Sucessão tem jogo de cena, sede de poder e demarcação de território

A disputa pela Prefeitura de Palmas já tem tantos pré-candidatos que os eleitores se assustam quando lhes é apresentado tantos nomes

Dock Júnior

Com tempo de campanha reduzido, as siglas partidárias lançam seus melhores nomes, quer seja com o fito de sentir o clamor popular, quer seja para “negociar” uma vaga de vice ou mesmo esse eventual apoio futuramente.

O atual gestor, Carlos Amastha (PSB), é candidato natural à reeleição. O PSL, do deputado estadual Cleiton Cardoso e do secretário municipal de Infraestrutura, Christian Zini, indicou-lhe um nome para a vice: o vereador Gerson Mil Coisas, ex-presidente da Fundação Cultural.
O prefeito, de acordo com enquetes e pesquisas, tem cerca de 25% dos votos, contudo, apresenta em média 32% de rejeição perante a população. O maior problema da rejeição é que o eleitor que rejeita consegue angariar, pelo menos, três votos contrários aliados ao dele.

Basta “exaltar as qualidades” do candidato rejeitado, baseado em fundamentos sólidos, na sua roda de amigos ou no seio familiar, que facilmente obterá outras rejeições. Em contrapartida, o eleitor que se mostra favorável a esse ou àquele candidato, dificilmente consegue convencer mais um ou dois eleitores que o candidato por ele escolhido é a melhor opção.

Por tais razões, a missão do prefeito é extremamente complicada. E muito dessa rejeição está ligada à falta de diálogo com o parlamento e a sociedade como um todo, aliado a um exacerbado populismo, decretos ditatoriais, contratações ao arrepio da lei sem licitação, chiliques, faniquitos e ataques histéricos – entre os quais os eventos do lançamento da campanha contra a dengue e a passagem da tocha olímpica pela capital – além, é claro, de não ter cumprido muitos de seus compromissos de campanha.

O maior adversário de Amastha é o ex-prefeito Raul Filho (PR). Suas intenções de voto são surpreendentes, ultrapassando a marca de 35%. Quem apostou que o ex-gestor estava morto politicamente após sair do Paço Municipal no final de 2012, certamente perdeu muito dinheiro. Raul tem um eleitorado fiel, é verdade, contudo o registro de sua candidatura ainda é uma incógnita.

Raul Filho e deputado Gaguim: se aquele não puder, este será candidato | Foto: Divulgação

Raul Filho e deputado Gaguim: se aquele não puder, este será candidato | Foto: Divulgação

Atolado em processos judiciais promovidos pelo MPF que o tornaram inelegível, o único prefeito reeleito de Palmas até hoje, luta perante os Tribunais buscando um remédio jurídico que o possibilite entrar na disputa. Raul Filho obteve uma liminar no Superior Tribunal de Justiça (STJ) na quarta-feira, 29, no entanto, a decisão é temporária, ainda necessita de julgamento de mérito para ter efeitos plenos. O eleitor anda muito ressabiado com candidaturas baseadas em liminares. A novidade é o apoio do deputado federal Gaguim (PTN) à sua candidatura.

O ex-governador faz a política do amigo fiel ao soldado que foi para a guerra: “…vou cuidar da sua noiva, ok? Se você voltar vivo, você se casará com ela… Se sucumbir por lá, eu mesmo caso!” A estratégia de Gaguim passa por essa lógica. Apresentou seu total e irrestrito apoio a Raul Filho, consciente do capital político que este possui. Se Raul se candidatar, Gaguim o apoia politicamente e até financeiramente. Se Raul ganhar, o deputado terá as portas da Prefeitura de Palmas abertas. Em contrapartida, se Raul for impedido judicialmente, Gaguim mesmo disputará a eleição com o apoio do ex-prefeito.

Um fato, entretanto, chama a atenção. Tanto Raul Filho quanto sua mulher, Solange Duailibe, são políticos sem mandato. A lógica, caso Raul não possa se candidatar, seria lançar a candidatura dela, transferindo-lhe grande parte dos votos, ou, pelo menos, encaixá-la como vice-prefeita, na suposta aliança com Carlos Gaguim.

Outra hipótese também não está descartada: apoiar o candidato Siqueirista. É que o PR de Raul e do senador Vicentinho tem profundas raízes com aquela ala política. Com Gaguim ou sem Gaguim, o histórico favorece uma aliança desta natureza e não seria surpresa alguma se ela ocorresse.

No que se refere a suposta transferência de votos para a esposa, também é fato que Marcelo Lelis (PV), atualmente inelegível, possui um grande capital político na capital. É certo que, mesmo subliminarmente, ele fará esforços para transferir muitos desses votos à sua mulher e vice-governadora, Claudia Lelis (PV). Resta claro que Claudia é ativista política, dinâmica, inteligente, empreendedora e está em plena pré-campanha, conversando e ouvindo a população, contudo, para que seu pleito seja exitoso, falta um “plus”.

Seria mais que natural que o atual comandante do Palácio Araguaia abraçasse de vez a ideia e fizesse que a chapa vencedora do pleito de 2014 – PMDB-PV – se invertesse para PV-PMDB no pleito de 2016. Mas o governador Marcelo Miranda é demasiadamente democrático, certamente vai ouvir até o porteiro do diretório do PMDB, para só então decidir os rumos da sigla peemedebista nesta eleição.

Mas, questiona-se: o PMDB tem um nome de peso hoje para a disputa municipal? E a resposta é não! Rogério Freitas, presidente da Câmara de Vereadores de Palmas, e o “dinossauro” Derval de Paiva são excelentes nomes para compor a chapa de Cláudia Lelis na condição de vice, mas nunca como cabeças de chapa. Quanto ao deputado estadual Valdemar Junior, seria uma loucura eleitoral tanto alçá-lo a vice da candidata do PV, como também seria um tiro no pé lançá-lo nessa disputa para bater de frente com a vice-governadora, uma aliada do Palácio Araguaia.

A verdade é que o PMDB é grande demais, complicado demais, engessado demais e possui mais caciques do que índios. A hora é de composição e não de rachas. Entretanto, todos que vivem os meandros da política tocantinense sabem que não vai ser tão simples assim.
E a conhecida força do siqueirismo no Tocantins? É um caso à parte. Muitos analistas políticos acreditam que qualquer candidato apoiado pela histórica ala siqueirista sai, por baixo, com 20% dos votos. E o pré-candidato deste seguimento é o apresentador de rádio e TV Marcão Poggio, do DEM. Seu nome foi lançado em evento que contou com a presença da presidente estadual do DEM, deputado federal Professora Dorinha. Esta, por sua vez, possui um cacife político imensurável e certamente vai angariar muitos votos ao seu candidato.

Marcão Poggio e Fabiano Parafusos: se der aliança, a chapa ganha fôlego | Foto: Divulgação

Marcão Poggio e Fabiano Parafusos: se der aliança, a chapa ganha fôlego | Foto: Divulgação

A vantagem de Marcão sobre os demais? Além da popularidade em razão do seu programa de TV voltado para as classes C e D, Poggio representa o novo e a maioria do eleitorado anseia por tudo que é novo e diferente. Um bom discurso, uma boa plataforma e um bom plano de governo colocam esse candidato no páreo.

Dois detalhes devem ser observados: a sabedoria para se livrar da – também existente! – rejeição ao siqueirismo, bem como a falta de um vice de peso. E dentre os pré-candidatos, qual se alinharia melhor ao perfil do apresentador Poggio? Fabiano Parafusos (PRB), certamente. Se essa composição acontecer, a chapa ganha fôlego, porque Fabiano agregaria a força do empresariado, a classe mais insatisfeita com a gestão do prefeito Amastha.

Quanto à deputada Luana Ribeiro (PDT), seu nome já foi lançado como pré-candidata. É um sonho antigo dela, que disputou a última eleição municipal. A falta de espaço no PR do Senador Vicentinho a fizeram migrar para velho PDT de Brizola e Carlos Lupi. Mas em que pese Luana ter um bom capital político – e a prova são suas três eleições consecutivas para deputada estadual –, aliado à herança política do seu pai, senador João Ribeiro, e também a um bom plano de governo, que já foi apresentado, ela ainda precisa de um apoio de peso.

Ângelo e Edna Agnolin não são ícones políticos suficientemente grandes para alavancar sua candidatura. A parlamentar, a bem da verdade, é outra que também precisaria de um bom vice, oriundo de um partido que represente uma significativa parte do eleitorado.

Outro nome que surge, mas cuja força está vinculada ao partido, é o vereador Pastor João Campos (PSC). É que o presidente da Assembleia Legislativa, Osires Damaso, além dos deputados Junior Evangelista e Jorge Frederico migraram para essa sigla na janela de transferências ocorrida no início do ano. Este fato realmente tem peso político.

Ademais, João Campos, naturalmente, tem grande influência junto à comunidade evangélica na capital e, pelo menos em tese, este fato lhe renderia um grande número de votos.

Inobstante a isso, o partido possui em suas fileiras o ex-candidato à Presidência da República, pastor Everaldo Pereira, além do furacão Jair Bolsonaro, que também poderia arregimentar alguns votos na capital, vez que é admirado por uma boa parte da população. Caso essa candidatura não decole, João Campos é um bom nome para vice-prefeito numa chapa com ideologias políticas semelhantes ou afins.

Já o SD, de Wanderlei Barbosa e Vilmar Oliveira, vem comendo pelas beiradas. O partido ainda não deu o pontapé inicial, contudo o deputado de Taquaruçu vem, praticamente desde o início do mandato, batendo pesado na gestão de Carlos Amastha. Se outrora participou da campanha que elegeu o colombiano ao Paço Municipal, hoje é inimigo ferrenho. Vanderlei e o próprio SD necessitam marcar território, porém, ainda não demonstraram quais as diretrizes da campanha eleitoral deste ano. As conversas e os acertos políticos, entretanto, são vários. Na semana que passou o pré-candidato se reuniu, em seu gabinete na Assembleia Legislativa, com o presidente do PMDB no Tocantins, Derval de Paiva. Na pauta, o processo sucessório em Palmas. As possíveis coligações não estão descartadas. Se existe naquele parlamento um deputado que pode ser classificado como astuto e tenaz, esse sujeito é Wanderlei. Barbas de molho, portanto.

Wanderlei Barbosa e Derval de Paiva: será possível sair uma chapa viável?  | Foto: Divulgação

Wanderlei Barbosa e Derval de Paiva: será possível sair uma chapa viável? | Foto: Divulgação

Osires Damaso, Bolsonaro, Pastor Everaldo e João Campos: com os evangélicos | Foto: Divulgação

Osires Damaso, Bolsonaro, Pastor Everaldo e João Campos: com os evangélicos | Foto: Divulgação

Pra não ser esquecido
Outra pré-candidatura, com poucas chances é bem verdade, mas real, foi lançada. O senador Ataídes Oliveira (PSDB), com mandato até 2018, necessita que seu nome se torne conhecido entre os eleitores tocantínios. Ele já fez isso no último pleito para governador, lançando uma candidatura que não tinha a menor chance de ser vitoriosa. A bem da verdade, o mandato de senador lhe caiu dos céus com o falecimento do senador João Ribeiro. Na condição de primeiro suplente assumiu a cadeira no Senado, todavia, nunca foi vitorioso nas urnas.

A população, até pouco tempo, sequer havia ouvido falar de Ataídes e este histórico de ilustre desconhecido não ajudará em nada sua candidatura à reeleição para senador da República, que é o seu objetivo final. Enfim, o peessedebista quer apenas ser visto e lembrado, todavia, se cair no seu colo “de novo”, ele agradecerá entusiasticamente.

Por fim, o polêmico Sargento Aragão, do PEN. Um político considerado por grande parte da população como íntegro, mas que, paradoxalmente, é avaliado como de difícil trato. É que Aragão, por seu posicionamento austero ao longo dos anos, angariou inimigos – incluindo o prefeito Amastha, do qual era o vice na chapa de 2012 – e este fato, por si só, afasta alguns possíveis correligionários.

Aragão está praticamente sozinho, não se tem notícias de coligações e a possibilidade de ele lançar uma chapa pura é real. A chance dele se tornar vice em alguma das outras chapas, pela experiência anterior, também é improvável. Considerando-se o fato que um político sem mandato é como um rei sem coroa, a candidatura – mesmo que considerada kamikaze por alguns – será registrada, nem que seja pelo espaço midiático ou pela demarcação de território político.

Enfim, a disputa pelo Paço Municipal está aberta com inúmeras variantes, entretanto, duas conclusões são visíveis a olho nu: será extremamente difícil para o prefeito Amastha superar o quadro de rejeição, porém, por mais contraditório que isso possa parecer, um novo mandato pode lhe ser entregue de bandeja, caso a oposição entre na disputa desunida. A divisão dos votos entre os opositores é tudo que o prefeito deseja, com todas as suas forças. l

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