“Estou feliz em jogar no Corinthians, meu clube do coração”

Jogador revelado no Palmas Futebol e Regatas, que hoje brilha no campeão brasileiro, fala do sonho da seleção brasileira e revela que voltará à capital tocantinense quando pendurar as chuteiras

lucca

Dock Junior

Há pouco mais de um mês, no dia 19 de novembro de 2015, o Sport Club Corinthians Paulista sagrou-se campeão brasileiro de futebol. Entre os atletas que festejaram a importante conquista, um autêntico tocantinense de coração e criação (nascido em Alto Parnaíba, no Maranhão), Lucca. O atacante quase franzino (hoje mais forte), mas muito rápido, ajudou o Timão na trajetória vitoriosa que estabeleceu a melhor marca da era dos pontos corridos desde que o campeonato passou a ser disputado por 20 clubes, em 2006, somando 81 pontos. Se a Fiel tem motivos de sobra para não esquecer 2015, Lucca também vai se lembrar sempre deste ano.

Lucca Borges de Brito nasceu em 1990. Iniciou sua carreira nas categorias de base do Palmas Futebol e Regatas aos 8 anos de idade. Foi profissionalizado pelo próprio time da capital em 2006, onde se tornou campeão estadual do Tocantins em 2007. Foi o jogador destaque do torneio e o principal atleta da equipe tricolor. Em 2009 chegou ao time profissional do Criciúma Esporte Clube, de Santa Catarina. Em 2013, ao Cruzeiro, de Belo Horizonte (MG), e em 2015, foi por empréstimo ao Corinthians.

O garoto de 25 anos que saiu do modesto campo de treinamentos da 1006 SUL, em Palmas, hoje brilha no atual campeão brasileiro, seu clube de coração, e dono de uma das maiores torcidas do Brasil. Lucca continua um rapaz bem simples, sem arrogância ou arroubos peculiares aos famosos. Ele recebeu o Jornal Opção para um bate-papo informal, e falou de sua carreira, a angústia vivida devido às lesões musculares, o apogeu no Timão. E refirmou seu amor incondicional por Palmas.

O sr. iniciou sua carreira no Palmas Futebol e Regatas, onde foi ídolo. Hoje, faz sucesso no Corinthians paulista, um dos clubes mais amados do Brasil. Qual a importância do Palmas nesse contexto?
Sem dúvida nenhuma, o time do Palmas abriu todas as portas para mim, fez o meu primeiro registro junto a CBF ] Confe­deração Brasileira de Futebol], foi onde tudo começou. Nada mais justo eu ter esse carinho, uma vez que é um clube de que eu gosto muito. Torço por essa agremiação, nunca deixarei de torcer. Espero que o Palmas consiga crescer nos próximos anos, consiga acessos e brilhe assim como ocorreu eu 2004, quando eu ainda estava nas categorias de base. O time, àquela época, foi bem no campeonato nacional e na Copa do Brasil. Era uma equipe coesa e forte com Leandro Lopes, Mazinho, Valdo, Fer­dinando, Joãozinho, entre outros. Este ano não deu para subir para a série C, mas não é caso para desânimo, por que isso, infelizmente, às vezes, acontece. O clube vem numa crescente, chegou às semifinais da série D, está no caminho certo.

Por estar mais perto da região onde apareceu para o futebol – o Tocantins –, os clubes de Goiás e Distrito Federal nunca o procuraram quando o sr. ainda estava por aqui?
Infelizmente, não. Certamente ficaria mais próximo da minha família, que nunca saiu de Palmas, e seria unir o útil ao agradável. Mas nunca recebi qualquer proposta, seja do Goiás Esporte Clube ou qualquer outro clube do Centro-oeste. Sou profissional da bola, fechei com os clubes que me deram oportunidade. Contudo, futebol é cíclico, dá voltas, quem sabe um dia eu jogue por um clube de lá?

O sr. teve seus direitos federativos negociados e após sair do Palmas, jogou pelo Ituiutaba (MG), Criciúma (SC), Cruzeiro (MG). Como avalia essas experiências?
Vejo a passagem pelo Criciúma, mesmo jogando a série B, como importantíssima. O clube me abriu portas para o cenário nacional. Fui um dos destaques do Criciúma na campanha do retorno do time a elite do futebol brasileiro e fiz uma excelente parceria com o Zé do Gol e isso teve muita relevância. Antes eu havia tido duas lesões graves – rupturas do ligamento cruzado nos dois joelhos – e o time catarinense me apoiou, ajudou bastante e confiou no meu talento. Fiquei plenamente curado e logo após isso, em 2013, fui para o grande time do Cruzeiro, que se tornaria campeão brasileiro. Não tive muitas oportunidades, visto que o time tinha muitos medalhões como Willian, Everton Ribeiro, Ricardo Goulart, Dagoberto, Julio Baptista, entre outros. Mesmo assim considero que foi um período muito bom, tive oportunidade de conhecer muita coisa e mesmo atuando poucas vezes – 11 jogos em um ano – adquiri muita experiência, principalmente nos treinos táticos e técnicos comandados pelo treinador Marcelo Oliveira.

Sem oportunidades, ao final de 2013, o sr. voltou ao Criciúma na tentativa de adquirir ritmo de jogo e aparecer novamente no cenário nacional. Isso não foi frustrante, já que de campeão brasileiro pelo Cruzeiro, o sr. se viu rebaixado em 2014 junto com o time catarinense?
Não, (a volta ao Criciúma) foi importante para mim. Eu precisava de uma sequência de jogos, precisava ganhar confiança e esse retorno me proporcionou isso. Não vejo como frustração. Ganhar ou perder faz parte do jogo e todos os atletas devem estar preparados para isso.

"No Cruzeiro (esq) eu tive poucas chances, porque tinha muitos medalhões, mas foi uma passagem muito boa, adquiri experiência”

“No Cruzeiro (esq) eu tive poucas chances, porque tinha muitos medalhões, mas foi uma passagem muito boa, adquiri experiência”

Após esse inesperado rebaixamento, eis que surge a grande chance da sua carreira: jogar no Corinthians em ascensão, comandado pelo treinador Tite. Qual a importância desse salto profissional na sua vida?
Ao contrário do que muitos pensam, mesmo o Criciúma sendo rebaixado, eu fui visto pelos técnicos dos grandes clubes. Série A é outro nível, uma vez que é transmitida até para a Europa, Ásia e EUA. Tive muita sorte de ser visto pelo Tite, que se interessou pelo meu trabalho e solicitou minha contratação. Tive uma adaptação boa no Corinthians. O técnico é um cara simples, honesto, tranquilo e justo. Não tem panela no time dele: quem está bem joga. Eu entrei na equipe pelos meus próprios méritos, pois ele achou que eu estava desenvolvendo um bom trabalho, tanto tecnicamente e fisicamente, quanto taticamente. Ele merece, portanto, todo esse respeito que a mídia e todos os aficionados por futebol nutrem por ele.
Já os atletas do Corinthians são consagrados no futebol, entre outros, gente como o goleiro Cássio e o centroavante Vagner Love, que já foram campeões de vários torneios. Mas os caras são de uma tranquilidade e simplicidade impressionantes. O convívio com eles no dia a dia me fez perceber que o sucesso não lhes subiu a cabeça. Um clube grande como o Corinthians é diferenciado, do roupeiro ao presidente.
A torcida, a chamada “Bando de Loucos”, é um caso à parte. Uma nação completamente apaixonada. Os atletas que ali chegam devem estar preparados por que não há em nenhum outro clube, tantas cobranças como no Corinthians. Para você ter uma ideia, a torcida lota estádio até para assistir treinamento tático.
Estou feliz. Desde criança sou corintiano, e jogar no clube pelo qual sempre torci é uma realização.

O sr. acredita que no decorrer da sua carreira futebolística houve modificações na sua forma de jogar? As características do time e do técnico influenciam nisso?
Creio que sim… Acho que mudei um pouco a forma de me posicionar em campo. Aqui no Palmas, por exemplo, no início de minha carreira, eu jogava como segundo atacante centralizado sem quaisquer preocupações com a marcação ou o sistema defensivo. Eu tinha apenas a obrigação de finalizar. Hoje, o futebol se modernizou, o atleta tem que ser polivalente. Continuo jogando no ataque, porém, agora por ambos os lados. Quando o time está sem a posse da bola, exerço a marcação dos laterais adversários, na tentativa de evitar suas subidas ao ataque. Taticamente isso é importante. Então, apesar das exigências serem muito diferentes, me adaptei. Jogo hoje em qualquer esquema tático: 4-4-2, 4-3-3, 4-1-4-1. Futebol é um esporte coletivo e todos devem se ajudar.

Em relação ao ganho de massa muscular, percebe-se que seu corpo se modificou bastante desde que saiu para jogar futebol fora do Tocantins. Houve um trabalho específico nesse sentido?
Adquiri o hábito de frequentar academia após minhas contusões no joelho. A fisioterapia era necessária e por isso incluí exercícios físicos mais puxados na minha rotina. Isso foi fortalecendo minha musculatura e articulações, mesmo porque nunca parei de fazer academia, quer seja antes dos treinamentos cotidianos, quer seja nos períodos de recesso.
Ainda sou um sujeito magro, mas agora com músculos (risos). Eu tenho apenas 9% de gordura. Em campo, não fujo de divididas. Mas essa leveza também contribui com o desenvolvimento da velocidade na hora do jogo.

Praticamente o sr. foi eleito como a revelação da série A do Campeonato Brasileiro de Futebol, concorrendo inclusive ao gol mais bonito da competição. Quais são suas perspectivas para 2016?
Pretendo continuar no Corinthians. Já deixei isso claro para o próprio clube paulista, para o Criciúma, que é dono dos meus direitos federativos e com o qual tenho contrato até dezembro de 2017, e também para meu empresário. Estou me sentindo muito bem por lá, estou adaptado à cidade de São Paulo e ao clube. Vamos disputar uma Copa Libertadores da América e esta será a chance de mostrar meu futebol em âmbito internacional. Mas, meu contrato com o “Timão” vai só até o final do campeonato paulista. Por isso, são necessárias negociações entre as duas agremiações – com intermediação do meu agente – para que eu possa continuar. A multa estipulada pelo Criciúma, antes do empréstimo para o Corinthians, era de 10 milhões de reais, no entanto, agora ela foi sensivelmente majorada.
Mas o que importa agora é que não vejo a hora de chegar o dia 6 de janeiro, quando começará a pré-temporada.

Qual seria a meta imediata, um contrato internacional milionário ou a convocação para a seleção brasileira?
Para realizar o sonho de chegar à seleção brasileira, meta de todo jogador de futebol, entendo que preciso continuar no Corinthians, por enquanto. Claro que também é meu desejo jogar fora do país, disputar campeonatos importantes como o espanhol, alemão, inglês ou italiano, entretanto, se tivesse que optar entre esse destino e a seleção, ficaria com a segunda hipótese.

E quanto ao Tocantins? Pretende voltar quando encerrar sua carreira? O que a cidade de Palmas, sua origem, representa para o sr. após a fama?

Eu amo Palmas. Em todas as folgas e momentos que eu posso, venho para cá rever meus amigos, descansar. Meus pais e meu irmão ainda continuam morando aqui e vão continuar. Tenho alguns investimentos, que eles administram, nesta linda cidade, que cresce mais a cada dia. Aqui é o meu reduto. Sempre venho para as festividades natalinas e passagem de ano, porém, dessa vez não vou ficar por que minha primeira filha, Laura, nasceu lá em Criciúma e terei que voltar. Ficaria inviável minha esposa pegar avião para vir, poucos dias após o parto.

O futebol me deu tudo, mudei minha vida e também a vida da minha família, em todos os aspectos, em que pese meus pais nunca terem deixado faltar nada. Sou grato pela admiração de todos os palmenses e tocantinenses e não nego minhas origens. Quando essa profissão dos sonhos se findar, voltarei para cá. Pretendo voltar a morar em Palmas, quando “pendurar as chuteiras”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.