Inteligência aponta que o problema dobrou em apenas um ano, passando de 0,3% para 0,6% da população no Brasil”, explica a oncologista. Dentro desse cenário, especialistas estimam que cerca de 600 mil pessoas fazem uso do dispositivo.

Embora a Resolução de Diretoria Colegiada nº 46 da Anvisa tenha proibido os cigarros eletrônicos desde 2009, esses dispositivos continuam atraindo um número crescente de usuários.

“Os vapes ou e-cigarretes passaram a ser mais socialmente aceitos em diversos ambientes, além de serem mais atrativos devido sua tecnologia. Mas, podem fazer tão mal quanto o cigarro tradicional, apesar de uma imagem distorcida. Eles possuem várias substâncias tóxicas que, quando combinadas, acabam mascarando os efeitos prejudiciais à saúde. Contudo, é importante lembrar que elas existem e podem causar enfisema pulmonar, doenças respiratórias e até mesmo câncer”, reforça Mariana Laloni.

Os cigarros eletrônicos utilizam aditivos de aromatizantes, como mentol, chocolate, chiclete e outros, para atrair um público mais amplo. Além disso, a fumaça liberada pelos vapes pode conter elementos além da nicotina, como chumbo, propilenoglicol, glicerol, acetona, sódio, alumínio, ferro e outros compostos.

Risco

Além de serem altamente viciantes, estudos sobre cigarros eletrônicos sugerem que esses dispositivos podem afetar não apenas o sistema respiratório, mas também desregular certos genes no organismo.

Pesquisas conduzidas pelo professor Ahmad Besaratinia da USC revelaram que os genes mitocondriais podem ser impactados e que vias moleculares relacionadas à imunidade e resposta inflamatória podem ser interrompidas. Isso significa que os componentes dos dispositivos podem potencialmente desencadear doenças autoimunes e prejudicar a recuperação de outros distúrbios corporais no futuro.

“Na tentativa de deixar o tabagismo, é preocupante que muitos usuários ainda usem os cigarros eletrônicos. Essa apelação pode torná-los usuários duplos e fazer com que o vício ocorra em ambas as frentes. Por isso, é preciso ter muita força de vontade e saber pedir e aceitar ajuda. O fumante precisa transformar seus hábitos e estilo de vida. De duas a 12 semanas sem cigarro há a melhora da função pulmonar e da circulação, entre 1 e 9 meses a tosse e falta de ar diminuem e em 10 anos a mortalidade por câncer de pulmão chega a ser a metade da de um fumante. É possível superar o vício e apostar em uma nova vida sem o cigarro, seja ele eletrônico ou tradicional”, explica Mariana Laloni.

De acordo com a oncologista, a melhor maneira de prevenir o câncer de pulmão, bem como vários outros tipos de tumores, doenças cardíacas, doença pulmonar obstrutiva crônica, pneumonia, acidente vascular cerebral (AVC) e complicações graves associadas à infecção por Covid-19, é parar de fumar.

“Deixar o hábito de lado é dar uma segunda chance aos pulmões. Lá na frente, as pessoas que abandonaram esse vício irão se deparar com diversos benefícios ao organismo, como um menor risco de desenvolver vários tipos de cânceres e ainda a recuperação de sequelas adquiridas pelo tabagismo. Entretanto, antes de remediar, é fundamental que as neoplasias sejam prevenidas. Ou seja, a melhor alternativa é sempre parar de fumar e alertar a população de forma geral, principalmente os mais jovens, sobre os riscos que o cigarro tradicional e eletrônico podem causar”, finaliza.