BRT irá travar Goiânia pelos próximos 20 anos, aponta Romário Policarpo

Presidente da Câmara afirma que obra é mais do mesmo e lamenta oportunidade perdida: “Poderíamos ter discutido o VLT”

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para o presidente da Câmara Municipal de Goiânia, vereador Romário Policarpo, o Bus Rapid Transit (BRT) Norte-Sul é a obra mais “sem sentido” que a cidade já teve em seus 85 anos de existência. Ele destaca que até mesmo o prefeito Iris Rezende (MDB) seria contrário ao projeto, mas teria optado por terminá-lo porque a cidade já estava toda quebrada quando ele assumiu a prefeitura, e também para dar uma solução mais rápida para o problema.  “É uma obra que nos leva de nada para lugar algum”, avalia Policarpo.

Com previsão de entrega no final de 2016, ainda na gestão de Paulo Garcia, o projeto de BRT Norte-Sul estabelecia a entrega de um corredor exclusivo com 21,8 quilômetros de extensão, interligando as regiões Sul e Norte da capital goiana. Segundo a proposta, seriam disponibilizados 93 ônibus, sendo 28 veículos articulados e 65 convencionais, que irão operar em quatro linhas, circulando na velocidade estimada de 28 km/h. Segundo informações da BRTBrasil, o investimento previsto era de R$ 274 milhões.

Mais do mesmo

Segundo o presidente da Câmara, fazer um corredor especial para ônibus na Região Norte, onde já existia um corredor exclusivo, é mais do mesmo. “Fazer um corredor especial na Avenida 90 onde já existia essa via também não é vantagem”, explica. “Você não está trazendo novidade alguma para a mobilidade na cidade. Os mesmos ônibus que andavam nestes locais o farão agora. O único ganho com o BRT é para as empresas, que agora irão dispor de um asfalto melhor para seus veículos trafegarem”, argumenta.

Já para os comerciantes, o prejuízo começou cedo e aumenta a cada dia, alerta o vereador. “O comércio na Região Norte que começava a avançar ali perto do Atacadão praticamente acabou. A região da 44 também foi extremamente afetada, assim como a Rodoviária que teve que alterar seu horário de funcionamento”, enumera Romário, que acrescentou ainda o fechamento de uma unidade WalMart na região.  “Tudo isso por conta de uma obra que não vai trazer benefícios para a sociedade, somente o que já existia”, conclui.

A cidade perdeu a oportunidade de ter uma discussão mais ampla que possibilitasse a implantação do VLT

Na avaliação do parlamentar, na prática, estão sendo gastos mais de R$ 200 milhões para a construção de estações e para permitir que sejam utilizados ônibus maiores do que os convencionais. “Se existia algo que funcionava bem naquela região [Norte] era a mobilidade dos ônibus. Você saia do Recanto do Bosque e setores adjacentes e chegava até a Rodoviária em 15 minutos. Essa era uma região que poderia inclusive ser contemplada com o aumento no numero de ônibus. Ali o trânsito fluía ao contrário do restante da cidade”, afirma.

“A cidade perdeu a oportunidade de ter uma discussão mais ampla que possibilitasse a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), avalia Romário, ao destacar que esse projeto sim traria uma grande mudança para a capital. “O VLT poderia ligar outras cidades, seria um garante transformação. Juntando com a obra da Leste-Oeste, poderíamos ter a oportunidade de pegar o mapa de Goiânia e fazer uma grande cruz com o VLT ligando Aparecida de Goiânia, Trindade, Santo Antônio, Senador Canedo, enfim, várias cidades da Região Metropolitana de Goiânia em um grande consórcio com todos os prefeitos”, defende Romário.

Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Oportunidade perdida

Ainda de acordo com Policarpo, a cidade já está atrasada na questão da mobilidade urbana, o que deverá se acentuar nas próximas décadas. “Goiânia perdeu a oportunidade de oferecer um transporte mais barato, mais rápido e com mais conforto aos usuários do transporte coletivo. E o que mais preocupa é termos perdido a oportunidade de viabilizar isso [o VLT] em um dos poucos eixos que, de fato, poderiam receber a obra”, acentua.

Sobre o assunto, Romário indaga: “Se um próximo prefeito quiser fazer o VLT, fará isso onde?”. Ele explica ainda que além dos eixos onde estão sendo construídos o BRT e a Leste-Oeste, resta o Eixo-Anhanguera, que também apresenta dificuldades para receber a obra. “Se tivessem começado a implantar o VLT pelos dois primeiros eixos citados, seria mais fácil implantar posteriormente na Anhanguera, de uma forma que não atrapalhasse tanto o trânsito”.

O BRT irá travar Goiânia pelo próximos 20 ou 30 anos

“No entanto, optaram por gastar mais de R$ 200 milhões no BRT, e agora fica aquela situação de entrave, porque como desfazer essa obra para fazer outra? A conclusão é que o BRT irá travar Goiânia pelo próximos 20 ou 30 anos”, explica Policarpo. “Tudo isso sendo gasto em estações e no asfalto por onde os ônibus irão transitar. Sinceramente, não consigo ver a diferença que justifique essa obra caríssima que não traz conforto para a sociedade e que está atrapalhando tanto o comércio”, assinala.

Sobre os novos corredores, o parlamentar mostra fotos de antes e depois das obras na Goiás Norte. “Até mesmo a sociedade aponta que os corredores antigos eram mais bonitos e funcionavam. A comunidade da minha região [Norte], por exemplo, utilizava a Goiás Norte para fazer atividades físicas. Com a chegada das plataformas o espaço não serve aos moradores mais. Não consigo entender o motivo dessa obra ter sido iniciada, e agora infelizmente ela será concluída sem grandes transformações para quem precisa”, explica.

Avenida Goiás Norte antes das obras do BRT | Foto: Reprodução

Outras possibilidades

Sobre a decisão do prefeito Iris Rezende de dar continuidade à obra, Romário reconhece que havia o risco de que com a não conclusão da obra, parte da verba, vinda do governo federal, ficasse bloqueada. “Mas isso não impedia que certos trechos do projeto fossem repensados, é o caso da Avenida 90. Já Goiás Norte isso não seria possível, pois os trabalhos já tinham sido iniciados na gestão anterior”, disse.

“Com isso tivemos esse estrago que violou a Avenida Goiás Norte. Felizmente, o prefeito desviou a obra na parte central da Goiás mantendo seu padrão original, que é um cartão postal da cidade. Mas, a meu ver, dava tempo de ele ter feito algo em relação à região da 90, quem sabe sentando com a prefeitura de Aparecida e discutindo o início de um VLT saindo daquele município até a Praça Cívica, por exemplo”, emendou Policarpo.

Avenida 90 Foto: Fábio Costa | Jornal Opção

Acredito que poderia ter sido diferente

Sobre o término das obras ainda neste mandato, Policarpo acredita que isso deve acontecer. “Acredito que isso seja possível, mas se ela for paralisada também não me assustaria, pois obras públicas são obras públicas”, avalia. “O que mais me preocupa na verdade é o fato de que essa obra coloca a mobilidade urbana em risco pelos próximos anos”, explica.

“Perdemos uma oportunidade de ouro de discutir e uma nova modalidade de transporte, saindo dessa espécie de ‘quadrilha’ das empresas de transporte coletivo. Era a grande oportunidade para levar à população uma nova opção de transporte. Ao invés disso, teremos a mesma opção mesmo após uma obra com cifras tão altas. Acredito que poderia ter sido diferente”, conclui.

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