*Colaboração de Mylenna Scheidegger

Quatorze anos depois da morte do advogado Davi Sebba Ramalho, três policiais militares acusados de envolvimento no crime começaram a ser julgados pelo Tribunal do Júri, em Goiânia, nesta quinta-feira, 1º. O julgamento prossegue nesta sexta-feira, 2, e coloca novamente diante da Justiça uma história marcada por versões conflitantes, provas periciais questionadas e uma longa disputa judicial sobre a responsabilidade de cada um dos agentes.

Respondem ao processo o tenente Ednailton Pereira de Souza, o sargento Luiz Frederico de Oliveira e o soldado Jonathas Atenevir Jordão. Os três são julgados por homicídio. A morte ocorreu em 5 de julho de 2012, no estacionamento de um supermercado, na região da Avenida T-9, em Goiânia.

Davi tinha 38 anos e foi morto dentro de seu carro. Na época, a Polícia Militar informou que os policiais haviam recebido uma informação de que o advogado estaria no estacionamento para se encontrar com um comprador de drogas.

A investigação, entretanto, passou por diferentes etapas e versões ao longo dos anos. O caso chegou ao julgamento popular somente depois de decisões judiciais que alteraram a situação processual dos três policiais.

Família espera decisão após 14 anos

O irmão de Davi, Pedro Ivo, acompanhou o primeiro dia do julgamento. Para ele, a realização do júri representa um dos momentos mais aguardados pela família desde a morte do advogado.

Pedro Ivo afirma que a perda provocou consequências profundas entre os familiares, especialmente para o filho de Davi, Gabriel Davi, que nasceu na mesma noite em que o advogado foi morto.

Segundo o irmão, o trauma provocado pela morte atingiu o desenvolvimento da criança, que atualmente tem 14 anos. “Surpresa, né, uma coisa totalmente inesperada, que chocou muito, traumatizou a família, deixou marcas profundas, não só na viúva e no filho do meu irmão, mas em todos os outros familiares, meus pais, nós como irmãos e amigos e colegas advogados do Davi”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.

Pedro afirma que a família foi desestruturada após o crime e que Gabriel demorou anos para começar a falar as primeiras palavras.

Ao falar sobre o julgamento, o irmão da vítima ressaltou que os acusados devem ter direito à defesa, mas disse esperar uma condenação.

A gente como familiar, mas eu acho que todos que têm algum mínimo senso de justiça, esperam que com esse julgamento sendo realizado, nós queremos, inclusive, preservar as prerrogativas de defesa dos próprios policiais, pois o meu irmão não teve oportunidade de ter uma defesa, ele foi sumariamente executado, mas que com a realização do julgamento que haja ao final a proclamação do resultado pelo corpo de jurados para que os policiais sejam condenados pelos crimes que cometeram e na pena máxima possível.

A declaração de que Davi foi “sumariamente executado” é uma avaliação feita pelo irmão da vítima sobre o crime.

Do outro lado, familiares dos policiais acompanham o julgamento defendendo a inocência dos acusados. Isadora Jordão, esposa de Jonathas Atenevir Jordão, afirmou que espera que o marido seja absolvido.

Segundo ela, o policial havia saído de casa para trabalhar e cumprir o serviço na Polícia Militar.

O que aconteceu em 5 de julho de 2012

Advogado Davi Sebba, morto com tiro no peito em estacionamento de hipermercado em Goiânia Goiás | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Davi Sebba foi morto no estacionamento de um supermercado. Segundo o histórico do processo apresentado no julgamento, os policiais chegaram ao local após receberem informações relacionadas a uma suposta negociação de drogas envolvendo a vítima.

O advogado estava dentro do veículo quando foi baleado. Após os disparos, o carro bateu contra uma pilastra de sustentação.

Um dos pontos discutidos durante o julgamento envolve a arma que teria sido encontrada dentro do veículo.

O advogado e professor universitário Flávio César Santana, que conhecia Davi desde a juventude, relatou em depoimento que esteve no supermercado depois do crime, durante a realização da perícia.

Segundo ele, uma arma semelhante a um revólver calibre .38 foi retirada do veículo por um perito e apresentada a jornalistas que estavam no local. Na ocasião, foi informado que a arma havia sido encontrada no banco do passageiro.

Flávio afirmou que um dos presentes questionou como a arma poderia ter permanecido sobre o banco diante da força do impacto sofrido pelo veículo.

O perito, segundo o depoimento, respondeu que a questão seria analisada posteriormente na perícia.

A posição da arma também foi mencionada pelo delegado da Polícia Federal Bruno Pereira Pinto Gama, que posteriormente participou da investigação. Segundo ele, os laudos apontavam que outros objetos haviam sido deslocados dentro do carro após o impacto, enquanto a arma permanecera em posição considerada incompatível com a dinâmica observada.

Delegado aponta falhas e diligências que precisaram ser refeitas

Durante o julgamento, Bruno Pereira Pinto Gama relatou que assumiu a condução do inquérito depois que algumas diligências ainda estavam pendentes.

Entre as medidas realizadas estavam a tentativa de obtenção das imagens das câmeras de segurança do supermercado, novos depoimentos, requisições ao estabelecimento e análise de laudos periciais e da reprodução simulada dos fatos.

Segundo o delegado, o estabelecimento possuía diversas câmeras, inclusive no estacionamento onde ocorreu o crime. Uma testemunha informou que havia quatro equipamentos naquela área e que uma das câmeras que poderia registrar diretamente o local estaria queimada.

A investigação tentou obter as gravações. Mesmo após autorização judicial, porém, segundo o delegado, foram disponibilizadas apenas imagens das entradas e cancelas do estabelecimento.

Bruno afirmou ainda que as imagens obtidas apresentavam divergências em relação a versões dadas anteriormente por investigados. Ele não conseguiu, durante o depoimento, especificar todos os detalhes dessas divergências, mas confirmou que a análise das imagens não coincidia com uma das versões apresentadas durante a investigação.

Exame não encontrou resíduos de pólvora nas mãos de Davi

Outro ponto apresentado aos jurados foi o exame residuográfico realizado nas mãos da vítima.

Segundo Bruno Gama, o exame deu resultado negativo para resíduos de pólvora. O delegado também afirmou que não foram encontrados sinais papilares em determinados objetos analisados durante a investigação.

A defesa e a acusação discutiram durante o depoimento a possibilidade de resultados falso-negativos em exames desse tipo e as limitações metodológicas da análise.

O delegado afirmou que, no caso analisado, além do resultado negativo para resíduos de pólvora, outros elementos não apontavam para a presença de impressões digitais da vítima nos objetos mencionados.

Droga foi encontrada três dias depois

Outro elemento que chamou atenção durante o depoimento do delegado foi a localização de uma porção de maconha no local.

De acordo com Bruno Gama, nenhuma droga havia sido localizada no estacionamento no dia da morte de Davi. Uma substância foi encontrada somente três dias depois, no domingo, por um funcionário do estabelecimento, segundo o depoimento.

A droga teria sido localizada em uma área de pasto próxima ao supermercado e posteriormente encaminhada à polícia.

O delegado também relatou que foram realizadas diligências para tentar identificar a origem da substância e sua eventual relação com a versão de que Davi estaria envolvido em uma negociação de drogas no momento em que foi abordado pelos policiais.

Informação que levou policiais ao local teria partido da PF

A origem da informação recebida pelos policiais militares também foi discutida no julgamento.

Segundo o delegado federal, uma das diligências consideradas importantes durante a investigação foi justamente esclarecer de onde havia partido a informação repassada à Polícia Militar.

Bruno Gama afirmou que existiam relatórios e informações produzidos pela Polícia Federal relacionados a uma investigação sobre Davi e que esses dados teriam sido repassados à Polícia Militar. Questionado sobre a existência de uma ordem formal de um delegado da PF autorizando o repasse, afirmou que, pelo que se recordava, teria ocorrido uma ordem verbal.

Amigo descreve Davi antes da morte

Além das questões técnicas da investigação, o júri ouviu pessoas que conviveram com Davi.

Flávio César Santana afirmou que conhecia o advogado desde a juventude e o descreveu como uma pessoa alegre, expansiva e familiar. Disse também que nunca tinha presenciado envolvimento de Davi em brigas ou situações de violência.

Segundo o depoimento, Davi estava vivendo um momento de expectativa pela chegada do primeiro filho. Ele havia contado aos amigos que seria pai e estava planejando uma nova fase da vida ao lado da companheira.

Flávio também afirmou que nunca conheceu Davi como proprietário ou usuário de armas.

O depoimento ajudou a apresentar aos jurados aspectos da vida pessoal da vítima antes do crime, além dos elementos diretamente relacionados à investigação.

Processo levou anos até chegar ao júri

A situação dos três policiais mudou ao longo da tramitação judicial.

Em 2017, Jonathas Atenevir Jordão foi pronunciado para responder a júri popular por homicídio simples. Naquela etapa, Ednailton Pereira de Souza e Luiz Frederico de Oliveira foram impronunciados em relação ao homicídio.

A decisão foi posteriormente questionada pela acusação.

Em 2022, o Tribunal de Justiça de Goiás acolheu recurso da acusação para incluir no processo a qualificadora de recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima.

No mesmo período, a 1ª Câmara Criminal do TJGO analisou recursos relacionados ao caso. A discussão envolveu a possibilidade de que Davi tivesse sido morto sem oportunidade de defesa.

Em 2023, uma nova decisão determinou que os três acusados fossem submetidos ao Tribunal do Júri.

Com isso, o processo que começou em 2012 voltou a reunir os três policiais no banco dos réus.

Julgamento ocorre 14 anos depois

A distância entre o crime e o julgamento tornou-se um dos principais elementos simbólicos do primeiro dia do júri.

Para a família, foram 14 anos de espera por uma decisão. Para os acusados, o julgamento representa a oportunidade de apresentar suas versões diante dos jurados.

O caso reúne, de um lado, a família de Davi, que sustenta que o advogado foi morto sem possibilidade de defesa e espera a responsabilização dos policiais. De outro, estão os acusados e seus familiares, que defendem a inocência e contestam a acusação.

A decisão final caberá ao Conselho de Sentença, formado pelos jurados que participarão do julgamento.

Enquanto familiares e testemunhas reconstituem os acontecimentos de 5 de julho de 2012, o júri também revisita uma investigação marcada por diligências realizadas anos depois, imagens que não foram integralmente recuperadas, laudos periciais, versões divergentes e sucessivas decisões judiciais.

Quatorze anos após aquela noite, a história de Davi Sebba volta ao centro de um tribunal em Goiânia. Desta vez, a palavra final sobre a responsabilidade dos três policiais estará nas mãos dos jurados.