Atlético Mineiro promove desfile que objetifica mulheres e causa polêmica

Além de colocar modelos de biquíni na passarela durante lançamento do uniforme, clube lançou camiseta que dizia “Dê para sua mulher”, como orientação de lavagem

| Foto: Bruno Cantini/Atlético

Enquanto o homem desfila com uniforme normal, meninas sobem na passarela quase sem nada na parte de baixo | Foto: Bruno Cantini/Atlético

O Atlético Mineiro promoveu, nesta segunda-feira (15/2), um desfile para mostrar seus novos uniformes, em parceria com a empresa DryWorld. O que seria uma noite de festa acabou se tornando uma grande ofensa às torcedoras do Galo e às mulheres em geral, com uma manifestação de machismo que gerou polêmica nas redes sociais.

Foto: Reprodução Instagram

Foto: Reprodução Instagram

Na verdade, o clube não causou revolta com apenas uma atitude, mas com duas. A primeira foi colocar à venda uma camiseta que trazia, junto das tradicionais orientações de lavagem na etiqueta da peça, a seguinte frase: “Give it to your wife”, ou seja, “Dê para a sua esposa”, sugerindo que é papel exclusivo dela entender e realizar a lavagem do produto.

Em nota divulgada pelo Facebook, a empresa responsável pela camiseta disse que a etiqueta fazia parte de uma ação publicitária. “Tal etiqueta foi criada apenas como uma peça publicitária para uma campanha não aprovada pela empresa”, diz a DryWorld.

“Assumimos toda responsabilidade no erro de produção das camisas promocionais distribuídas com esta etiqueta e garantimos que todas as precauções foram tomadas para evitar que este tipo erro aconteça novamente”, afirmou.

 

A DRYWORLD Industries pede sinceras desculpas pela etiqueta das camisas promocionais distribuídas no evento de lanç…

Publicado por DRYWORLD Industries em Terça, 16 de fevereiro de 2016

Depois, durante o desfile, colocou as modelos para desfilarem com a camiseta do uniforme tampando o minúsculo biquíni que usavam, deixando parecer que elas não vestiam nada por baixo. Isso tudo antes de apresentá-las apenas de biquíni (preto, sem nem ao menos remeter ao clube), atitude, claro, que não foi repetida no caso dos homens, que desfilaram, como qualquer outro modelo deste tipo de evento, com o uniforme completo. Até mesmo uma adolescente foi colocada na passarela em trajes mínimos.

Ao contrário da DryWorld, que ao menos admitiu o erro, a equipe do Galo fez a opção por minimizar as discussões e afirmar à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que não havia motivo para polêmicas. A assessoria de imprensa apenas reproduziu uma fala do diretor de comunicação do clube, Domênico Bhering, que afirmou terminantemente que não houve machismo.

Até uma adolescente foi objetificada no desfile | Foto: Flickr Atlético Mineiro

Até uma adolescente foi objetificada no desfile | Foto: Flickr Atlético Mineiro

“O Atlético respeita o direito democrático das pessoas de discordarem, mas isso não significa que temos que concordar com as críticas”, começou. “Não iremos responder a isso. Não houve excesso, nem atitude machista. Mas reforçamos o direito de críticas e elogios. Há quinze anos agimos dessa forma, e essa foi a festa mais elogiada. Não há porque mudar algo que vem dando certo há esse tempo”, defendeu ele.

No mesmo sentido de Domênico, o ex-presidente do clube, Alexandre Kalil, adotou a mesma tônica de classificar como bobagem toda a discussão: “Num país com tanta roubalheira, implicar com bunda de fora parece sacanagem. Esse assunto já deu”, declarou.

Sem ver caminho para diálogo com a direção do clube, um grupo de torcedoras do Galo divulgou uma nota de repúdio em que questiona o machismo no futebol e reclama da postura do clube em relação à parcela feminina da torcida. “Esperamos com esta nota que este episódio lamentável não caia no esquecimento, mas que sirva para lembrar que nós estamos aqui, que merecemos mais representatividade ocupando as arquibancadas, os departamentos e principalmente: que nós também, como cantado no hino, somos do Clube Atlético Mineiro”, pediram.

NOTA DE REPÚDIO AO DESFILE DE APRESENTAÇÃO DO NOVO UNIFORME DO CLUBE ATLÉTICO MINEIRO.

A objetificação das mulheres não é uma tradição, mas antes uma prática perversa que visa nos equiparar a uma mercadoria. O futebol, como reflexo da cultura de massas, também não está alheio ao preconceito e é, portanto, nosso papel como mulheres de uma torcida marxista contribuir com o debate para torná-lo verdadeiramente democrático e popular.

Todos os anos assistimos as apresentações de uniformes dos times e o papel da mulher é sempre o da musa ou da modelo seminua e este ano não foi diferente. Mais uma vez a representação da torcida feminina atleticana ficou limitada a modelos desfilando de lingerie e biquíni, enroladas em bandeiras ou, no máximo, vestidas com minúsculos shorts e camisas que sequer encontramos em tamanhos e modelos diversos, tal o descaso do clube com a parte feminina da torcida. As modelos femininas estavam presentes, aparentemente, apenas para o prazer masculino. E no momento do desfile destinando às roupas infantis, estava uma modelo adolescente absurdamente trajando apenas a camisa do clube e calcinha.

Ao longo de quase 108 anos de história, as mulheres torcedoras do GALO sempre tiveram seu espaço na construção de um clube que se diz “do povo”. Pois é preciso dizer, mais uma vez, à diretoria, à nova fornecedora de materiais esportivos DryWorld e aos que menosprezam nossa atitude tomando-a por “vitimismo”, que também as mulheres são parte deste povo preto e branco. Não aceitamos ser representadas como para o deleite de homens que se julgam o grande “público-alvo” do futebol.
Repudiamos a adultização de uma modelo adolescente trajando calcinha.
Repudiamos a sexualização do corpo feminino.
Repudiamos a cultura do estupro refletida e reforçada no desfile.
Lamentamos que ainda hoje ignorem a força e a voz das mulheres atleticanas.

O futebol moderno tem como o público-alvo aqueles que detém condições econômicas para bancar os altos preços dos produtos e ingressos e que se comportam como uma massa alienada e misógina, contribuindo diariamente com a violação dos direitos das mulheres, comprovando mais uma vez que machismo e o capitalismo andam juntos. Os corpos das mulheres atleticanas, representados nas modelos que trajavam as camisas ditas femininas e calcinhas, NÃO são mercadorias, objetos de consumo ou parte do espetáculo grotesco que visa reafirmar o futebol como espaço masculino.

Esperamos com esta nota que este episódio lamentável não caia no esquecimento, mas que sirva para lembrar que nós estamos aqui, que merecemos mais representatividade ocupando as arquibancadas, os departamentos e principalmente: que nós também, como cantado no hino, somos do Clube Atlético Mineiro.

Mulheres da Torcida Galo Marx

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