Caso da porteira de Goiânia revela o pior do nosso “suco” de Brasil

É preciso que esses atos de selvageria movidos à humilhação pelo poder econômico sejam expostos cada vez mais

Uma pessoa normal sai de carro e esquece o controle do portão eletrônico do condomínio onde mora. Obviamente, só se dá conta disso quando retorna e procura dentro do veículo o  dispositivo para acionar, sem sucesso. Apela então para a tradicional piscadinha de faróis, no intuito de, de repente, ter a anuência de alguém mais permissivo na portaria. Talvez dê certo.

Deu certo? Então a pessoa normal entra e, ao passar pela portaria, faz um aceno de gratidão, pedindo desculpas e se justificando pelo incômodo. Não deu? Então, a mesma pessoa encosta o carro, desce, se apresenta, mostra seus documentos, recebe-os após a conferência, agradece a quem lhe atendeu, entra no carro e segue a vida.

Com algumas variações, seria mais ou menos esse o enredo que se desenrolaria em uma ocorrência do tipo, a qual, é bom que se diga, ocorre às centenas todo dia nas grandes cidades. Regras de convivência do mundo urbano.

Posto isso, já podemos deduzir que uma pessoa normal é tudo em que não se enquadra o senhor Vinícius Pereira da Silva – do qual profissionalmente sabemos apenas que não é policial federal.

O caso de injúria racial cometido por Vinícius contra uma funcionária da portaria de um prédio de alto padrão no Jardim Goiás, em Goiânia, ganhou justa repercussão nacional. Não é todo dia que se flagra um conjunto tão consistente de preconceito, misoginia, assédio moral e até “xenofobia” – entre aspas, porque é um conceito muito particular, no caso.

Vamos ao xingatório de Vinícius:

“Grava, macaca! Chimpanzé! Chipanga! Me escara, desgraça” (…) “Me passa pro síndico, viu, chimpanzé?” (…) “Porque você não presta, desgraça. Você é uma merda, abaixo de zero”. (…) “Eu vou meter a minha arma na cintura, viu, e vou aí pra baixo pra resolver! A senhora não sabe, fica sabendo que sou policial federal e vou mostrar ‘proceis’!”

É um conjunto de assédio moral por classe social, racismo estrutural, depreciação da mulher e a tradicional ameaça por carteirada. Um suco socioantropológico de Brasil.

Quero, porém, me ater ao fato de que, pelas imagens, a tonalidade de pele da mulher é mais clara do que a do homem agressor. O que o leva a chamá-la de “macaca” e “chimpanzé”, então, senão uma distorção da realidade que o faz enxergar dois mundos – o que a mulher vive, de privações, segundo o que ele imagina, e o seu próprio mundinho de classe média alta?

São dois “países”, duas “nações” que ele torna bem distintas em sua fala criminosa: o das pessoas que prestam (ele) e das que não prestam (ela); o dos humanos com bônus (policial federal com arma na cintura) e o dos não humanos (macaca, merda, abaixo de zero).

Obviamente o xingatório do Vinícius evidencia muito mais de si mesmo do que a pessoa ofendida. E, quando uma testemunha relata que em seu histórico já consta uma agressão moral contra outra mulher (que seria uma ex-síndica do mesmo prédio), isso joga luz sobre outro aspecto, que talvez seja psicanaliticamente mais significativo.

“Errado” ele já estava desde o início. Sem o controle remoto para abrir o portão, qualquer funcionário que preze pela segurança do lugar que o empregue faria o mesmo que a funcionária humilhada precisa mesmo barrar o veículo. É o que os condôminos esperam que se faça e é por isso que pagam o serviço: vigiar, controlar, fiscalizar

É preciso que esses atos de selvageria movidos à humilhação pelo poder econômico sejam expostos cada vez mais. Mas é preciso esmiuçar o que dizem essas pessoas que moram bem, ganham bem, viajam bem e, ao mesmo tempo, devolvem ao mundo tanta coisa ruim. Algo nelas não está nada bem.

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