Amália Hermano: a mulher que ajudou a construir a história cultural e ambiental de Goiás
25 agosto 2026 às 12h59

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Há personagens que fazem parte da história de um lugar sem, necessariamente, aparecerem com frequência nos livros ou nas conversas das novas gerações. Amália Hermano Teixeira é uma delas. Escritora, pesquisadora, educadora, jornalista, advogada e muito apaixonada pela botânica, ela esteve presente em diferentes momentos da construção cultural de Goiás e deixou registros que ajudam a compreender não apenas a formação do Estado, mas também a relação dos goianos com a natureza.
Agora, um novo movimento pretende impedir que essa memória se perca. O e-book que conta a história de Amália Hermano Teixeira Ambientalista e Polivalente, reúne textos, documentos, fotos, correspondências e depoimentos, que buscam recuperar sua trajetória, além de apresentar ao público que, segundo os próprios autores, pouco se conhece a dimensão de seu legado.
O lançamento da obra aconteceu em Goiânia, nesta terça-feira, 25, na sede da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG). Nomes como Narcisa Cordeiro, Ana Carolina d’Abreu Carvalho Pires, Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, Jacira Rosa Pires, Maria Luiza Póvoa Cruz e Paulo Rolim foram os responsáveis pela escrita do livro.
Mais do que uma biografia tradicional, a publicação foi construída a partir da recuperação de diferentes registros sobre Amália. Ao Jornal Opção, Paulo Rolim, editor e um dos autores, disse que a proposta do livro é apresentar aquilo que ele define como uma “historiografia e uma fortuna crítica” sobre a personagem. “Ele (o livro) é uma busca de documentos, imagens e depoimentos sobre Amália Hermano. Ele não é uma biografia pura e simples”, explica.
A escolha pelo formato foi resultado de um trabalho de pesquisa que começou antes mesmo da concepção do livro. Durante mais de uma década, o escritor e pesquisador Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado reuniu documentos relacionados à vida e à produção de Amália. Ele chegou a trabalhar diretamente com ela, como assessor e datilógrafo, acompanhando de perto parte de sua trajetória.
Foi a partir desse acervo que Paulo Rolim passou a atuar na organização da obra. O trabalho envolveu a seleção de documentos, textos e imagens, além da preocupação em preservar a linguagem original de materiais produzidos décadas atrás. “É um trabalho de muita responsabilidade, muito cuidado no sentido de organização de documentos, organização de textos, adequação de linguagens”, afirma.

Entre os registros reunidos estão cartas enviadas e recebidas por Amália, publicações de jornais antigos, fotografias e documentos relacionados a diferentes períodos de sua vida. O material também recupera sua proximidade com personalidades importantes da cultura brasileira.
Há registros de Amália com nomes como Jorge Amado, Zélia Gattai e Roberto Burle Marx, além de referências à passagem de Pablo Neruda por Goiânia.
Durante a cerimônia de pré-lançamento, a presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG), Andréa Teixeira, destacou que recuperar a trajetória de Amália é também preservar parte da memória cultural e intelectual de Goiás. Para ela, a publicação representa um gesto de reconhecimento a uma mulher que participou ativamente da vida cultural do Estado e ajudou a abrir espaço para a atuação feminina na produção intelectual.
“Falar de Amália é também falar de uma presença que ultrapassa o seu próprio tempo”, afirmou Andréa. Segundo ela, reunir documentos, lembranças, interpretações e afetos em torno da pesquisadora é uma forma de evitar que sua história seja apagada com o passar dos anos. “Significa também devolvê-la ao nosso presente, para que as novas gerações possam conhecê-la não como um nome distante, mas como parte viva da história que continuamos a escrever”, completou.

Uma mulher a frente do seu tempo
Para Paulo Rolim, que até o início do projeto conhecia apenas parte da trajetória de Amália, o aspecto que mais chamou sua atenção foi justamente a quantidade de áreas nas quais ela atuou. “Ela foi uma mulher além do tempo”, define.
A expressão ajuda a dimensionar a personagem. Em uma época em que o acesso das mulheres à educação e a espaços de produção intelectual ainda era limitado, Amália transitava por diferentes campos do conhecimento. Foi professora, educadora, pesquisadora, botânica, jornalista e advogada. Também se dedicou à história de Goiás e à pesquisa sobre a flora do Cerrado.
Mas seu interesse pela natureza não ficou restrito à pesquisa. Amália também esteve envolvida com iniciativas de educação agrícola e com a formação de estudantes, defendendo uma aproximação maior das pessoas com a terra e com o conhecimento sobre o meio ambiente. “Imagina nos anos 40 uma mulher lutar por educação, trazer escolas agrícolas, desenvolvendo alunos de sexo masculino e feminino”, destaca Paulo.
A relação com a natureza aparece como uma das principais chaves para compreender a trajetória de Amália. Segundo a arquiteta, escritora e pesquisadora Narcisa Abreu Cordeiro, uma das coautoras do livro, Amália possuía uma percepção ambiental muito antes de o debate ecológico ganhar a dimensão que tem atualmente. “Amália era uma pessoa que tinha uma visão antecipada da importância da ecologia e da preservação do meio ambiente, muito além dos contemporâneos dela”, afirma.
Para Narcisa, essa característica faz com que a trajetória de Amália ganhe uma nova importância nos dias atuais, em um momento em que cidades como Goiânia enfrentam problemas relacionados a mudanças climáticas, alagamentos e preservação ambiental. “Ela é a matriz da nossa consciência ecológica em Goiás”, resume.
A botânica ocupava um espaço especial na vida de Amália. Ela pesquisou espécies, manteve contato com estudiosos e cultivou especialmente o interesse pelas orquídeas. Uma espécie recebeu uma homenagem diretamente ligada ao seu nome: a Cattleya nobilior Amália.
A relação com as plantas também ultrapassava os limites da pesquisa científica. Amália era conhecida por colecionar objetos encontrados na natureza e por manter em sua própria casa um ambiente marcado pela presença de plantas e elementos naturais.

À reportagem, Narcisa também contou que o imóvel onde Amália viveu na Rua 24, em Goiânia, guardava características que refletiam essa relação. No fundo da casa havia uma fonte de água e um orquidário. A decoração também incorporava pedras, raízes e outros elementos naturais.
A intenção de transformar a residência em museu chegou a ser discutida enquanto Amália ainda era viva. Narcisa, que é arquiteta, chegou a trabalhar na adaptação da casa para receber o projeto. A ideia era preservar o imóvel e, ao mesmo tempo, garantir segurança para que o espaço pudesse abrigar o acervo. “Eu fui com a Amália em todos os cômodos da casa, deixando cada quadro e cada escultura e cada objeto nos lugares onde ela queria que ficasse o museu”, relembra.
O projeto, porém, não avançou. Segundo Narcisa, houve impasses relacionados às características arquitetônicas do imóvel e à impossibilidade de realizar algumas alterações necessárias para a instalação do espaço. Apesar disso, parte da memória da casa foi preservada em um vídeo produzido por ela.
Para Narcisa, a perda do imóvel como espaço de memória torna ainda mais importante o trabalho de recuperação do acervo e da história de Amália.
A casa também revela um aspecto menos conhecido da personalidade de Amália. O espaço funcionava quase como uma extensão de sua própria trajetória. Ali estavam obras de arte, objetos de sua coleção, fotografias e elementos ligados à natureza. Segundo Narcisa, a própria Amália tinha preocupação em indicar onde cada objeto deveria permanecer caso a residência se transformasse em museu. Era uma espécie de museu ainda em vida.
A relação afetiva de Amália com as pessoas também fazia parte desse universo. Narcisa, que conheceu a personagem ainda criança, conta que a amizade entre as duas famílias atravessou gerações. O vínculo começou por meio do pai de Narcisa, que havia participado de uma república estudantil na Cidade de Goiás com o marido de Amália. A convivência continuou posteriormente em Goiânia.

Ao longo dos anos, Amália tornou-se presença frequente em encontros que reuniam pessoas vindas principalmente do antigo norte de Goiás, região de onde também eram as famílias de Narcisa e de seu pai. Essa convivência permitiu que Narcisa conhecesse uma Amália diferente daquela registrada nos documentos históricos. Uma mulher afetuosa, que gostava de receber pessoas, cultivar amizades e estabelecer conexões.
Entre a história e a cultura de Goiânia
A trajetória de Amália também se choca com momentos importantes da construção cultural de Goiânia. Ela participou do Batismo Cultural, em 1942, período marcado pela inauguração oficial de diversos espaços e pela tentativa de consolidar a nova capital como centro político e cultural de Goiás.
Também esteve ligada à Sociedade Pró-Arte, movimento que reuniu artistas e intelectuais e ajudou a criar as bases para o desenvolvimento das artes em Goiânia. Segundo Narcisa, Amália atuou como oradora da Pró-Arte no início da década de 1940.
A entidade também teve relação com a formação da Escola Goiana de Belas Artes e com o desenvolvimento do ensino artístico na capital. Nesse ambiente, Amália circulava entre artistas, intelectuais e pesquisadores. Ela também participou do Congresso Internacional de Escritores, realizado em Goiânia na década de 1950, ocasião em que teve contato com Pablo Neruda.
Segundo o relato de Narcisa, a amizade entre os dois chegou a um episódio curioso: Amália teria presenteado o poeta chileno com um pássaro, que ele levou para o Chile. A história ajuda a mostrar uma característica recorrente na trajetória da pesquisadora: a capacidade de estabelecer relações com personalidades de diferentes áreas e nacionalidades. “Ela foi uma verdadeira anfitriã de Goiânia”, define Narcisa.
Embora a botânica tenha sido uma das grandes paixões de Amália, seu trabalho também se voltou para a história. Ela produziu pesquisas sobre personagens e acontecimentos de Goiás e reuniu esse conhecimento em diferentes publicações. Entre elas está Perfis, obra dedicada a personalidades que fizeram parte da história de Goiânia.
Outro trabalho de grande importância foi a pesquisa sobre Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como Anhanguera. O estudo foi tão extenso que Amália morreu antes de sua publicação. A obra acabou sendo publicada posteriormente. A produção mostra que seu interesse pelo passado não era pontual. Amália se dedicava à pesquisa de documentos, personagens e acontecimentos que ajudassem a construir uma memória sobre Goiás.
Esse trabalho é justamente um dos elementos que os autores do novo e-book pretendem recuperar.
Para Narcisa, a recuperação da história de Amália não deve ficar restrita ao ambiente acadêmico.Ela defende que a personagem seja apresentada também às crianças e aos jovens, especialmente pela relação que manteve com a natureza. A ideia é utilizar a história de Amália como uma porta de entrada para discutir educação ambiental, preservação e a própria formação cultural de Goiás. “Se as pessoas não tiverem um movimento cultural mesmo para retomar aquelas personagens, elas caem num apagamento”, afirma.
Na avaliação dela, Amália já começava a ser esquecida e o livro representa uma tentativa de interromper esse processo. O objetivo, portanto, não é apenas lembrar quem Amália foi, mas discutir por que sua trajetória ainda importa.
Uma história que ainda precisa ser contada

Talvez o maior desafio enfrentado pelos autores do livro seja justamente fazer com que Amália volte a ocupar um espaço na memória coletiva. Para Paulo Rolim, quanto mais o projeto avançava, mais evidente ficava a dimensão da personagem. “Ela foi tudo isso”, afirma.
Para Narcisa, o trabalho também tem um significado pessoal. Ela conta que Amália a considerava, assim como Bento Jayme, uma espécie de filha espiritual. Sem filhos, Amália teria encontrado nessas relações uma forma de transmitir seus valores e sua preocupação com a preservação da natureza.
Narcisa diz carregar hoje a responsabilidade de continuar esse legado. “Eu sinto muito responsável pela preservação da história dela dentro da questão da natureza”, afirma.
A tentativa de recuperar Amália Hermano, portanto, não é apenas um exercício de memória. É também uma forma de revisitar a própria história de Goiás. Em uma época marcada por discussões sobre meio ambiente, preservação do Cerrado e crise climática, a trajetória de uma mulher que já defendia a importância da natureza décadas atrás ganha uma nova leitura.
Amália pode ter vivido em outro tempo. Mas algumas das preocupações que ela carregava continuam absolutamente atuais. E talvez seja justamente aí que esteja a força de sua história: lembrar que, muito antes de a palavra “sustentabilidade” entrar no vocabulário cotidiano, já havia em Goiás quem percebesse que preservar a natureza também era uma maneira de preservar o futuro.
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