Há personagens que fazem parte da história de um lugar sem, necessariamente, aparecerem com frequência nos livros ou nas conversas das novas gerações. Amália Hermano Teixeira é uma delas. Escritora, pesquisadora, educadora, jornalista, advogada e muito apaixonada pela botânica, ela esteve presente em diferentes momentos da construção cultural de Goiás e deixou registros que ajudam a compreender não apenas a formação do Estado, mas também a relação dos goianos com a natureza.

Agora, um novo movimento pretende impedir que essa memória se perca. O e-book que conta a história de Amália Hermano Teixeira Ambientalista e Polivalente, reúne textos, documentos, fotos, correspondências e depoimentos, que buscam recuperar sua trajetória, além de apresentar ao público que, segundo os próprios autores, pouco se conhece a dimensão de seu legado. 

O lançamento da obra aconteceu em Goiânia, nesta terça-feira, 25, na sede da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG). Nomes como Narcisa Cordeiro, Ana Carolina d’Abreu Carvalho Pires, Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, Jacira Rosa Pires, Maria Luiza Póvoa Cruz e Paulo Rolim foram os responsáveis pela escrita do livro. 

Mais do que uma biografia tradicional, a publicação foi construída a partir da recuperação de diferentes registros sobre Amália. Ao Jornal Opção, Paulo Rolim, editor e um dos autores, disse que a proposta do livro é apresentar aquilo que ele define como uma “historiografia e uma fortuna crítica” sobre a personagem. “Ele (o livro) é uma busca de documentos, imagens e depoimentos sobre Amália Hermano. Ele não é uma biografia pura e simples”, explica.

A escolha pelo formato foi resultado de um trabalho de pesquisa que começou antes mesmo da concepção do livro. Durante mais de uma década, o escritor e pesquisador Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado reuniu documentos relacionados à vida e à produção de Amália. Ele chegou a trabalhar diretamente com ela, como assessor e datilógrafo, acompanhando de perto parte de sua trajetória.

Foi a partir desse acervo que Paulo Rolim passou a atuar na organização da obra. O trabalho envolveu a seleção de documentos, textos e imagens, além da preocupação em preservar a linguagem original de materiais produzidos décadas atrás. “É um trabalho de muita responsabilidade, muito cuidado no sentido de organização de documentos, organização de textos, adequação de linguagens”, afirma.

Editor e coautor, Paulo Rolim | Foto: Mylenna Scheidegger/Jornal Opção

Entre os registros reunidos estão cartas enviadas e recebidas por Amália, publicações de jornais antigos, fotografias e documentos relacionados a diferentes períodos de sua vida. O material também recupera sua proximidade com personalidades importantes da cultura brasileira.

Há registros de Amália com nomes como Jorge Amado, Zélia Gattai e Roberto Burle Marx, além de referências à passagem de Pablo Neruda por Goiânia.

Durante a cerimônia de pré-lançamento, a presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG), Andréa Teixeira, destacou que recuperar a trajetória de Amália é também preservar parte da memória cultural e intelectual de Goiás. Para ela, a publicação representa um gesto de reconhecimento a uma mulher que participou ativamente da vida cultural do Estado e ajudou a abrir espaço para a atuação feminina na produção intelectual.

“Falar de Amália é também falar de uma presença que ultrapassa o seu próprio tempo”, afirmou Andréa. Segundo ela, reunir documentos, lembranças, interpretações e afetos em torno da pesquisadora é uma forma de evitar que sua história seja apagada com o passar dos anos. “Significa também devolvê-la ao nosso presente, para que as novas gerações possam conhecê-la não como um nome distante, mas como parte viva da história que continuamos a escrever”, completou.

A presidente da AFLAG, Andréia Teixeira (do meio), fez o discurso de abertura do lançamento do livro | Foto: Mylenna Scheidegger/Jornal Opção

Uma mulher a frente do seu tempo

Para Paulo Rolim, que até o início do projeto conhecia apenas parte da trajetória de Amália, o aspecto que mais chamou sua atenção foi justamente a quantidade de áreas nas quais ela atuou. “Ela foi uma mulher além do tempo”, define.

A expressão ajuda a dimensionar a personagem. Em uma época em que o acesso das mulheres à educação e a espaços de produção intelectual ainda era limitado, Amália transitava por diferentes campos do conhecimento. Foi professora, educadora, pesquisadora, botânica, jornalista e advogada. Também se dedicou à história de Goiás e à pesquisa sobre a flora do Cerrado.

Mas seu interesse pela natureza não ficou restrito à pesquisa. Amália também esteve envolvida com iniciativas de educação agrícola e com a formação de estudantes, defendendo uma aproximação maior das pessoas com a terra e com o conhecimento sobre o meio ambiente. “Imagina nos anos 40 uma mulher lutar por educação, trazer escolas agrícolas, desenvolvendo alunos de sexo masculino e feminino”, destaca Paulo. 

A relação com a natureza aparece como uma das principais chaves para compreender a trajetória de Amália. Segundo a arquiteta, escritora e pesquisadora Narcisa Abreu Cordeiro, uma das coautoras do livro, Amália possuía uma percepção ambiental muito antes de o debate ecológico ganhar a dimensão que tem atualmente. “Amália era uma pessoa que tinha uma visão antecipada da importância da ecologia e da preservação do meio ambiente, muito além dos contemporâneos dela”, afirma.

Para Narcisa, essa característica faz com que a trajetória de Amália ganhe uma nova importância nos dias atuais, em um momento em que cidades como Goiânia enfrentam problemas relacionados a mudanças climáticas, alagamentos e preservação ambiental. “Ela é a matriz da nossa consciência ecológica em Goiás”, resume.

A botânica ocupava um espaço especial na vida de Amália. Ela pesquisou espécies, manteve contato com estudiosos e cultivou especialmente o interesse pelas orquídeas. Uma espécie recebeu uma homenagem diretamente ligada ao seu nome: a Cattleya nobilior Amália.

A relação com as plantas também ultrapassava os limites da pesquisa científica. Amália era conhecida por colecionar objetos encontrados na natureza e por manter em sua própria casa um ambiente marcado pela presença de plantas e elementos naturais.

Amália tinha um amor por orquídeas e tinha uma que levava seu nome | Foto: Reprodução/Internet

À reportagem, Narcisa também contou que o imóvel onde Amália viveu na Rua 24, em Goiânia, guardava características que refletiam essa relação. No fundo da casa havia uma fonte de água e um orquidário. A decoração também incorporava pedras, raízes e outros elementos naturais.

A intenção de transformar a residência em museu chegou a ser discutida enquanto Amália ainda era viva. Narcisa, que é arquiteta, chegou a trabalhar na adaptação da casa para receber o projeto. A ideia era preservar o imóvel e, ao mesmo tempo, garantir segurança para que o espaço pudesse abrigar o acervo. “Eu fui com a Amália em todos os cômodos da casa, deixando cada quadro e cada escultura e cada objeto nos lugares onde ela queria que ficasse o museu”, relembra.

O projeto, porém, não avançou. Segundo Narcisa, houve impasses relacionados às características arquitetônicas do imóvel e à impossibilidade de realizar algumas alterações necessárias para a instalação do espaço. Apesar disso, parte da memória da casa foi preservada em um vídeo produzido por ela.

Para Narcisa, a perda do imóvel como espaço de memória torna ainda mais importante o trabalho de recuperação do acervo e da história de Amália.

A casa também revela um aspecto menos conhecido da personalidade de Amália. O espaço funcionava quase como uma extensão de sua própria trajetória. Ali estavam obras de arte, objetos de sua coleção, fotografias e elementos ligados à natureza. Segundo Narcisa, a própria Amália tinha preocupação em indicar onde cada objeto deveria permanecer caso a residência se transformasse em museu. Era uma espécie de museu ainda em vida.

A relação afetiva de Amália com as pessoas também fazia parte desse universo. Narcisa, que conheceu a personagem ainda criança, conta que a amizade entre as duas famílias atravessou gerações. O vínculo começou por meio do pai de Narcisa, que havia participado de uma república estudantil na Cidade de Goiás com o marido de Amália. A convivência continuou posteriormente em Goiânia.

Arquiteta, escritora e pesquisadora Narcisa Abreu Cordeiro e amiga de Amália Hermano | Foto: Mylenna Scheidegger/Jornal Opção

Ao longo dos anos, Amália tornou-se presença frequente em encontros que reuniam pessoas vindas principalmente do antigo norte de Goiás, região de onde também eram as famílias de Narcisa e de seu pai. Essa convivência permitiu que Narcisa conhecesse uma Amália diferente daquela registrada nos documentos históricos. Uma mulher afetuosa, que gostava de receber pessoas, cultivar amizades e estabelecer conexões.

Entre a história e a cultura de Goiânia

A trajetória de Amália também se choca com momentos importantes da construção cultural de Goiânia. Ela participou do Batismo Cultural, em 1942, período marcado pela inauguração oficial de diversos espaços e pela tentativa de consolidar a nova capital como centro político e cultural de Goiás.

Também esteve ligada à Sociedade Pró-Arte, movimento que reuniu artistas e intelectuais e ajudou a criar as bases para o desenvolvimento das artes em Goiânia. Segundo Narcisa, Amália atuou como oradora da Pró-Arte no início da década de 1940.

A entidade também teve relação com a formação da Escola Goiana de Belas Artes e com o desenvolvimento do ensino artístico na capital. Nesse ambiente, Amália circulava entre artistas, intelectuais e pesquisadores. Ela também participou do Congresso Internacional de Escritores, realizado em Goiânia na década de 1950, ocasião em que teve contato com Pablo Neruda.

Segundo o relato de Narcisa, a amizade entre os dois chegou a um episódio curioso: Amália teria presenteado o poeta chileno com um pássaro, que ele levou para o Chile. A história ajuda a mostrar uma característica recorrente na trajetória da pesquisadora: a capacidade de estabelecer relações com personalidades de diferentes áreas e nacionalidades. “Ela foi uma verdadeira anfitriã de Goiânia”, define Narcisa.

Embora a botânica tenha sido uma das grandes paixões de Amália, seu trabalho também se voltou para a história. Ela produziu pesquisas sobre personagens e acontecimentos de Goiás e reuniu esse conhecimento em diferentes publicações. Entre elas está Perfis, obra dedicada a personalidades que fizeram parte da história de Goiânia.

Outro trabalho de grande importância foi a pesquisa sobre Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como Anhanguera. O estudo foi tão extenso que Amália morreu antes de sua publicação. A obra acabou sendo publicada posteriormente. A produção mostra que seu interesse pelo passado não era pontual. Amália se dedicava à pesquisa de documentos, personagens e acontecimentos que ajudassem a construir uma memória sobre Goiás.

Esse trabalho é justamente um dos elementos que os autores do novo e-book pretendem recuperar.

Para Narcisa, a recuperação da história de Amália não deve ficar restrita ao ambiente acadêmico.Ela defende que a personagem seja apresentada também às crianças e aos jovens, especialmente pela relação que manteve com a natureza. A ideia é utilizar a história de Amália como uma porta de entrada para discutir educação ambiental, preservação e a própria formação cultural de Goiás. “Se as pessoas não tiverem um movimento cultural mesmo para retomar aquelas personagens, elas caem num apagamento”, afirma.

Na avaliação dela, Amália já começava a ser esquecida e o livro representa uma tentativa de interromper esse processo. O objetivo, portanto, não é apenas lembrar quem Amália foi, mas discutir por que sua trajetória ainda importa.

Uma história que ainda precisa ser contada

Capa do livro de Amália | Foto: Divulgação

Talvez o maior desafio enfrentado pelos autores do livro seja justamente fazer com que Amália volte a ocupar um espaço na memória coletiva. Para Paulo Rolim, quanto mais o projeto avançava, mais evidente ficava a dimensão da personagem. “Ela foi tudo isso”, afirma.

Para Narcisa, o trabalho também tem um significado pessoal. Ela conta que Amália a considerava, assim como Bento Jayme, uma espécie de filha espiritual. Sem filhos, Amália teria encontrado nessas relações uma forma de transmitir seus valores e sua preocupação com a preservação da natureza.

Narcisa diz carregar hoje a responsabilidade de continuar esse legado. “Eu sinto muito responsável pela preservação da história dela dentro da questão da natureza”, afirma.

A tentativa de recuperar Amália Hermano, portanto, não é apenas um exercício de memória. É também uma forma de revisitar a própria história de Goiás. Em uma época marcada por discussões sobre meio ambiente, preservação do Cerrado e crise climática, a trajetória de uma mulher que já defendia a importância da natureza décadas atrás ganha uma nova leitura.

Amália pode ter vivido em outro tempo. Mas algumas das preocupações que ela carregava continuam absolutamente atuais. E talvez seja justamente aí que esteja a força de sua história: lembrar que, muito antes de a palavra “sustentabilidade” entrar no vocabulário cotidiano, já havia em Goiás quem percebesse que preservar a natureza também era uma maneira de preservar o futuro.

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