David Alves Finotti Camardelli de Azerêdo

Os eventos climáticos extremos já deixaram de ser uma ameaça distante. Eles entraram nas casas, pararam sistemas de transporte, destruíram pontes, interromperam aulas, fecharam comércios e expuseram uma verdade incômoda, as cidades brasileiras ainda são planejadas como se o clima fosse estável. Não é. Por isso, a adaptação climática não pode continuar sendo tratada como uma pauta ambiental isolada. Ela precisa ocupar o centro do planejamento urbano, da política habitacional, da infraestrutura e da gestão do território. Adaptar as cidades é proteger vidas.

A tragédia das enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul tornou essa urgência visível em escala nacional. O balanço da Defesa Civil estadual, atualizado em abril de 2025, registrava 184 mortes, 25 desaparecidos, 806 feridos, 478 municípios afetados e quase 2,4 milhões de pessoas atingidas. Mas o Rio Grande do Sul não é uma exceção fora da curva. É um alerta. O país inteiro precisa entender que desastres não são apenas eventos naturais. Eles se tornam tragédias quando encontram desigualdade, ocupação precária, drenagem insuficiente, rios canalizados, encostas frágeis, moradias vulneráveis e governos pouco preparados.

O clima chegou à porta de casa

O Brasil é um país urbano. Segundo o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 177,5 milhões de pessoas, ou 87,4% da população, viviam em áreas urbanas. Isso significa que a crise climática será sentida, sobretudo, nas cidades. Ela aparece nas enchentes que invadem bairros inteiros, nos deslizamentos que ameaçam encostas, nas ilhas de calor que tornam a vida insuportável, na escassez de água, no aumento de doenças, na perda de áreas verdes e no colapso de infraestruturas que nunca foram pensadas para extremos.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registrou, em 2024, recorde de alertas e mais de 1,6 mil ocorrências de desastre no Brasil. O dado não deve ser lido como estatística fria. Cada alerta aponta uma cidade onde a chuva, o solo, o rio, a encosta e a desigualdade podem se combinar de forma letal. Em março de 2026, o Cemaden passou a monitorar 1.295 municípios, com meta de alcançar 2.095 localidades suscetíveis a desastres geo-hidrológicos. É um avanço importante, mas monitorar o risco não basta. É preciso reduzir o risco.

O desastre escolhe endereço

A chuva pode cair sobre todos, mas o desastre não atinge todos da mesma maneira. Nas metrópoles brasileiras, quem mora longe das centralidades, em áreas com pouca infraestrutura, pouco saneamento, pouca arborização e baixa oferta de serviços públicos, enfrenta o clima com menos proteção. Moradores de áreas de risco, famílias pobres, população negra, mulheres, crianças, idosos e trabalhadores informais costumam estar mais expostos e têm menos condições de recuperação depois da perda.

Essa desigualdade precisa ser dita com clareza. Quando uma enchente destrói uma casa autoconstruída em área precária, não se trata apenas de azar. Há ali décadas de ausência do Estado, mercado de terras excludente, falta de habitação bem localizada, tolerância com ocupações inseguras e baixa prioridade para obras de prevenção. A adaptação climática, portanto, não é só plantar árvores ou limpar bueiros. É enfrentar a forma desigual como as cidades foram produzidas.

Planejar também é adaptar

O debate climático muitas vezes fica preso a metas genéricas, documentos técnicos e discursos de emergência. As cidades precisam ir além. Adaptação climática deve aparecer nos planos diretores, nas leis de uso e ocupação do solo, nos planos de drenagem, nos planos de arborização, nos programas de habitação de interesse social, na regularização fundiária, no orçamento público e na defesa civil. Não como enfeite, e sim, como critério de decisão.

Isso significa parar de aprovar expansão urbana sobre áreas ambientalmente frágeis. Significa preservar fundos de vale, recuperar nascentes, ampliar parques, proteger encostas, reabrir espaço para rios e córregos urbanos, aumentar áreas permeáveis e tratar a drenagem como sistema, não como obra emergencial depois da tragédia. Significa também integrar habitação, saneamento e mobilidade. Não há adaptação real quando a população é empurrada para longe, sem transporte adequado, sem infraestrutura e sem acesso a oportunidades.

A infraestrutura do futuro não será apenas cinza. Ela precisará ser verde, azul e social. Verde, porque árvores, parques, praças, jardins de chuva e corredores ecológicos reduzem calor, absorvem água e melhoram a qualidade urbana. Azul, porque rios, córregos, lagoas e nascentes não podem ser tratados como obstáculos a serem enterrados. Social, porque nenhuma obra será suficiente se não proteger quem está mais vulnerável.

Soluções baseadas na natureza, como recuperação de matas ciliares, parques lineares, áreas alagáveis, agricultura urbana, telhados verdes e sistemas de infiltração, não substituem obras estruturais quando elas são necessárias. Mas ajudam a mudar a lógica. Em vez de expulsar a água da cidade o mais rápido possível, é preciso reaprender a conviver com ela. Em vez de impermeabilizar cada lote, é preciso devolver solo, sombra e vegetação ao cotidiano urbano.

A escala é metropolitana

Outro erro comum é imaginar que cada município conseguirá resolver sozinho o problema. Enchentes, ilhas de calor, mananciais, rios, transporte, ocupação do solo e periferização não respeitam limites administrativos. A adaptação climática exige governança metropolitana. Um município que impermeabiliza suas cabeceiras pode ampliar o risco de inundação no município vizinho. Uma cidade que expulsa famílias pobres para sua borda transfere vulnerabilidade para toda a região.

Por isso, políticas climáticas precisam ser articuladas entre municípios, estados e União. Também precisam ter financiamento estável. Não se adapta uma cidade apenas com campanhas educativas ou decretos depois do desastre. É necessário orçamento para prevenção, reassentamento digno, urbanização de assentamentos precários, manutenção de drenagem, produção de moradia, proteção ambiental e fortalecimento das defesas civis. A boa política climática começa antes da sirene.

A participação popular também é indispensável. Quem vive em área de risco conhece o território, percebe sinais de perigo e sabe onde a infraestrutura falha. Moradores não podem ser tratados apenas como vítimas ou obstáculos. Devem participar do diagnóstico, das prioridades e das soluções. Adaptação sem participação tende a repetir injustiças: remove comunidades sem alternativa adequada, valoriza áreas centrais e deixa periferias esperando a próxima chuva.

David Alves Finotti Camardelli de Azerêdo é arquiteto e urbanista | Foto: Arquivo

Proteger antes de reconstruir

O Brasil ainda gasta energia demais reconstruindo o que poderia ter protegido. A cada desastre, repetem-se cenas de comoção, campanhas de doação, promessas de obras e disputas por responsabilidades. Tudo isso importa no momento da emergência. Mas a verdadeira mudança está em agir antes. Mapear áreas de risco, impedir novas ocupações inseguras, oferecer moradia digna, recuperar rios, ampliar áreas verdes, melhorar a drenagem, fortalecer o saneamento e planejar o crescimento urbano são medidas mais baratas, mais justas e mais humanas do que contar mortos depois.

Adaptar as cidades ao clima é uma questão de sobrevivência, justiça social e responsabilidade pública. Não se trata de escolher entre desenvolvimento urbano e proteção ambiental. Trata-se de entender que cidade sem adaptação climática será cada vez mais cara, desigual e perigosa. A pergunta já não é se as cidades brasileiras serão atingidas pela crise climática. A pergunta é quem será protegido antes do próximo desastre.

David Alves Finotti Camardelli de Azerêdo é arquiteto e urbanista, mestre pela Universidade Federal de Goiás, doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília e pesquisador na área de planejamento urbano, paisagem, resiliência urbana e adaptação climática.

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