José Bonifácio : “Siqueira Campos não conseguia cumprir seus compromissos”

Deputado da base aliada demonstra preocupação com o andamento do governo e diz que tudo que ele tentou não deu certo

José Bonifácio: “Visita a Marcelo Miranda não significa apoio político” | Foto: Benhur de Souza

José Bonifácio: “Visita a Marcelo Miranda não significa apoio político” | Foto: Benhur de Souza

Ruy Bucar

O deputado José Bonifá­cio, do PR, que integra a bancada do governo, reconhece que o ex-governador Siqueira Campos (PSDB) não conseguiu cumprir os compromissos de campanha. Bonifácio avalia que dificilmente o governo terá tempo hábil e condições objetivas para realizar o prometido, porém torce para que isso ocorra, o que, em sua opi­nião, seria bom para o To­cantins e para o ex-governador, que conquistou a fama de tocador de obras, mas que neste governo não conseguiu acertar.

Sobre o destino do PR, que era oposição até a morte do senador João Ribeiro e agora parece voltar à base do governo, o deputado conta que assiste com certa perplexidade o “tiroteio” entre Luana Ribeiro e Ronaldo Dimas pelo controle do partido. “Eu não sei o que vai ser, porque de repente Luana (Ribeiro) anuncia que vai pra base do governo, e o presidente (Ronaldo Dimas), que a gente consideraria da base do governo, diz que ela está desautorizada porque quem vai decidir é a votação e que se o PR for para oposição a deputada ficará em desconforto”, comenta o deputado, que diz que vai esperar a decisão do partido.

Bonifácio faz questão de explicar que participou da reunião do PMDB em Tocantinópolis no último final de semana, a convite do ex-governador Marcelo Mi­randa e da senadora Kátia Abreu, com quem tem boas relações políticas, em solidariedade ao ex-governador, que teve suas contas rejeitadas pela Assembleia Le­gislativa numa manobra política, mas que isso não representa apoio ao candidato da oposição. O deputado relata que ficou muito contente com o tratamento respeitoso que recebeu por parte de adversários locais que estavam presentes.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Opção o deputado critica os governos do PT pelos escândalos que revelam a prática de corrupção e observa que a democracia vive um período de acomodação no mundo todo, e que as ditaduras e governos autoritários que ainda restam, como em Cuba e na Venezuela, estão com os dias contados. Bonifácio não esconde a admiração pelos feitos da ditadura militar e chega a considerar que o regime militar adotou políticas de distribuição de renda, portanto, de certa forma foi comunista. “É prática do comunismo distribuir renda, então a revolução (ditadura militar) foi comunista”, conclui.

O sr. participou de uma reunião do PMDB, em Tocantinópolis, sua cidade, para prestar solidariedade ao ex-governador Marcelo Miranda no que se refere à rejeição das suas contas na Assembleia Legislativa. Em época de eleição essa atitude tem repercussão política. Até onde vai a sua identificação com a oposição?
É bom ir a um local onde se é bem-recebido, principalmente pela recepção dos meus adversários paroquiais, que são membros do PMDB, o ex-prefeito Antenor Queiroz, o ex-vereador Mardônio Queiroz, o presidente do partido (PMDB), Antonio Cunha. Estou muito feliz de ter sido bem-recebido. Eu fui convidado pelo governador Marcelo Miranda e a senadora Kátia Abreu. Na eleição de 2010 praticamente eu adotei o deputado federal Irajá Abreu (filho da senadora), o apoiei e orientei na sua campanha, mudei o seu discurso, expliquei coisas para ele, tanto que ele me cunhou de pai político. Eu sou igual a meu tio Alziro Gomes, que dobrava com o deputado Resende Monteiro (de partido adversário) e foi assim a vida inteira. Eu tenho muita consideração pelo deputado Irajá e pela senadora Kátia, pessoas das quais eu não abro mão.

E quanto a um eventual apoio ao ex-governador Marcelo Miranda, como já se chegou a especular?
O governador Marcelo sempre me tratou muito bem, com muita deferência mesmo sendo adversário. Eu gosto dele porque a gente não joga fora quem nos afaga, isso é verdade. Agora quanto ao apoio eu não digo nem que sim, nem que não. Desejo que ele tenha oportunidade de ser julgado pelo povo, o julgamento das contas dele aqui na Assembleia foi errado, no meu entendimento jurídico. O grande tribunal do Marcelo deverá ser o povo, e a não ser as conversas do (deputado) José Augusto, em que ninguém acredita, todo mundo fala que estaria muito bem cotado nas pesquisas. De novembro para cá não vi mais nenhuma pesquisa, mas a campanha só começa com horário eleitoral. Se pesquisa elegesse alguém não precisava de eleição, e a gente vê muita coisa mudar após o início da campanha, como já vi em Palmas; em Goiás com o Iris Rezende, duas, três vezes; mudou aqui no Tocantins, na eleição do próprio Marcelo Miranda. Por isso que existe eleição. Então acontece muita mudança durante uma campanha, mas que o Marcelo é favorito não se pode negar. Agora em respeito até à posição nebulosa do PR, que eu não sei o que vai ser, porque Luana Ribeiro anuncia que vai para base do governo, e o presidente Ronaldo Dimas, que a gente consideraria da base do governo, diz que ela está desautorizada porque quem vai decidir é a convenção e que se o PR for para a oposição a deputada Luana ficaria em desconforto. Olha que coisa!

Neste caso é melhor ter cautela e aguardar a decisão do partido?
A posição do partido não determina a minha posição, mas eu devo esperar essa posição, e estou aqui. Quando o deputado José Augusto disse que uma hora eu estou na oposição e outra na situação, ele não falou bem a verdade. Acontece que os parlamentares geralmente ficam restritos a um lado, a uma posição e votam cegamente, e eu digo que o que ele acha dubiedade da minha conduta não é dubiedade, é independência e consciência. A mesma consciência que me faz considerar hipócrita hoje todos baterem palmas contra a ditadura (militar), contra isso, contra aquilo, eu vejo os erros da ditadura ou da revolução gloriosa de 64, mas vejo os acertos também.

Quais seriam estes acertos?
Nós podemos contrapor os acertos do asfaltamento da Belém-Brasília (BR-153) pelo presidente Emílio Garrastazu Médici? A construção de Itaipu (usina hidrelétrica), da ponte Rio-Niterói, da Rodovia dos Imigrantes, (usina hidrelétrica de) Tucuruí, a (rodovia) Transamazônica, da consolidação de Brasília, do milagre econômico ou os erros da democracia que estão dilapidando a Petrobras, que hoje é uma vergonha nacional, o mensalão, o Igeprev, isso tudo são monstrengos da democracia. Existem os monstrengos da ditadura. Eu vi um guerrilheiro da Var-Palmares ter assassinado um trabalhador, um motorista de taxi em São Paulo. Era preciso que a presidente Dilma Rousseff, o Ministério da Justiça, pedisse perdão ou desculpas ao país pelo fato da esquerda ter assassinado um inocente, que no dizer deles estaria no lugar errado no momento errado.

Já estamos na sétima eleição para presidente, o período mais longo de estabilidade democrática da história do país. A ditadura nos ensinou a valorizar a democracia?
A democracia já se consolida no mundo. O Muro de Berlim caiu, a União Soviética se desintegrou, existem certos lampejos de ditadura que não devem persistir, Cuba não aguenta mais muito tempo e a Venezuela está desmoronando. Agora o Brasil é omisso, omisso com as ditadurazinhas que existem no continente americano. Já morreram praticamente 40 manifestantes na Venezuela e talvez os petistas estejam batendo Palmas para o Nicolás Maduro, que está tão maduro que não deve demorar a cair.

O sr. defende os feitos da ditadura militar, que prefere chamar de revolução gloriosa, com convicção da mesma forma que se considera comunista. Não é incoerência?
Justamente porque toda forma de comunismo não é uma ditadura? A ditadura cubana, a ditadura russa, a ditadura chinesa. Na realidade todo comunista é ditador. Eu não defendo a ditadura em si, eu defendo o que a ditadura militar fez de bom, os resultados, qual é a maior estrada desse Estado? É a Belém-Brasília, ela foi feita por Juscelino, totalmente de cascalho, de terra, a grande conquista foi o asfalto e foi no governo de Emílio Garrastazu Médici. Posso condenar a aposentadoria rural, os aposentados especiais, que foi uma criação do governo Médici, era meio salário mínimo, que o governo (Fernando) Collor (de Melo) aumentou para um salário, eu posso condenar isso? Talvez tenha sido até hoje o maior feito social da história do Brasil. É muito mais viável pagar um salário a um pobre do que dar auxílio família de 30, 40, 50, 90 reais. Foi um feito da revolução e não posso condenar isso. É prática do comunismo distribuir renda, então a revolução foi comunista.

As manifestações que tomaram conta do país, revelando uma nova faceta do Brasil, sobretudo com a Copa do Mundo, é uma tendência natural de consolidação da democracia?
O brasileiro alcançou certa posição e ele não se satisfaz só com cesta básica, com auxílio alimentação, com bolsa, com aqueles míseros reais que fazem com que a política do PT seja elogiada. O Bolsa Família só não satisfaz, o Brasil, os brasileiros precisam aproveitar os bens que estão colocados à disposição das pessoas, já diziam outros políticos que não se dê só o peixe para comer, dê a linha para pescar, isso o grande governador e prefeito de Paraíso do Tocantins, Moisés Avelino, pregava. Acho que deve ser ofertado ao brasileiro mais oportunidades. A Copa, um grande trunfo do presidente Lula e do governo do PT, pode se transformar num fiasco. O povo vendo os desmandos, o gasto exacerbado de dinheiro, pode exijir do governo certas mudanças e o povo brasileiro está coberto de razão.

Há muito tempo não tem segundo turno no Tocantins. Essa eleição pode ser decidida no segundo turno?

Sim. O último segundo turno teve Moisés Avelino e Moisés Abrão. Acredito que, até pelo crescimento do Marcelo Lelis e do Ataídes Oliveira, uma candidatura do governo nunca é fraca, uma candidatura do PMDB nunca é fraca, com certeza vai dar segundo turno.

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O sr. é um deputado da situação, mas que mantém postura independente e coerente, crítico daquilo que considera equívoco. Que balanço faz do governo, ainda tem tempo para recuperar o desastre administrativo que foi até aqui?
O governo não cumpriu seus compromissos. Ainda existe uma última tentativa nesse programa Pró-município (programa de apoio aos municípios com repasse de recursos para recuperação da malha viária municipal), vamos ver o que dá. Eu fico ressabiado porque nada deu certo, o (ex)governador Siqueira Campos, um grande timoneiro, um grande construtor de obras, nesse mandato, as suas tentativas não estão sendo vistas. Tem obras? Tem, o governo tem obras, mas elas não se consolidaram no coração do povo. É preciso mostrar muito, temos nove meses de mandato, o tempo está curto, tomara que o governo ainda cresça, para que o governador termine bem a sua história nesse mandato.

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