Trombose e outras doenças venosas somam mais de 7 mil internações em Goiás desde 2020
13 outubro 2026 às 14h13

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Entre janeiro de 2020 e julho de 2026, Goiás registrou 7.187 internações por flebite, tromboflebite, embolia e trombose venosa no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), do Ministério da Saúde.
O maior número da série foi registrado em 2023, quando o Estado contabilizou 1.251 internações. Foram 912 em 2020, 955 em 2021, 983 em 2022, 1.208 em 2024 e 1.189 em 2025. Em 2026, até julho, foram contabilizadas 689 internações.
Os números do DataSUS se referem a internações, e não necessariamente a pacientes diferentes ou novos diagnósticos da doença. Além disso, os registros referentes aos últimos seis meses estão sujeitos a atualização pelo Ministério da Saúde.
A trombose ocorre quando um coágulo sanguíneo provoca a obstrução de um vaso. Nos casos de trombose venosa, o problema compromete as veias responsáveis pelo retorno do sangue e ocorre com maior frequência nos membros inferiores.
Segundo Kalley Santos Cavalcante, cirurgião vascular, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) e chefe do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas da UFG, a doença pode atingir diferentes faixas etárias.

Um dos principais cuidados, segundo o médico, é saber diferenciar os sintomas da trombose de problemas mais comuns, como cãibras ou dores musculares. O aparecimento repentino de inchaço em apenas uma das pernas é um dos principais sinais de alerta.
“A cãibra tem uma contratura muscular e uma dor, geralmente em panturrilha, mas não é comum ter inchaço da perna. Na trombose costuma ter um inchaço, é de surgimento súbito […] às vezes é associado à vermelhidão local, a calor local”, explica.
Diagnóstico e tratamento pelo SUS
Em caso de suspeita, o diagnóstico normalmente é confirmado por meio de ultrassonografia com Doppler venoso. Em Goiânia, segundo Cavalcante, o paciente atendido pelo SUS pode procurar inicialmente uma unidade de saúde ou serviço de urgência, que poderá encaminhá-lo para avaliação especializada.
Nos quadros não complicados e restritos aos membros inferiores, o tratamento é feito principalmente com anticoagulantes. Segundo o médico, atualmente boa parte dos pacientes pode ser tratada em casa com medicamentos orais, enquanto casos mais graves podem exigir internação hospitalar.
Uma das principais complicações é a embolia pulmonar, que pode ocorrer quando o coágulo se desprende e chega aos pulmões. De acordo com Cavalcante, o risco é maior nos primeiros dias após o desenvolvimento da trombose.
“Geralmente o risco de embolia pulmonar é maior nos primeiros sete a dez dias do começo da trombose. Quanto mais afastado do quadro inicial, menor é o risco. […] Quanto mais demorar para iniciar o tratamento, maior o risco”, afirma.
Dor no peito, falta de ar ou desconforto torácico podem indicar uma embolia e demandam atendimento de maior urgência. O especialista também alerta para quadros em que o inchaço atinge toda a perna, acompanhado de dor intensa e mudança na coloração do membro, que podem indicar uma trombose mais extensa.
Jovens também podem desenvolver trombose
Apesar de alguns fatores aumentarem o risco, a doença não está restrita a pessoas mais velhas. Em pacientes jovens, Cavalcante aponta que alterações genéticas da coagulação, conhecidas como trombofilias, podem favorecer a formação de coágulos, especialmente quando existe histórico familiar. Alguns tipos de câncer também podem estar relacionados ao problema.
Outros fatores incluem uso de anticoncepcionais, internações e longos períodos sem movimentação, como viagens prolongadas ou atividades profissionais que exigem permanecer muito tempo sentado ou em pé.
No caso dos anticoncepcionais, o médico ressalta que o uso pode elevar o risco de trombose, mas isso não significa que a maioria das mulheres que utiliza esses medicamentos desenvolverá a doença. A recomendação é que o contraceptivo seja utilizado com prescrição e acompanhamento médico.
Pessoas que já tiveram trombose também apresentam maior risco de recorrência, principalmente quando o primeiro episódio não teve uma causa específica, como trauma ou fratura. Nesses casos, o acompanhamento com cirurgião vascular ou hematologista pode ser necessário para avaliar medidas de prevenção de um novo episódio.
Nova lei amplia prevenção nos hospitais
O debate sobre a prevenção ganhou um novo componente neste ano com a Lei Federal nº 15.448/2026, sancionada em 30 de junho e publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 1º de julho. A norma determina que hospitais públicos e privados e unidades de saúde que ofereçam internação mantenham estruturas destinadas à prevenção do tromboembolismo venoso. A legislação entra em vigor 180 dias após a publicação.
A lei também estabelece que as ações preventivas poderão ser desenvolvidas pelos Núcleos de Segurança do Paciente (NSPs), onde houver. Durante o período de adequação, as unidades deverão se preparar para a aplicação das novas exigências. Entre as medidas apontadas para essa adaptação estão o mapeamento e a identificação de gargalos no diagnóstico, a implementação de protocolos de prevenção, a capacitação das equipes e a realização de auditorias internas.
A fiscalização deverá envolver, a princípio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as vigilâncias sanitárias locais, além dos mecanismos internos de controle de cada unidade hospitalar.
Cavalcante explica que parte dos hospitais já adota protocolos para avaliar o risco dos pacientes internados. Como exemplo, ele cita sua experiência em uma unidade pública de Goiás, onde o preenchimento de um protocolo de avaliação do risco de tromboembolismo venoso é obrigatório para todos os pacientes internados.
Segundo o especialista, a nova legislação tende a reforçar medidas que já eram recomendadas na assistência hospitalar, mas que ainda não estavam estruturadas da mesma forma em todas as unidades.
“A lei agora leva esses hospitais a um grau de fiscalização maior para aumentar a adesão [à prevenção] do tromboembolismo venoso”, afirma. Segundo Cavalcante, o problema merece atenção especial durante internações porque a embolia pulmonar pode levar à morte, embora existam medidas capazes de reduzir o risco.
Para o médico, a prevenção também passa por medidas cotidianas, como manter-se hidratado, praticar atividade física e evitar permanecer longos períodos na mesma posição. Diante de sintomas como inchaço súbito em apenas uma perna, especialmente acompanhado de dor, calor ou vermelhidão, a orientação é buscar avaliação médica.
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