Dia do Professor: falta de renovação entre docentes preocupa e expõe desafios da educação em Goiás
15 outubro 2026 às 14h17

COMPARTILHAR
Neste 15 de outubro, quando se celebra o Dia do Professor, a profissão que já esteve entre as mais valorizadas do Brasil vê crescer um “apagão” de professores das novas gerações. Um levantamento do movimento Todos Pela Educação, com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aponta que, a cada 100 jovens que ingressam em cursos de pedagogia e licenciatura, apenas 51 concluem a graduação, e só 27 manifestam intenção de seguir carreira no magistério.
Em Goiás, docentes da educação básica, professores universitários, uma estudante de licenciatura e uma coordenadora pedagógica ouvidos pelo Jornal Opção descrevem um cotidiano de sobrecarga, adoecimento e desestímulo. Para a professora da rede estadual Fernanda S. de Jesus, 28 anos, que leciona em um colégio no Jardim Tropical, em Aparecida de Goiânia, a desvalorização tem várias camadas. “Muito se fala sobre a questão salarial, e eu concordo, porque fora do serviço público, quem trabalha no serviço privado, a hora-aula é muito baixa”, afirma.

Segundo Fernanda, a dificuldade de completar a carga horária em uma única escola obriga o professor a se deslocar entre unidades, o que agrava o cansaço físico e mental. “A sala de aula tem uma média de 40 alunos por turma, é muita gente. Não tem profissionais de apoio”, relata. Ela explica que a escola acaba absorvendo demandas sociais que deveriam ser atendidas por outros órgãos, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os conselhos tutelares, e que o sucateamento dessas redes sobrecarrega o ambiente escolar. “A gente fica fazendo encaminhamentos fantasmas, que não têm devolutiva”, diz.
A professora também aponta um problema estrutural no plano de carreira do Estado de Goiás: como quase 30% do salário é composto por gratificações que não se incorporam ao vencimento, o professor que adoece perde parte significativa da renda. “Quase 30% do nosso salário é gratificação. Então, isso não incorpora no vencimento”, explica. O resultado, diz ela, é que muitos profissionais adiam a aposentadoria para não sofrer redução salarial, enquanto outros enfrentam intimidação em sala. “Não é uma coisa que eu deva aturar só porque eu sou professora”, desabafa.
O professor titular de Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Tadeu Alencar Arrais, defende que o primeiro passo para reverter o quadro é deixar de idealizar a figura do docente. “O professor, antes de qualquer coisa, deveria ser compreendido como um profissional com determinadas habilidades e responsabilidades”, afirma. Ele recorre ao conceito de esforço docente para dimensionar a rotina da categoria. “O professor é o único profissional que diariamente lida, ao mesmo tempo, em uma sala de aula com 30, 35, 40 alunos. Ninguém faz isso”, compara.

De acordo com Tadeu Arrais, a combinação de baixos salários, violência crescente e jornadas extenuantes retira qualquer atratividade da carreira. Ele cita o estudo “Razões da epidemia de violência contra professoras e professores do Ensino Básico brasileiro”, conduzido pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, que analisou o fenômeno de forma estrutural ao longo de cerca de cinco meses, com mais de 15 pesquisadores de vários estados. “No caso específico de Goiás, o professor está impedido de adoecer”, critica, ao reforçar que o plano de cargos e salários prevê a perda da gratificação de regência, entre R$ 1.500 e R$ 2.000, para quem apresenta atestado. Conforme o pesquisador, mais de 700 professores se aposentam por ano no Estado por invalidez, idade ou tempo de serviço, e a rede estadual tem um dos quadros mais velhos do país.
Na avaliação da graduanda em Letras pela Pontificía Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e licenciada em História pela UFG, Isadora de Melo e Silva Bastos, de 23 anos, o desinteresse juvenil é consequência direta desse cenário. “Eu vejo que tem um desinteresse dos mais jovens, dessa nova geração pela profissão docente porque existe uma desvalorização crescente na nossa sociedade”, observa.

Ela discorda da secretária estadual de Educação, Fátima Gavioli, que afirmou anteriormente ao Jornal Opção não faltar interesse nos concursos, mas profissionais dispostos a permanecer em sala após a posse. “Eu discordo completamente da secretária porque não é falta de vocação, não é falta de querer trabalhar, mas sim falta de condição de saúde física e mental”, rebate.
Isadora relata que, entre amigos da mesma faixa etária, o assunto é recorrente e muitos buscam alternativas, como migrar para a rede privada. Ela própria decidiu cursar Letras por desesperança com a História. A estudante também critica a política estadual de não reprovação, que, segundo ela, retira sentido do processo educativo para parte dos alunos. “Existem alunos que nos dão esperança. Mas o que choca é que o número desses alunos que dão esperança vem diminuindo”, diz.
Já o professor Rogério Pereira Bastos, da área de Ciências Biológicas da UFG, observa que as salas das licenciaturas não estão vazias, mas os formandos não chegam à docência. “Você tem jovens que procuram fazer o curso de graduação, mas depois que eles se formam, a minha percepção é que eles não estão indo mesmo atuar na docência”, afirma. Entre os motivos, ele destaca salário, infraestrutura precária e, sobretudo, “a falta de autonomia para o professor lecionar”, resume, citando restrições a temas como educação sexual, questões de gênero e religiões de matriz africana.

Rogério também aponta o problema com as gratificações, que desaparecem quando o docente se afasta para se qualificar. “Teve um professor que me disse que perdeu cerca de R$ 4, R$ 5 mil, que é quase 50% do salário dele”, conta. Para ele, falta aos governos incentivar a formação continuada e reforçar o ensino de metodologia científica nas licenciaturas, lacuna que, segundo o docente, deixa os alunos vulneráveis à desinformação.
Já a coordenadora pedagógica da Escola Municipal em Tempo Integral Professora Lousinha, em Goiânia, Maria Cristina Pires da Silva, de 58 anos, concorda parcialmente com a secretária Fátima Gavioli. “Muitos passam no concurso para ter uma estabilidade financeira, mas assumir a sala de aula, eles não querem”, diz. Para ela, o jovem de hoje busca facilidade e não está preparado para lidar com as emoções envolvidas no cotidiano escolar. “O difícil é lidar com o dia a dia, lidar com diferentes pessoas dentro da sala”, afirma.

Com quase quatro décadas de magistério, Maria Cristina diz que ainda sente prazer no trabalho, mas reconhece o desânimo geral. “Estou para aposentar. Se fosse para dizer assim para mim: ‘Cristina, você quer fazer de novo pedagogia e ir para a sala de aula de novo?’, eu gostaria de ir, porque é um trabalho que eu gosto”, confessa. Ela defende turmas menores, apoio para alunos com necessidades especiais e estágios supervisionados mais consistentes na formação inicial.
A crise, porém, não é exclusividade goiana. Segundo o Instituto Semesp, a docência atrai cada vez menos jovens em todo o país, enquanto a remuneração brasileira segue abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e 18% inferior à dos próprios brasileiros com ensino superior. Em pesquisa clássica feita com jovens sul-coreanos, a docência apareceu como a carreira mais desejada para um parceiro de vida, sustentada por salários altos, admiração social e férias estendidas – um contraste com a realidade do Brasil.


