50 anos sem Bertha Lutz: a mulher que abriu caminho para o voto feminino no Brasil
16 setembro 2026 às 12h45

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A morte de Bertha Lutz completa 50 anos nesta quarta-feira,16, data em que o Brasil relembra a trajetória da bióloga, advogada, educadora, diplomata e ativista que teve papel central na luta pelos direitos das mulheres e na conquista do voto feminino no país. Nascida em 1894, Lutz integrou o movimento sufragista brasileiro, participou da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), tornou-se a segunda mulher a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados e integrou, em 1945, a delegação brasileira responsável pela construção da Carta das Nações Unidas.
Bertha Lutz morreu em 16 de setembro de 1976, aos 82 anos, no Rio de Janeiro. Cinco décadas depois, sua história ainda é relevante em meio a manifestações contemporâneas contra o voto feminino. A posição contrasta com uma das principais conquistas da trajetória de Lutz, que passou décadas defendendo a participação das mulheres na vida política brasileira.
Filha da enfermeira Amy Fowler e do cientista Adolfo Lutz, Bertha nasceu em São Paulo e estudou parte da formação na Universidade de Sorbonne, em Paris. Depois, trabalhou na área de botânica do Museu Nacional até 1964. Paralelamente à carreira científica, dedicou-se às causas sociais e tornou-se presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
A luta pelo voto feminino, entretanto, começou antes da conquista formal. As sufragistas brasileiras pressionaram políticos e buscaram apoio institucional durante anos. Um dos momentos decisivos ocorreu quando o deputado Juvenal Lamartine prometeu garantir o direito de voto às mulheres caso fosse eleito governador do Rio Grande do Norte.
Ele venceu a eleição em 1927 e, naquele mesmo ano, mulheres do estado começaram a se alistar para votar. A professora Celina Guimarães Viana, de Mossoró, foi a primeira registrada. Em entrevista concedida em 1971, Bertha Lutz definiu aquele episódio como um marco: “Foi realmente o primeiro passo. O fato começou a se espalhar pelo país”.
A mudança nacional veio em fevereiro de 1932, quando Getúlio Vargas reconheceu o voto feminino por decreto. No ano seguinte, mulheres de todo o país participaram da eleição para a Assembleia Constituinte. Em 1934, o direito à participação feminina nas eleições foi incorporado à Constituição. No mesmo ano, Bertha Lutz disputou uma vaga para deputada federal e recebeu mais de 16 mil votos. Ficou como primeira suplente e assumiu o mandato em 1936, após a morte de Cândido Pessoa, tornando-se a segunda mulher a ocupar uma cadeira parlamentar no Brasil.
O caminho percorrido por Lutz foi construído em um período de fortes restrições à participação feminina. Na Assembleia Nacional Constituinte de 1890-1891, parlamentares chegaram a defender argumentos baseados na suposta diferença entre homens e mulheres. “Predominando no sexo masculino as faculdades intelectuais, predominam no feminino as afetivas”, afirmou à época o deputado Lacerda Coutinho.
Em 2003, durante a primeira edição do Diploma Bertha Lutz no Senado, a então senadora Emília Fernandes ressaltou o pioneirismo da ativista: “A mulher cidadã Bertha Lutz, advogada e bióloga que se diplomou em tempo no qual a mulher não tinha outra opção além de tornar-se dona de casa e gerar numerosa prole. Foi uma mulher muito à frente de seu tempo, um tempo de nefasta opressão que, além de negar acesso às instâncias formais de poder, reprimia de maneira terrível todas aquelas mulheres que tentassem romper as barreiras impostas por uma sociedade marcada por valores machistas.”
O legado permanece institucionalizado. Todos os anos, o Senado Federal entrega o Diploma Bertha Lutz a personalidades que se destacam na defesa dos direitos das mulheres e das questões de gênero.
Professora emérita da UFRJ, Bertha morreu em uma casa de três andares no Alto da Boa Vista, onde vivia com cinco cachorros. Dezessete mulheres levaram seu caixão até a sepultura no Cemitério São João Batista.
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