Credeq: O poder público na ferida social das drogas em Goiás

O Jornal Opção Online visitou as obras do Centro de Referência e Excelência em Dependência Química construído pelo Governo do Estado em Aparecida de Goiânia. Unidade tem previsão para ser inaugurada em setembro

Região Central Goiânia

Jovens usando crack nas ruas de Goiânia | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Uma vida desregrada. Na adolescência F.A.G. deu o primeiro passo para mais de 17 anos de sofrimento: iniciou o uso indiscriminado de maconha e álcool. “No começo era bom, era preenchido pelas sensações que as drogas proporcionavam”, admite. Aos poucos, conta ele, “as coisas foram perdendo o sentido”. “Tornei-me um jovem melancólico, vazio, preso em mim”, descreve. Tempos depois F. conheceu o crack. “Nesta época minha família sofreu com as minhas escolhas, o uso da pedra se tornou hábito”, diz. Dos 16 aos 32 anos viveu à margem da vida e escravo da euforia que a cocaína solidificada em cristais, o crack, causava em seu corpo magro e frágil.

Desde os 9 anos C.F. é usuário da droga. Hoje, com 30 anos, não acredita mais em si. “Beijou a boca da lata, beijou a boca do diabo”, é rápido em responder quando perguntado sobre os efeitos do crack. “Esta droga não tem cura. Com 16 anos pulava o muro da escola para cheirar cola, pelas noites bebia álcool e fumava crack”, lembra. Embora tenha algumas passagens por delegacias de Goiânia, C.F. garante não gostar de roubar. “Se eu não usasse crack, certamente já teria comprado um helicóptero, ganho dinheiro fácil”, brincou. Sob efeito da droga o homem moreno confessa já ter ficado oito dias sem dormir, “até o corpo não aguentar e cair”.

“Comecei a vender [pedras de crack] com 15 e a fumar com 20 anos”, disse o jovem M.S., terceiro usuário ouvido pela reportagem. Há quatro anos ele vive em situação de vulnerabilidade social. “Estou na rua porque quero, tenho família, estrutura, mas nesses anos já fumei fazenda, avião, mansão, eu não tenho nada”, declara. “Tenho vontade sair da rua, do uso do crack”, finalizou.

F.A.G., cuja história abre a matéria, diferentemente de C.F. e M.S., já teve oportunidade de se livrar do vício. Há dois anos, por meio de um projeto social, recuperou-se da dependência química. O tratamento foi feito por um projeto da Associação Comunidade Luz da Vida, a mesma Organização Social (OS) que administrará o Centro de Referência e Excelência em Dependência Química (Credeq) de Aparecida de Goiânia, previsto para ser inaugurado no segundo semestre deste ano.

Credeq: poder público na ferida social

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Vista externa da unidade do Credeq em Aparecida de Goiânia | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

O Jornal Opção Online visitou as obras do Centro, que fica localizado na Avenida Copacabana, em Aparecida de Goiânia. A previsão para término das obras, de acordo com informações da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop), é para o próximo feriado de 7 de setembro.

Nesta quarta-feira (30/7), cerca de 300 profissionais trabalhavam nos detalhes finais da obra, que teve o valor estimado em R$ 24,1 milhões, com espaço de mais de 10 mil metros quadrados. O projeto contempla três núcleos de atendimentos (infantil, adolescente e adulto), com capacidade para 96 leitos de internação, onde o dependente será tratado por 90 dias, por meio de ambientes de convivências, ambulatórios, centro de atenção psicossocial, sala de reanimação, casa de desintoxicação, e de acolhimento transitório com cultivo de hortas.

Por mês, o Credeq de Aparecida terá capacidade para 2.142 consultas em psiquiatria, clínica geral e pediatria e 10 mil atendimentos multidisciplinares.

No dia 17 do mês passado o governador Marconi Perillo (PSDB) assinou o contrato de gestão da unidade com a Associação Comunidade Luz da Vida. Na época, o tucano disse que a “unidade do Credeq é uma vitrine para o resto do Brasil, pois se trata de uma iniciativa pública para o tratamento de dependentes químicos de drogas lícitas e ilícitas”.

Segundo o governador, a implantação do Credeq será uma quebra de paradigmas. “Será uma revolução, pois todos os governos precisam atuar cada vez mais na prevenção de drogas, na repressão ao crime organizado, principalmente no tráfico de drogas, mas precisa também cuidar de quem está na dependência”, advertiu Marconi Perillo.

Já o secretário de Saúde de Goiás, Halim Girade, afirma que “o Credeq pode ser modelo de resgate social para todo país”.  O Centro, de acordo com Marconi Perillo, cuidará dos indivíduos dependentes de substâncias químicas. “O tratamento nesta unidade de saúde será feito sem custo e com eficiência”, disse.

Além do Centro de Aparecida de Goiânia, o governo do Estado está construindo mais quatro Credeqs, sediados em Morrinhos, Caldas Novas, Quirinópolis e Goianésia. “O governador investiu em Goiânia. Estamos finalizando as obras do primeiro Credeq da região metropolitana da capital. O nosso governo faz e valoriza o Estado. O Credeq não é só para internar dependentes, pelo contrário, faz parte de toda uma política de assistência ao dependente, com uma estrutura totalmente especializada para isso”, afirma Jayme Rincón, presidente da Agetop.

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O Credeq vai trabalhar em ação conjunta com a rede pública de saúde | Fernando Leite

O presidente da Associação Comunidade Luz da Vida, Luiz Antônio de Paula, conta que o grupo já trabalha há 15 anos com a reabilitação de dependentes químicos. “Nós, que trabalhamos com dependentes, passamos por qualificação. Tenho certeza que o trabalho no Credeq vai ter o seu retorno de forma plena, acima de tudo porque nós acreditamos na vida e na pessoa humana”, disse.

O vice-governador do Estado, José Eliton (PP), acredita que o consumo e o tráfico de drogas têm ligação direta com a criminalidade no Estado e no país. A capital goiana figura entre as regiões mais violentas do país, sendo que segundo levantamento da Organização não-governamental Conselho Cidadão pela Seguridade Social Pública e Justiça Penal, Goiânia é a 28ª cidade mais violenta do mundo. “O Credeq de Aparecida é uma ação importante para reprimir a violência [nesta região]”, afirmou o pepista.

Contratado pela OS para ser o diretor técnico da unidade, o psiquiatra Tiago Batista disse ao Jornal Opção Online que o Credeq vai trabalhar em conjunto com a rede pública de saúde, que já realiza tratamento de dependentes químicos na capital, como os já conhecidos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). “No primeiro momento o paciente será submetido a um leito de desintoxicação. O álcool e o crack, por exemplo, levam em torno de 48 horas para sair do organismo. Após a desintoxicação, o tratamento será continuado no próprio Credeq”,disse.

Em junho, representes da OS se reuniram constantemente com a equipe médica e com o secretário estadual de saúde, Halim Girade, para definir os detalhes sobre o gerencialmente da unidade, que terá um custo, nos próximos quatro anos, de R$ 28 milhões para os cofres do Estado.

Brasil: estatísticas sobre o uso de drogas

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“Beijou a boca da lata, beijou a boca do diabo”, C.F. sobre a experimentação do crack | Fernando Leite

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em junho de 2013, o número de jovens que vivem nas capitais brasileiras que já experimentaram drogas ilícitas chegou a 9,9%, o que equivale a pouco mais de 312 mil jovens. Em 2009, a proporção de jovens que experimentaram alguma droga ilícita era de 8,7%. E, no caso de drogas lícitas, segundo os dados do instituto, 70,5% já experimentaram alguma bebida alcoólica, ou seja, sete em cada dez jovens.

No caso das drogas lícitas, segundo os dados, cerca de 70% dos jovens que vivem nas grandes cidades do país já experimentaram alguma bebida alcoólica, o equivalente a sete em cada dez. O estudo do IBGE mostrou também que o porcentual de jovens em capitais que fumaram pelo menos uma vez na vida era de 22,3% e que a maior parte deles começou fumar entre os 17 e 19 anos de idade, ou seja, no início da juventude.

Os jovens entrevistados no começo desta reportagem compõem estas estatísticas – os três começaram o uso ainda na adolescência. Segundo José Silber e Ronald de Souza, estudiosos nas questões de drogadição, os jovens dão justificativas semelhantes para a experimentação de drogas ilícitas e lícitas. “Iniciam por pressão de familiares, habitualmente irmãos mais velhos, além de estresse, aborrecimento, rebelião, ansiedade, depressão e redução da auto-estima”, afirma  José Silber. O especialista também pontua que o uso do fumo e do álcool, em geral, precede a experimentação com drogas. “Apesar do bombardeio de informações a respeito do perigo do fumo, do álcool e das drogas, nenhum adolescente fica imune à influência social e ao fácil acesso”, frisa.

Por enquanto, os jovens C.F., M.S e outras dezenas, aguardam nas ruas de Goiânia a oportunidade de livrarem-se do vício.

Confira abaixo imagens do Credeq de Aparecida de Goiânia:

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