No silêncio da noite, enquanto a maioria do mundo dorme, um dos maiores espetáculos da natureza se desenrola sob as ondas e a fotógrafa Jialing Cai tem testemunhado esse fenômeno de perto, registrando imagens de criaturas abissais que emergem das profundezas em busca de alimento, revelando um universo submarino que poucos tiveram o privilégio de contemplar.

Quando a premiada fotógrafa subaquática Jialing Cai se lança ao oceano aberto durante a madrugada, ela não precisa descer às escuras profundezas para encontrar seus modelos. “Eu só preciso me jogar no oceano aberto à noite, e o mar profundo virá até mim”, revela a artista de Chongqing, China, à BBC. 

Dessa forma, Cai testemunha a migração vertical diária (MVD), o maior deslocamento de biomassa do planeta, quando trilhões de minúsculos zooplânctons sobem centenas de metros em direção à superfície sob o manto protetor da escuridão. 

Em dezembro de 2018, com apenas 19 anos, Cai embarcou em seu primeiro mergulho em águas negras na Baía de Batangas, Filipinas, e jamais seria a mesma. “Não existe nenhuma referência para você saber sua localização neste espaço tridimensional”, explica a fotógrafa sobre a experiência de flutuar em um “vazio negro sem fim”. Durante essa imersão inicial, contudo, “a empolgação superou o medo”, e ela rapidamente descobriu que aquele aparente vazio estava, na verdade, repleto de vida. 

Jialing Cai mergulhando no período da noite | Foto: Kim Aristorenas)

Desde filhotes de polvo e águas-vivas até caranguejos e peixes juvenis, passando pelos minúsculos copépodes (os chamados “insetos do mar”) Cai encontrou um verdadeiro festival de biodiversidade.

Sua dedicação e talento, aliás, já foram amplamente reconhecidos. Em 2023, a revista Oceanographic a nomeou Fotógrafa Oceânica do Ano por sua imagem de um náutilo-de-papel, um polvo raramente encontrado com uma cápsula de ovos fina como papel. Recentemente, em 2025, Cai conquistou o prêmio Oceanographic Female Fifty Fathoms por sua coleção de fotografias que capturaram os visitantes mais carismáticos das profundezas.

A estratégia da sobrevivência noturna

O fenômeno que Cai documenta com maestria acontece em todos os ambientes marinhos e de água doce do planeta, conforme explica Laura Hobbs, professora de ciências marinhas do Ártico na Associação Escocesa de Ciências Marinhas, à BBC.

 “Essa é a maior migração em termos de biomassa do planeta – e acontece todos os dias.” Durante essa jornada noturna, o oceano vibra com um verdadeiro “coro vespertino” com o tagarelar de incontáveis peixes, camarões, águas-vivas e lulas a caminho da superfície, que retornam ao abismo pouco antes do amanhecer.

Cai relembra o momento em que compreendeu todo esse processo: “Foi como um raio”, diz a fotógrafa, que estudava biologia marinha na Universidade da Virgínia. “Não pude deixar de interromper o professor. Eu disse: ‘O senhor está dizendo que eu não preciso descer até as profundezas do oceano para ver as criaturas pessoalmente?’ Percebi que podia vislumbrar um mundo que meu corpo mortal jamais me permitiria alcançar.”

Encontros fotográficos memoráveis

Em suas expedições noturnas, Cai já documentou espécies fascinantes, como a medusa imortal adulta, que “parecia uma lâmpada na noite do oceano”. Essa criatura recebe esse nome por sua capacidade de “reverter ao seu estágio inicial, o estágio de pólipo”, ao detectar perigo, podendo reiniciar seu ciclo de vida repetidamente. 

Para capturar sua imagem, Cai utilizou uma técnica engenhosa: a água-viva se assustou com a luz forte e retraiu seus tentáculos, então a fotógrafa mudou para uma luz vermelha, com flash branco para capturar a imagem instantaneamente. “Às vezes, é preciso usar esse tipo de truque para que as criaturas marinhas nos mostrem como realmente se comportam”, explica.

Medusa imortal | Foto: Jialing Cai

Entre seus registros mais impressionantes está um peixe jovem que capturou uma água-viva na boca, aproveitando-se das toxinas presentes em seus tentáculos. “Este é um comportamento muito típico desses peixes jovens”, diz Cai.  “Eles se aproveitam dos tentáculos venenosos da água-viva.” 

Peixe captura uma água-viva na boca | Foto: Jialing Cai

Em outra imagem, é possível ver um xaréu juvenil pousado na campânula de uma água-viva, enquanto dentro dela um filhote de polvo é digerido. “Para o filhote de polvo, esta água-viva é brutal”, lamenta a fotógrafa.

Nem todos os encontros noturnos de Cai, contudo, são puramente naturais. Em uma imagem, “dois peixinhos, cada um não maior que a unha do meu polegar, navegam em mar aberto à noite, protegidos pela frágil estrutura de um pedaço de papel de bala à deriva”, descreve a fotógrafa. “Um refúgio inesperado em um mundo cada vez mais moldado por detritos humanos.”

Peixes presos em pedaço de papel de bala | Foto: Jialing Cai

Essa realidade preocupa especialistas como o professor Jon Copley, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que alertou em entrevista à BBC sobre os impactos negativos da atividade humana na zona mesopelágica, a vasta camada de água que se estende entre 200 e 1.000 metros de profundidade, abrigando mais peixes do que o resto do oceano combinado.

“As previsões indicam que a abundância de vida nessa região diminuirá”, adverte, estimando que a população local possa encolher em até 40% até o final do século.

A jornada épica dos caranguejos

As imagens de Cai, segundo Hobbs, oferecem uma visão fascinante da diversidade da vida nessa escala no oceano. “Essas enormes migrações acontecem como parte de um ambiente tridimensional complexo, onde minúsculos zooplânctons se movem em direção à superfície para se alimentar, enquanto simultaneamente enfrentam uma variedade de predadores.”

Um exemplo notável dessa complexidade são os caranguejos, geralmente considerados habitantes do fundo do mar. Como explica Cai, eles passam por um estágio planctônico quando jovens, flutuando na coluna d’água e passando por múltiplos estágios de metamorfose. “Esta imagem captura um caranguejo jovem em pleno processo de muda, descartando seu exoesqueleto antigo como quem tira um suéter”, descreve a fotógrafa.

Na fase larval, os caranguejos flutuam na coluna de água, passando por estágios de metamorfose | Foto: Jialing Cai

Então, da próxima vez que você encontrar um caranguejo-verde correndo pela praia, lembre-se: ele pode ter viajado mais de 160 quilômetros nas profundezas do oceano, sobrevivendo contra todas as probabilidades em uma das mais extraordinárias migrações da natureza, um espetáculo que Jialing Cai continua documentando, noite após noite.

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