Aplicativos ajudam na mobilidade, mas transporte coletivo ainda deve ser prioridade

Serviço compartilhado como o Uber e a 99POP trazem nova realidade e melhorar o problema do trânsito mas, sozinhos, não conseguem solucionar entraves

Foto: Marcelo Gouveia

Em época de revisão do Plano Diretor e de proposta de criação de um Conselho da Região Metropolitana (Codemetro), a discussão sobre o espaço urbano e, consequentemente, sobre a mobilidade em Goiânia, ganha ainda mais intensidade em 2017. O debate se torna mais importante porque, dez anos depois da elaboração do primeiro plano, a realidade da cidade é completamente diferente.

Além do expressivo crescimento populacional, surgiram novidades que imprimiram mudanças significativas no trânsito nas capitais: se antes tínhamos basicamente o transporte individual, por táxis e público, hoje a realidade envolve também os serviços compartilhados, como o Uber e o 99 POP. A eles, somam-se ainda as bicicletas, defendidas por muitos como uma das soluções para melhorar o tráfego.

Questões como segurança, praticidade e falta de estacionamento levaram Daniel Silva a optar pelo Uber em grande parte do tempo | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Todas estas novidades imprimiram mudanças rápidas na sociedade e têm de ser consideradas em qualquer ordenamento urbano. Prova disso é que alguns, como é o caso do empresário Daniel Silva, usam cada vez menos o carro. “Como meu trabalho é perto de casa, então ainda uso o carro para isso, mas, às vezes, quando vou visitar um cliente, por exemplo, pego um Uber. À noite e em fins de semana, por exemplo, é só Uber.”

Os principais motivos elencados por ele para sua preferência pelo Uber são reflexos diretos da realidade das cidades: é cada vez mais difícil encontrar estacionamento, além de, lembra, carros representarem um potencial risco à segurança. “Carro você não pode parar em qualquer lugar, tem sempre o risco de ter um vidro quebrado, ser assaltado”, pontua ele.

E é dentro destas questões estruturais que a Uber desenvolve a sua estratégia de negócios .O diretor geral da Uber para a Região Central (que engloba o Centro Oeste, Minas Gerais e Espírito Santo), Ruddy Wang, explica que o relacionamento das pessoas com o carro é diretamente ligada à estruturação da Uber.

Isso porque, pontua, lembrando dados da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o espaço urbano hoje é profundamente organizado para carros, o que é uma das causas dos problemas de mobilidade que enfrentamos nas cidades. Segundo o estudo da USP, 1/4 da área de São Paulo é destinada a carros. E em outras capitais, lembra Ruddy, a situação não é muito diferente.

A doutora em Planejamento de Transportes e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Kneib, complementa: “Tem um estudo da WRI [World Resources Institute] que mostra o custo das áreas de estacionamento em uma cidade e é uma questão astronômica”.

“Ou seja,a via pública é um espaço de todos e as pessoas que têm carro monopolizam esse espaço”, afirma ela. E o pior é que, acrescenta Ruddy, dados da Uber mostram que, em 95% do tempo de vida útil, os carros ficam parados: a pessoa gasta uma hora para ir e voltar do trabalho, por exemplo, e em todo o restante do tempo, aquele bem simplesmente não é utilizado.

É nesse panorama que, conta Ruddy, a Uber se insere: na maior utilização de um veículo por mais pessoas, sem a necessidade de que ela tenha carro próprio. “Os aplicativos trouxeram realmente uma nova realidade. Ele traz a discussão entre a posse e o uso, então as pessoas começaram a entender que elas não precisam ter um carro para usar um carro, é o princípio do serviço compartilhado”, diz Erika.

“Se você tem um transporte público bem estruturado, ele consegue interagir com o Uber, com a bicicleta, o pedestre”, afirma a doutora em Trânsito Érika Kneib | Foto: Bruna Aidar

Entretanto, mesmo ajudando a melhorar o problema, afirma a professora, o Uber não é capaz de resolver a questão da mobilidade sozinho. “É uma discussão importante, que entra positivamente na cidade, mas que vai ser incorporado aos níveis de congestionamento”, alerta.

A solução, pontua, é estabelecer um equilíbrio entre o transporte coletivo para médias e grandes distâncias e a bicicleta e a caminhada para distâncias curtas, além de integrar o Uber ao sistema público de transporte. “Se você tem um transporte público bem estruturado, ele consegue interagir com o Uber, com a bicicleta, o pedestre e até mesmo com a pessoa que tem carro.”

Esta visão, inclusive, faz parte da Uber, diz Ruddy. Em capitais como Londres, em noites de sábado, dados da empresa mostram uma concentração de viagens nos pontos finais do metrô, depois do fechamento das estações. Isso mostra que os usuários utilizam o transporte público e, quando ele não atendem mais, terminam o percurso com aplicativos.

Enfim, lembra Erika, em questão de transporte público, não há caminho fácil e passa obrigatoriamente pelo investimento estatal: “O poder público tem obrigação de fazer esses investimentos. O brasileiro, vamos generalizar, há muitos anos vem dando valor ao automóvel e as cidades foram estruturadas pensando na fluidez dele. A gente está falando de um processo de cinquenta anos. Então como se muda isso? Infelizmente, é lentamente, mas hoje você já tem um posicionamento diferente de dez anos atrás.”

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laura

acho que aplicativos como Uber,oferecem um conforto de deixar o proprio carro em casa, mas é preciso pensar que o serviço de taxi sempre existiu. A febre pelos aplicativos se dá devido ao baixo custo pra quem usa mas quem oferece o serviço está sendo explorado (o motorista nao tem nenhuma relação trabalhista como aplicativo e as avarias q acontecem no carro ficam por conta apenas do motorista). alem disso o baixo custo desse modo esta fazendo com que as pessoas deixem de usar o transporte público.

FELIPE

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