Por que Olyntho Neto renunciou à liderança do governo na Assembleia Legislativa?

Deputado estadual Olyntho Neto | Foto: Divulgação

O inferno astral do deputado estadual Olyntho Neto (PSDB) parece não ter fim. Um problema atrás do outro mantém a vida do jovem parlamentar agitada como nunca. Quando não é com a polícia, é com o Ministério Público Estadual. Tais condutas já resultaram em investigações por fraude eleitoral e utilização de caixa dois, ordem de prisão para seu pai, João Olintho, e, por fim, renúncia à condição de líder do governo na Assembleia Legislativa.

Durante a disputa eleitoral de 2018, o irmão do parlamentar, o advogado Luís Olinto Rotoli, foi detido quando saía de uma agência bancária de Araguaína, após a Polícia Civil atender a uma denúncia de extorsão. Ele estava num carro locado pela Assembleia Legislativa do Tocantins — à disposição do deputado — quando foi abordado, junto com motorista Edilson Ferreira, assessor militar da Casa de Leis.

O advogado negou que os R$ 500 mil fossem para campanha eleitoral, mas sim para compra de gado. “Entretanto, Luiz Rotoli disse que não detinha contato com nenhum vendedor, que ficaria com o valor em casa e que compraria no futuro”, descreve o relatório da Polícia Civil.

Paralelamente, a Delegacia de Repressão a Crimes de Maior Potencial Contra a Administração Pública (Dracma) instaurou inquérito policial contra o deputado Olynhto Neto, cujo objetivo é apurar a utilização de veículo oficial e funcionário da Assembleia no transporte dos R$ 500 mil na semana do primeiro turno das eleições de outubro, que poderá, inclusive, culminar com cassação de registro eleitoral e perda do mandato.

Além disso, após as eleições, devido ao mau cheiro que exalava de um certo galpão, uma denúncia foi feita à Polícia Militar de Araguaína. Averiguada a ocorrência, a investigação conjunta da PM e da Polícia Civil encontrou 200 toneladas de lixo em um galpão no distrito agroindustrial de Araguaína, composto por resíduos hospitalares, oriundos do Hospital Regional de Araguaína e de outras 12 unidades hospitalares. O material, que continha até mesmo restos ou partes de corpos humanos, não estava adequadamente acondicionado e nem tampouco foi tratado adequadamente.

O dono do galpão? O deputado Olyntho Neto. O responsável pela empresa de remoção do lixo? O pai do parlamentar. O Ministério Público resolver investigar contratação da empresa, sem licitação, por R$ 6 milhões para coletar lixo de 13 hospitais.

Após a polêmica, o contrato foi suspenso e depois cancelado, como também os pagamentos foram suspensos, depois de uma ordem do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins. O inquérito civil, instaurado pelo Ministério Público, investiga a relação da referida empresa com o advogado João Olinto.

Após o episódio, João Olinto empreendeu fuga sem prestar depoimento e teve a sua prisão preventiva decretada, sendo considerado foragido. Segundo a Polícia Civil, ele seria, de fato, o proprietário da empresa Sancil Sanantonio Construtora e Incorporadora LTDA, contratada pelo governo. Contudo, duas mulheres — funcionárias do seu escritório — aparecem como sócias da firma. Elas também tiveram as prisões decretadas.

“Ele tinha a função de coordenar os trabalhos da Sancil por interpostas pessoas. Ele não constava na relação de sócios da empresa, mas ele utilizou de duas funcionárias do escritório de advocacia para o fim de constituir essa empresa”, diz um trecho do Relatório do Inquérito Policial.

Efeito cascata

O certo é que uma semana depois do galpão ser descoberto, 12 delegados regionais do Tocantins foram exonerados dos cargos de chefia pelo governo estadual. Um dos afetados foi o delegado regional de Araguaína, Bruno Boaventura. Ele estava coordenando as investigações sobre o lixo hospitalar. O delegado alegou estar sofrendo retaliação por parte do governo, por influência do deputado estadual Olyntho Neto, teoricamente o maior prejudicado com a investigação.

Como forma protesto, toda a cúpula da Secretaria de Segurança Pública resolveu entregar os cargos, entre os quais o próprio Secretário, Fernando Ubaldo Monteiro Barbosa, o subsecretário e todos os diretores da pasta.

Não houve outra alternativa. Pressionado, não se sabe pelo Palácio Araguaia ou por sua própria consciência, o deputado estadual Olyntho Neto entregou na segunda-feira, 19, a liderança do governo na Assembleia Legislativa.

Em uma curta nota, ele não fez comentários diretos à crise aberta com a exoneração do delegado regional de Araguaína, Bruno Boaventura, mas reafirmou apenas que seu afastamento é para que o governador Mauro Carlesse “continue firme no seu propósito de reorganizar e desenvolver nosso querido Estado do Tocantins, sem vínculo com qualquer fato alheio ao seu desejo de trazer dias melhores para o povo tocantinense”.

Se, por enquanto, foi possível contornar os escândalos, essa pecha de foragido atribuída a seu pai mancha em demasia a carreira do jovem deputado. Não é difícil, entretanto, ocorrer sua cassação, após ser diplomado, em razão da apreensão de meio milhão de reais em plena campanha eleitoral com pessoas intimamente ligadas.

Como diria aquele velho caboclo lá dos rincões do jalapão tocantinense: “É amigo, quando a coisa fica difícil, não é fácil”.

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