“A festa acabou e estamos batendo à porta da recessão”, alerta economista Nathan Blanche

Sócio da Tendências Consultoria, analista critica o fato de o País ter “pulado” de um tipo de populismo econômico para outro

“Saímos da economia populista de esquerda para cair na economia populista de direita. Agora, a recessão está batendo à porta.” Esse é o resumo da análise que o economista Nathan Blanche, da Tendências Consultoria, faz do atual momento vivido pelo Brasil, que, segundo ele, não soube se beneficiar da disfuncionalidade causada na economia mundial pelo caos sanitário provocado pela Covid-19.

Nathan Blanche: economista da Tendências Consultoria | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Em suma, é nada mais que a antiga máxima de que toda crise é também uma oportunidade – princípio resumido no ditado “enquanto uns choram, outros vendem lenços”. Na visão do experiente consultor, a equipe econômica e o governo como um todo não lidaram como deveriam com o momento. Pelo contrário, Nathan vai além: para ele, o Brasil teve bons números “apesar” do trabalho dos gestores federais.

É que, com o cenário trágico deixado pelo coronavírus, as grandes economias do mundo se mexeram para sair da recessão aguda e abrupta do ano passado. Estados Unidos e Comunidade Europeia, por exemplo, investiram mais de 20% de seu produto interno bruto (PIB) para alavancar a recuperação pós-Covid.

Mesmo batendo cabeça, sem saber como atuar, o governo brasileiro acabou por tirar a sorte grande: viu seus números de exportação subirem com a expansão do valor das commodities. “Os preços das commodities estão bombando: o do minério de ferro triplicou, o da soja mais do que dobrou, sem falar de outros insumos para consumo mundo afora”, exemplifica Nathan.

Isso fez com que a balança comercial do Brasil, grande exportador de produtos primários, chegasse a um superávit gigante – mais de 50% de 2020 para 2021. Para o agronegócio, foi uma maravilha, mas a conta chegou à mesa dos mais pobres: a valoração esticada lá fora e a demanda interna fizeram o arroz triplicar de preço e o feijão ficar perto de quadruplicar. No fim, está aí uma inflação de alimentos superior a 16%, “comendo os pratos dos mais pobres”, segundo o analista da Tendências.

Por outro lado, Nathan Blanche diz que “felizmente” essa disparada está acabando. “Já há os primeiros sinais de retração de preço nominal de insumos e produtos internacionais. O petróleo lidera isso, já está caindo. Nos Estados Unidos já falam em aumento de taxa de juros, o que diminui a atividade econômica.” Por aqui, o Banco Central pretende também aumentar os juros Selic, para equilibrar os preços, o que impacta nas contas públicas.

“Estamos voltando pra nossa realidade, mas em meio a um cenário muito difícil, com uma brutal intervenção populista em busca de votos”

Se a disparada está arrefecendo, também a “festa” está no fim para o Brasil, com os preços internacionais se acomodando. “Estamos voltando pra nossa realidade, mas em meio a um cenário muito difícil, com uma brutal intervenção populista em busca de votos, mesmo em um ano pré-eleitoral”, explica Nathan Blanche, ao criticar o investimento do governo Jair Bolsonaro  (sem partido) em programas como o Auxílio Brasil, não pelo caráter social, mas por questão eleitoreira e desrespeitando a gestão fiscal.

De acordo com o cenário posto pelo boletim Focus de 31 de março, as projeções fiscais da Tendências, no entanto, são ainda positivas para 2021 (veja figura). “Este ano, a situação é maravilhosa para arrecadação. Com todos os equívocos, a balança ajudou a melhorar a relação dívida-PIB. O governo tinha tudo para cumprir a meta dos tetos, que é constitucional, mas isso foi jogado no lixo. Ou seja, a única referência de controle das contas públicas conhecida mundo afora, o limite fiscal, estava na preservação desse teto. Virou um escândalo a irresponsabilidade fiscal desse País.”

Quadro comparativo entre o que projetava o boletim Focus no fim de março e as projeções atuais da Tendências Consultora | Foto: Reprodução

Crise política
A crise institucional é outro ponto preocupante. “Isso é um fator a mais para piorar o cenário para investimentos no País. Quem financia o crescimento são os investidores. Com alta de juros, inflação subindo, renda caindo, piorando a questão fiscal e furando teto em ano pré-eleitoral, ainda tem a instabilidade entre os Poderes. Isso sem falar do andamento da CPI [da Pandemia]”, diz Nathan.

Um exemplo bem nítido de que não há como o mercado confiar no governo, segundo o consultor, está na proposta de protelar o pagamento de precatórios. “A economia até dá sinais positivos. Mas isso é por esforço fiscal do governo? Não, é apesar da irresponsabilidade de um governo que chega ao ponto de querer se apoderar dos precatórios, de forma ilegal, reduzindo em mais de R$ 40 bilhões os pagamentos, numa manobra que lembra muito as pedaladas de Dilma Rousseff (PT). Pra quê? Para fazer campanha. E nem estamos ainda em ano eleitoral.”

E o governo conta ainda com outras “armas eleitorais, lembra Nathan. “São as operações na área fiscal que foram aprovadas por lei este ano e que haviam ficado fora do limite da regra do teto, as quais, no ano que vem, poderão beneficiar os partidos que apoiam o governo.” Entre elas, estão o auxílio emergencial, gastos em saúde de combate à Covid-19, o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego (BEm) e o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), de crédito para micros e pequenos empresários.

Por fim, em um ponto que poderia abrir um sol para boas expectativas do mercado em meio às tenebrosidades, o consultor da Tendência não está otimista com a reforma fiscal, em curso no Congresso. “A reforma fiscal vai aumentar o imposto do produtor, de quem produz e investe”, lamenta.

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