“Torço para que Amastha deixe a soberba e reavalie seus posicionamentos”

Vereador mais votado para a Câmara Municipal de Palmas afirma que não se submeterá a desmandos do chefe do Executivo

12523061_831738996948467_3965819655842931358_n

Leo Barbosa

Dock Júnior

O vereador mais votado da capital do Tocantins, com 2.678 votos, nas eleições deste ano, é Léo Barbosa, de apenas 27 anos (nasceu em maio de 1989, coincidentemente a mesma data da criação de Palmas). Em face de precariedade e falta de estrutura da cidade que acabava de nascer, Yhgor Leonardo Castro Leite, o Léo Barbosa, foi “obrigado” a nascer em Porto Nacional, contudo, considera-se palmense de coração e seu nascimento foi um dos primeiros registros do cartório de Palmas. Graduando em Gestão Pública, o mais jovem vereador eleito em Palmas tem profundas raízes com o município. O avô, Fenelon Barbosa Sales, foi o primeiro prefeito da cidade e seu pai, Wanderlei Barbosa, já exerceu cargo de vereador na capital e hoje é deputado estadual.

Entusiasmado pela surpreendente votação, e pela consequente vitória, Léo Barbosa recebeu o Jornal Opção para apresentar as diretrizes que pretende dar ao seu mandato como parlamentar municipal. Ele também avalia o processo eleitoral, a gestão do prefeito e Amastha e suas perspectivas acerca da próxima composição da Câmara Municipal.

A sua família, Barbosa Sales, está intimamente ligada à política, principalmente no que se refere à capital, uma vez que seu avô foi o primeiro prefeito, seu pai exerceu três mandatos de vereador e está na segunda legislatura de deputado estadual. Também seu tio Marilon, que atualmente é vereador e foi reeleito no último pleito. Sua responsabilidade em dar continuidade ao projeto deles é ainda maior face a esse considerável histórico político familiar?
Sem dúvida, a responsabilidade é grande. A influência do meu pai na minha vida pública foi e continua sendo muito grande. Quando ele foi eleito a primeira vez eu era uma criança, com menos de 10 anos, e sempre cultivei a figura dele como meu ídolo. A minha avó tinha um trato com as pessoas muito peculiar. Era uma política na essência, uma grande líder.

Já meu avô, da mesma forma, um homem simples, mas que deixou seu legado em Palmas. Como primeiro prefeito, ele abriu as primeiras ruas dessa cidade, inaugurou escolas, hospitais, cuidou da iluminação pública e o principal: cuidou da parte social, cedendo lotes aos mais carentes que acabavam de chegar à cidade e estavam sem condições de se estabelecerem. Para se ter uma ideia, o último loteamento popular e público do Distrito de Taquaruçu foi feito pelo meu avô, ainda no início da década de 1990. As pessoas ainda reconhecem isso por onde passo.

Falando em Taquaruçu do Porto, sua base eleitoral, o distrito elegeu três representantes para a Câmara Municipal: Major Negreiros, Marilon Barbosa e Léo Barbosa. Portanto, a comunidade demonstrou força política no último pleito. Como o sr. avalia essa divisão de votos entre três postulantes para uma população razoavelmente pequena?
Fiquei muito feliz em saber que no local onde eu nasci, cresci e vivi as pessoas entenderam o meu projeto político viável. Eu fui o mais votado naquele distrito com mais de 200 votos de frente para o segundo colocado, como também obtive excelente votação em toda a cidade. Para mim foi um recado claro: elegi-me com discurso de oposição ao prefeito Amastha – que, diga-se de passagem, perdeu a eleição naquele distrito – e isso demonstra que aquela comunidade não está satisfeita com a atual gestão. Esse sentimento contrário foi manifestado nas urnas através da minha eleição. Estou pronto para representar toda a cidade, evidentemente, porém, com atenção especial ao meu reduto eleitoral originário, quer seja apresentando bons projetos, quer seja fiscalizando a maneira com o erário será aplicado ou votando a favor de matérias que eu considerar benéfico para aquela comunidade.

Pelos relatórios das zonas eleitorais expedidos pelo TRE, sua votação não se limitou ao distrito de Taquaruçu, mas se estendeu por toda a cidade. A que fatores o sr. atribui essa amplitude do seu eleitorado?
Tenho amigos e líderes em todas as regiões da cidade. A votação no Jardim Taquari foi expressiva. Fui o mais votado naquele setor. Já na região norte fiquei entre os cinco mais bem votados. É evidente que isso aumenta a minha responsabilidade para representar a população palmense como um todo. As pessoas votaram em mim porque acreditaram nas minhas ideias e nas minhas propostas. Por isso, não posso decepcioná-las. Nesse contexto, devo ressaltar outro recado das urnas: as pessoas estão carentes de representantes que falem por elas ou defendam suas causas coletivas. Os dois candidatos a vereador mais votados neste pleito são novatos. Isso merece reflexão.

Em relação ao parlamento municipal, alguns fatos ocorridos nessa legislatura que se finda em 2016 acabaram por respingar em alguns vereadores devido a seus comportamentos em plenário. A celeuma acerca da pauta trancada, face à falta de quórum, o alto custo anual do próprio parlamento como também a ínfima quantidade de servidores efetivos, em razão da ausência de concurso público. Para concorrer ao cargo naquela casa, logicamente o sr. está a par destes acontecimentos. Qual a sua avaliação acerca dessas polêmicas?
O episódio da pauta trancada se deu por culpa dos vereadores da base do prefeito, atendendo ordens dele. Restou claro que nesta legislatura o Amastha se tornou o patrão dos vereadores, enquanto o verdadeiro patrão deles deveria ser o povo. Eu disse isso durante toda minha campanha eleitoral e ressaltei que a Câmara era fraca, submissa, passiva e omissa. Na condição vereador, adianto-lhe que não me submeterei a desmandos do chefe do Executivo. Torço para que essa nova composição de vereadores também não se curve aos caprichos e im­posições do prefeito.

Veja, um pai de família que fica três dias ou uma semana sem trabalhar sem justificativa está sujeito a advertências ou mesmo demissão. Ora, um vereador também não pode ficar quatro meses sem trabalhar e achar que isso é normal. Não é. Palmas é uma cidade que recebe gente diferente todos os dias que vem para morar, trabalhar e estudar. Os problemas e as demandas, evidentemente, também aparecem e acontecem durante todo o tempo, em razão deste fluxo. Não é possível aceitarmos que os vereadores não estejam zelando, dia após dia, para resolver essas questões.

Quero, todavia, fazer um salvo conduto aos vereadores de oposição, que apesar de serem minoria compareciam sim às sessões na tentativa de votar os projetos e destrancar a pauta, no entanto, em razão da ausência dos vereadores da base, muitas vezes nem conseguiam abrir a sessão.

A alta tributação e o alto custo de vida em Palmas é algo que incomoda a população e o sr. deve ter ouvido muitas reclamações durante a campanha eleitoral. Especificamente em relação ao ISS — que foi majorado na gestão Amastha de 3% para 5% — como sr. se posiciona? Há na sua plataforma de propostas alguma no sentido de revisar esse porcentual?
Há uma nítida evasão de receitas em razão desse aumento, na medida em que muitos comerciantes se instalam em Lu­zimangues, distrito de Porto Nacional, onde o porcentual do ISS ainda beira a casa de 3%, contudo, atravessam a ponte sobre o lago e prestam serviços em Palmas. Quando recolhem os impostos, o beneficiário é o município de Porto Nacional.

Penso que o colegiado deve discutir isso logo nos primeiros meses da próxima legislatura. É necessário propor comissões que discutam o tema e também a alta carga tributária. Se foi a própria Câmara de Vereadores que aprovou o aumento do porcentual, caberá a ela também analisar propostas que tenham por objetivo reduzi-lo. Veja o caso do IPVA no Estado do Tocantins. Foi majorado inicialmente, entretanto, o colegiado de deputados estaduais derrubou o aumento, voltando a praticar os índices anteriores.

Essa alta carga tributária retira de Palmas a capacidade de investimento. A gestão está equivocada porque prejudica a população da cidade como um todo. Eu quero propor sim a rediscussão disso e torço para que esse novo time de vereadores tenha esse mesmo pensamento.

Quero rediscutir  a contratação  da empresa Blue para operacionalizar o estacionamento rotativo da cidade”

Quero rediscutir
a contratação
da empresa Blue para operacionalizar o estacionamento rotativo da cidade”

É certo que há duas receitas básicas que ajudam o gestor a administrar um município: verbas do tesouro municipal e emendas parlamentares que viabilizam a construção de grandes obras. Em virtude de o prefeito Amastha ter se isolado, afastando da administração municipal a grande maioria de deputados estaduais, federais, senadores e até mesmo do governo estadual, a população foi obrigada, pelo gestor, a pagar por todo o “custo Palmas”. Qual a sua visão acerca do tema, uma vez que agora o sr. é parte integrante deste processo, e uma vez reeleito o gestor, é provável que ele insista nas mesmas práticas?
O prefeito Amastha acha que ele é o único político que sabe administrar a cidade. Isso fica claro quando ele denigre todos os políticos, detentores de mandato. Essa empáfia é repugnante. A bem da verdade, por blasfemar aos quatro cantos que ele é o único que sabe tudo, ele inviabiliza as relações com a classe política, e também com os poderes constituídos. As verbas, naturalmente, são destinadas pelos parlamentares estaduais ou federais a outros municípios do Estado.

Não há uma só obra da gestão do prefeito Amastha que tenha sido feito com recursos da fonte 00 e isso mostra também que apenas as verbas do município não são suficientes. Ficou claro na campanha eleitoral quando ele foi incapaz de responder, quando questionado nos debates, quais eram as obras da gestão dele, visto que o máximo que ele fez foi acabar obras já iniciadas. São muitas deficiências por parte da gestão que acabaram por impedir a construção de obras relevantes. A busca do diálogo e do entendimento para obtenção dessas parcerias é uma lição que o prefeito Amastha ainda precisa aprender. Torço para que ele deixe a soberba e reavalie seus posicionamentos.

Há uma tradição que o vereador mais votado costuma assumir a presidência da mesa diretora da Câmara de Vereadores. Essa é uma das suas metas?
Eu me candidatei e me elegi pensando em representar as pessoas, a cidade, fazer oposição responsável, se for o caso, e votar a favor dos bons projetos que beneficiem a população, enfim, fiscalizar os gastos do Executivo.

Não parei para pensar na hipótese de ser presidente. Isso deve passar pelo colegiado e a opinião dos pares deve ser respeitada. Eu posso ter sido o mais votado, porém, na Câmara eu terei apenas o meu voto, que vale o mesmo tanto que o voto do parlamentar menos votado. Tudo isso tem que ser avaliado, sopesado e após as discussões, chegarmos a um nome que agrega os anseios de todos, ou pelo menos, da maioria.

Analisando o resultado das urnas, é possível garantir que as chapas de oposição elegeram mais vereadores que a chapa situacionista. Partindo desse contexto, restou claro que o prefeito, assim como em 2012, não conseguiu eleger a maioria na Câmara. Como o sr. analisa uma suposta ingovernabilidade caso a oposição se mantenha com maior numero de vereadores que a situação?
Isso mostra que há um equilíbrio entre as forças. As urnas provaram aos vereadores que acompanharam o prefeito Amastha na aprovação de medidas impopulares e comportamentos pouco recomendáveis, que eles devem rever alguns conceitos. Isso refletiu diretamente no resultado do pleito de 2016. Houve um corte drástico na composição da Câmara, em que pese isso ser salutar para a democracia. A casa de leis precisa debater os problemas da cidade, em vez de ser subserviente às vontades do chefe do Executivo, como por exemplo, o direito de se ausentar da cidade e do País sem prestar quaisquer satisfações à Câmara, nem tampouco pedir-lhe autorização para tanto. Eu me posiciono claramente no sentido de rever essa benesse concedida ao prefeito Amastha, logo nos primeiros dias do meu mandato. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, no ano de 2015 o gestor de Palmas viajou mais ao exterior que a própria então presidente da República, Dilma Rousseff (PT). Isso tem que acabar.

Espero que a oposição se mantenha firme, não se aliando ao prefeito posteriormente, visto que essa conduta nos dará independência para fiscalizar os gastos da prefeitura, convocar audiências públicas ou se­cretários para prestar esclarecimentos, etc. Esse equilíbrio de forças é necessário.

Quais são suas perspectivas para esse mandato que se inicia em 2017?
Fizemos uma campanha limpa e propositiva, ombro a ombro e nas redes sociais. Ouvi muito as pessoas, principalmente as minorias, com a finalidade de aprimorar ainda mais os meus conhecimentos sobre os problemas da cidade. Quero por em prática a minha capacidade de ser o agente das mudanças na Câmara Mu­nicipal, apresentando bons e viáveis projetos para a cidade.

Tenho boas perspectivas para o ano vindouro. Respeito a voz das urnas, que reelegeu o prefeito Amastha, mas eu tenho várias discordâncias acerca do seu modelo de gestão. Vou trabalhar e desempenhar com decência o papel de vereador, função que me foi delegada pelo povo de Palmas. Quero rediscutir pontos divergentes como, por exemplo, a contratação da empresa Blue para operacionalizar o estacionamento rotativo da cidade. Vou pleitear também que o Executivo mude suas políticas sociais, uma vez que a população mais carente dessa cidade está desassistida e não tem vez e nem tampouco voz junto à Prefeitura de Palmas. São muitas crianças estão na fila na busca de vagas em creches e isso é um gargalo que necessita de solução.

Farei uma oposição responsável e estarei na torcida para que o prefeito faça um mandato melhor do que este que se finda este ano. Abomino a ideia do “quanto pior, melhor”. O povo de Palmas não pode pagar o preço de intrigas pessoais entre seus governantes. A Prefeitura tem que ter condições de prestar serviços de qualidade aos seus munícipes, além de abrigar e acolher todos os palmenses de forma mais humana, igualitária e satisfatória.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.