Além da crise política: o que justifica resultado das eleições no Tocantins e desinteresse do eleitorado

Renúncia ao voto impressiona e bate recorde no pleito suplementar do Estado tocantinense. Como estaremos até outubro? É o que eleitores e especialistas respondem

Divulgação

Encerrada a eleição suplementar do Tocantins, o primeiro turno registrou uma abstenção de 49% de eleitores que não foram votar ou votaram branco e nulo, já o resultado das urnas no segundo turno, que aconteceu neste domingo (24/6), apontou para a consolidação do fenômeno de renúncia do eleitorado: 52%.

O governador interino Mauro Carlesse (PHS), então eleito por pouco mais de 368 mil eleitores perdeu para o “não voto” (abstenções, brancos e nulos) que somaram mais de 527 mil. Os números preocupam, já que é ano eleitoral e o país vive uma situação política grave com os recentes escândalos de corrupção.

À procura de um eleitor do Estado, a reportagem encontrou a estudante de medicina Lhaura Pryscilla Sousa Oliveira, de 24 anos, que também é presidente do DCE da faculdade onde estuda em Gurupi, terceira maior cidade do Tocantis. Pelo que representa, a universitária tem autonomia quando fala pelos estudantes sobre o tema e, segundo ela, os jovens estavam apostando muito na política nova, mas que, mesmo com essa motivação, dois candidatos que representavam esse fator acabaram não indo para o segundo turno.

“A política atual do Estado está muito desgastada e a maioria dos eleitores que votou não percebem isso. Para nós estudantes, que somos apenas uma parcela menor no Estado, não conseguimos sozinhos eleger o novo no primeiro turno, então, no segundo, foi pior, porque não vimos, em nenhum dos dois candidatos, algo positivo”, disse Lhaura.

A estudante, porém, disse que votou em ambos os turnos, pois considera o ato cívico como uma responsabilidade do cidadão. “Tocantins ainda é um Estado novo, acredito que os cidadãos precisem aprender muito sobre política, assim como todos nós brasileiros, mas votar é parte desse processo”, declarou.

Goiás

Em Goiás, pesquisas de institutos como Grupom, Serpes, Directa, Fortiori e outros, já mostram que, em média, 30% dos eleitores pretendem anular o voto ou mesmo não sabem em quem votar. O mesmo cenário é verificado na intenção de votos na disputa presidencial. Seguindo o exemplo de Tocantins, nas eleições gerais em outubro, a porcentagem pode ser ainda maior.

Para entender um pouco o que pensam os eleitores, o Jornal Opção falou com o diretor da Grupom Pesquisas, Mário Rodrigues Filho, que atribuiu os números à falta de interesse da população pelo governo no decorrer dos anos. Ele confirmou que os pesquisadores tem tido dificuldade na campo de trabalho, pois as pessoas estão decepcionadas com a política.

“Dos anos 80 para cá, quando as pesquisas começaram no Brasil, o número de abstenções, tanto em pesquisas quando nos resultados reais, acabam aumentando a cada ano eleitoral”, afirmou Mário.

O cientista político Guilherme Carvalho, de 25 anos, acredita, porém, que o caso de Tocantins não pode ser comparado ao que virá nas eleições de outubro deste ano. “Devemos ressaltar a excepcionalidade do caso tocantinense, pois a ‘chave’ dos eleitores não estava ligada”, disse ele, lembrando também que outros fatores, como o revezamento de líderes tradicionais no Estado,  pode ter ajudado a contribuir com o resultado das abstenções.

“Há também a crítica ao sistema político tradicional e outra questão: que a grande maioria dos partidos brasileiros foram fundados do Estado pra sociedade, ou seja, o inverso do que deveria ser. Então, com isso, não há uma ligação direta entre os eleitores e as legendas”, explica o cientista, reforçando que todos esses fatores podem ter contribuído para o caso de Tocantins.

Vale lembrar que as eleições de 2014 revelaram uma abstenção que superou a de 1998, até então, a mais alta desde que o sistema democrático foi instalado no Brasil. Há quatro anos, 19,4% do eleitorado brasileiro não compareceu às urnas – 27,7 milhões dos 142,8 milhões de eleitores no país. Os votos brancos também foram muitos naquele ano, 3,8%, ou 4,4 milhões dos 115,1 milhões de votos registrados. Quanto aos nulos, 5,8% dos eleitores que compareceram às urnas naquele ano anularam seus votos para presidente.

Os números podem mostrar um reflexo do que está por vir, somado ao caso de Tocantins e o que mostram as pesquisas mais recentes. De toda forma, porém, os números preocupam e até mesmo com pontos de vistas diferentes, os entrevistados concordam em um ponto: conhecer o candidato, participar da política e comparecer as urnas e votar é indispensável.

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