Criação recebida pelos pais e convívio familiar podem estar relacionados à alta incidência de suicídio entre jovens

“A família é a fonte de saúde mental. É em casa onde se abrem as feridas”, diz psicóloga

O suicídio não escolhe gênero, raça, classe social, e nem mesmo idade. É um fenômeno complexo, com características variadas e peculiares, e que precisa de atenção especial. Nesse sentido, a campanha ‘Setembro Amarelo’ vem para tentar prevenir e conscientizar as pessoas diante de um problema tão sério.

Em 2018, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgou um levantamento que indicou uma elevação de 24% na taxa de suicídio entre jovens de 16 a 24 anos no país. Em Goiás, dados da Secretaria Estadual de Saúde também demonstraram um aumento do número de óbitos por suicídio ao longo dos anos, sendo registradas 497 mortes, em 2017. Jovens entre 19 e 25 anos estavam no topo da lista.

Criação

Têm sido realizados vários estudos no âmbito da psicologia que demonstram que o índice de maior suicídio está entre os jovens. A explicação para a maior incidência na faixa etária jovem pode estar relacionada, segundo a psicóloga clínica, Vênia Dias Teixeira, ao convívio familiar.  “O jovem hoje anda muito sem objetivos, sem alvos, tem sido criado de uma maneira superprotetora, sem responsabilidades, sem limites. Então esse jovem não luta muito pela vida, pelo que ele quer, e isso, muitas vezes, faz com que a vida não tenha sentido para ele, e venha a cometer suicídio.

A psicóloga explica ainda, que associado a isso, existem outros fatores: “Pais muito ocupados, pais que trocam o ter pelo ser, em vez de dar carinho, estar junto, ser amigo. Só se preocupam em dar a melhor faculdade,  o melhor carro, e às vezes esses jovens tornam-se carentes, sozinhos, solitários, sem ninguém para conversar, e esse vazio pode fazer com que não queiram mais viver”.

Vênia reitera que há uma relação entre o suicídio e a criação recebida pelos pais. “Não que esse seja o fator determinante, mas é um fator que também contribui. Pais que são muito ausentes que deixam os filhos serem criados por babás, em creches, não têm um tempo de qualidade com os filhos. As crianças e adolescentes ficam muito influenciáveis à mídia, aos programas de internet, que muitas vezes até incentivam o suicídio. Grupos de extermínio, como a “baleia azul”, e tantos outros que os pais nem ficam sabendo. O descuido, a negligência dos pais ao criarem os filhos, pode ser sim um fator que venha a colaborar com a questão do suicídio entre jovens”, e completa: “Tudo que o pai e mãe dão não substitui o amor”.

Relação familiar

A psicóloga explica que um dos maiores problemas da questão dos transtornos mentais vem do âmbito familiar. “A família é a fonte de saúde mental. É em casa onde se abrem as feridas, é ali, por meio do relacionamento com o pai, a mãe, que vai se aprender a ser respeitado, amado, ou rejeitado e abandonado. Têm muitos filhos que sofrem com pais abusivos, agressivos, e outros até alcoólatras, violência doméstica. Esses filhos vão se sentindo angustiados e podem desenvolver doenças como depressão, síndrome do pânico e até mesmo doenças mentais mais sérias, como esquizofrenia, por exemplo”.

De acordo com a especialista, os jovens dessa geração não têm paciência, não têm resiliência, que é esse poder de superar a dor, e isso faz com que atentem contra a própria vida.

Tecnologia

Vênia explica que existe uma relação entre essa nova era, em que a tecnologia faz parte do dia a dia das pessoas, com a incidência de suicídio entre jovens. “Uma série de TV, por exemplo, que mostrava uma adolescente cometendo suicídio. Nessa época eu recebi muitos adolescentes em meu consultório se contando, se automutilando. E com certeza isso serve de modelo, porque o adolescente não está bem firmado quanto à identidade, muitas vezes tem problemas emocionais em casa, e pode se deixar influenciar por esses conteúdos”.

E finaliza: “A permissividade dos pais em deixar que os filhos participem de coisas para as quais eles ainda não têm idade apropriada, acaba sendo uma violência mental para essa criança ou adolescente”.

Emocional

“Temos, infelizmente, uma geração de jovens imaturos, criados com muita superproteção, e não aprendem a lidar com a vida, com as frustrações. Então uma pequena frustração, como perder um namorado, é motivo de se matar”, esclarece a psicóloga.

A psicóloga pontua que é preciso ensinar o jovem a lidar com a frustração: “Na vida as coisas não vão dar certo para nós sempre. Tem momentos em que as coisas vão dar errado, que seremos decepcionados. Precisamos, portanto, aprender a lidar com essas situações, e ensinar nossos filhos a lidarem, também, com as frustrações”.

 

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