Corão Gay para Aiatolás de Gênero…

O Iraque, a Líbia ou a Palestina são uma lição de democracia, porque aprender o que convém fazer passa pelo entendimento do que não se deve fazer

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Jean-Marie Lambert

Interessante olhar para os países em guerra. O Iraque, a Líbia ou a Palestina são uma lição de democracia, porque aprender o que convém fazer passa pelo entendimento do que não se deve fazer. E conflito armado é disso exemplo vivo, pois ninguém conversa em tal conjuntura. É só bombas sem a menor troca de ideias.

O final do enredo é geralmente mais educado, porque os combatentes acabam negociando um acordo. O problema é que terminam por onde deveriam começar, pois melhor seria trocar milhões de palavras para não ter de trocar um só tiro. Mas, costumam quebrar tudo primeiro, mesmo sabendo que terão de sentar à mesa para entender-se mais tarde ou mais cedo.

A opção democrática aposta justamente na inversão das etapas e conversa antes de jogar pedras. Garante a solução pacífica de maneira contínua e antecipada, desarmando a violência na contenda filosófica, no diálogo e na crítica. Deixa fluir o debate e não represa os problemas, porque sabe que a barragem cede no estrondo lá na frente.

Quebrar a dialética do contraditório é suicídio sistêmico que conduz fatalmente à selvageria, porque a disfunção se instala, o mal-estar se avoluma, e o que não se resolve no suave cotejo das ideias explode na rua. A liberdade de expressão é, portanto, viga mestra da civilidade laica. Constitui o direito tronco de que nascem todos os demais em questão de tempo. Sem ela, o edifício desaba. E muito preocupa ver a vertente LGBT torpedear o princípio na mídia, nos sindicatos, na universidade, na escola, na arte e em todos os ambientes de debate a plasmar a sensibilidade do eleitor e a direcionar as iniciativas do legislador.

A noção de minoria está induzindo mudanças profundas na cultura. Propõe formas novas de relacionar-se com a realidade, com o mundo e com a vida. Questiona os conceitos de ciência e de natureza. Sugere uma revisão do senso de pudor e das pautas morais. Promove uma transformação do quadro institucional matricial da família, do casamento e da filiação. Projeta a reformulação dos valores a pilotar as relações entre homem e mulher, pais e filhos ou cidadão e Estado.

A pautar-se pelos defensores do conceito, é ferramenta de mudança civilizatória e de metamorfose antropológica … o que não é pouca coisa. No mínimo, portanto, vale discutir o assunto e trocar ideias. Mas, eis que o lobby gay não deixa. E é exatamente onde reside o problema.

A ideologia de gênero funciona bem, porque incorpora o elemento da própria eficiência. Comporta um sistema imunológico que dispara na menor ameaça. Trabalha ao amparo da própria censura, mutilando a democracia para forçar a entrada. Porque, em resumo, mata a liberdade de expressão a pretexto de promover a inclusão.

A mecânica inibitória opera geralmente por rotulagem. Vale-se, na realidade, de etiquetas que interditam o uso do entendimento e que mandam apagar a luz da razão para deixar o mundo no escuro. Um é homofóbico. Outro é sexista. Um terceiro, racista, machista, preconceituoso ou misógino. E assim vai o expurgo construindo uma equação mental feita de gays e simpatizantes convencidos até a medula da própria razão … porque quem poderia eventualmente contestar já não existe.

Os termos acima não atuam como conceitos a comunicar conteúdo preciso. Funcionam antes como a buzina do Programa dos Calouros que manda parar de cantar quando o cantor desafina. Evocar uma fobia é, pois, outra forma de dizer “sai do jogo e cala a boca”.

Quem não está no mundo, não precisa falar e nem merece qualquer direito. É, desde então, a cultura mais excludente e intolerante a aparecer no panorama político dos últimos anos, pois há um chavão para cada pensamento distinto. O somatório dá meia sociedade, e resulta difícil entender quem afinal entra na diversidade. Não fica claro onde cabe a diferença daquele cuja diferença é justamente não gostar muito das diferenças propostas. De qualquer forma, as piruetas semânticas em questão abortam qualquer análise racional do fenômeno para trancar o público num pensamento único e deixar todo mundo para sempre no vago.

Preconceito é justamente um conceito formado antes mesmo de conhecer o objeto por experiência ou exame refletido. Que tal, então, um curso para juntar elementos de juízo e construir um pós-conceito devidamente fundamentado? Saber se convém entrar na onda implica obviamente esse padrão de consciência. E professor serve para isso desde as primeiras civilizações letradas. Mas, tem gente para expressar repúdio!

Deve haver algo a esconder.

O cenário lembra o Irã sob certos aspectos. A República Islâmica, com efeito, organiza-se em dois níveis. O primeiro é composto pelo alto escalão da hierarquia religiosa e é guardião da lei divina, enquanto o segundo configura um legislativo, executivo e judiciário nos moldes clássicos e rege os interesses mundanos.

A fisionomia não difere muito do sistema brasileiro. Porém, o plano espiritual supervisa o secular, filtrando os candidatos a postos eletivos e eliminando os registros eleitorais de quem não tem perfil corânico.

É uma regra perversa, porque deixa a classe modernizante sem voz institucional por falta de representantes, e esse universo de interesses tende naturalmente a expressar-se na rua com virulência.

Um Corão LGBT balizando a liberdade de expressão com aiatolás transgêneros a conceder ou negar certificados de conformidade não é, pois, boa ideia. Porque impedir alguém de discordar do credo gay implica proibir outro alguém de dar uma entrevista em falso com o Evangelho. Ou pressupõe aceitar de fechar a ESA a pedido de um pai de santo. O que, com certeza, não casa com pluralismo democrático.

O Brasil é laico e desconhece qualquer religião de Estado. A dogmática de gênero, portanto, se estuda como qualquer outra. O curso da OAB será, pois, oferecido a todos sem discriminação de cor, sexo, idade ou orientação sexual. Os advogados do repúdio, por sinal, estarão bem-vindos. Porque a pretensão não é entregar uma verdade revelada. Trata-se, pelo contrário, de fazer ciência. E, para tanto, toda contribuição ajuda.

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Renato

Sou um leitor voraz, amo ler e me apaixono por escritores que conseguem debater qualquer tema com uma linguagem estruturada de tal forma que mais lembra um poema, de tão pensado nas escolhas das palavras. O que não vale para este texto. Imagino que o autor tenha um ego enorme, julgue ser mais do que realmente é e por isso tenha escolhido uma estrutura de texto tão complexa e palavras tão pouco usuais para tratar de um tema do cotidiano em um site que sem dúvida, não é frequentado por intelectuais. Quanto ao conteúdo do texto? Me perdoe, li até… Leia mais