O congelamento de óvulos deixou de ser um assunto restrito aos consultórios e passou a fazer parte das conversas sobre carreira, maternidade e planejamento de vida. Nos últimos anos, mulheres conhecidas do público brasileiro revelaram ter recorrido ao procedimento para preservar a possibilidade de uma gravidez no futuro. Maju Coutinho, Paolla Oliveira, Carla Diaz, Monique Alfradique, Paula Fernandes, Marina Ruy Barbosa, Viviane Araújo, Mônica Martelli, Bárbara Borges e Claudia Raia estão entre as que já falaram publicamente sobre a decisão.

Embora as histórias sejam diferentes, o procedimento aparece, em muitos desses casos, como uma forma de ganhar tempo diante de uma decisão que nem sempre acompanha o ritmo da vida profissional, financeira ou afetiva.

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Maju Coutinho está entre as famosas que já revelaram ter recorrido ao congelamento de óvulos como forma de preservar a possibilidade de uma gravidez no futuro | Foto: Montagem

Para o ginecologista e especialista em reprodução humana Diego Rezende, o perfil das mulheres que procuram o congelamento de óvulos mudou. Em entrevista ao Jornal Opção, ele explicou que o procedimento, antes associado principalmente a condições médicas, passou a ser procurado também como ferramenta de planejamento reprodutivo.

“Antes era usado quando as pessoas tinham alguma doença, e agora já se trata de até uma espécie de planejamento”, afirmou.

Segundo o especialista, a mudança acompanha transformações na própria vida das mulheres. “Hoje é uma demanda social. A paciente que avalia esse planejamento é aquela mulher que quer adiar a sua gravidez de uma forma mais segura e estratégica”, explicou.

Entre os motivos estão o desejo de postergar a maternidade, a ascensão profissional, a busca por estabilidade financeira e até a espera por um relacionamento mais estruturado. “Hoje a grande demanda do congelamento é a questão social”, destacou.

Relógio biológico

A possibilidade de preservar os óvulos ganha importância porque a fertilidade feminina sofre alterações com o passar dos anos. A mulher nasce com uma quantidade determinada de óvulos e essa reserva diminui progressivamente.

“Ela só vai perdendo quantidade e qualidade. Quando retiro e congelo, eles não envelhecem”, explicou Diego.

Ginecologista e especialista em reprodução humana, Diego Rezende | Foto: Acervo Pessoal

De acordo com o especialista, o cenário considerado ideal é realizar o procedimento antes dos 35 anos, quando a quantidade e a qualidade dos óvulos tendem a ser mais favoráveis. Isso não significa, entretanto, que mulheres acima dessa idade não possam recorrer à técnica.

“Não que seja impossível realizar após, porque muitas mulheres só conseguem se organizar financeiramente depois dessa idade. Mas quanto antes, melhor”, ponderou.

Antes do procedimento, a paciente passa por uma avaliação da reserva ovariana. Entre os exames utilizados estão o ultrassom transvaginal, que permite observar e contabilizar os folículos, e o exame de sangue para medir o hormônio antimülleriano (AMH).

Congelar não significa garantir uma gravidez

Apesar de preservar óvulos para uma eventual tentativa futura de gravidez, o procedimento não representa garantia de que a mulher terá um filho.

O material é armazenado por meio da técnica de vitrificação e pode ser utilizado posteriormente, caso seja necessário recorrer à reprodução assistida. Entre o descongelamento do óvulo e o nascimento de uma criança, porém, existem diferentes etapas.

“O congelamento não garante o bebê em casa. Existem várias etapas depois desse óvulo até ter uma criança saudável”, explicou Diego.

Segundo ele, fatores como a qualidade do espermatozoide, a formação e o desenvolvimento do embrião, além da evolução da própria gestação, também influenciam o resultado. Há ainda possibilidade de perda de óvulos durante o descongelamento. Conforme o especialista, a literatura médica aponta que essa perda pode chegar a 10%.

Quanto custa congelar os óvulos?

O custo ainda é uma das principais barreiras para quem deseja recorrer ao procedimento. Segundo Diego Rezende, o tratamento é particular e não conta com cobertura dos planos de saúde.

“Hoje, em média, a partir de R$ 10 mil a R$ 12 mil a paciente consegue fazer esse investimento para o congelamento. Depois ela paga só uma mensalidade para manter esse material congelado pelo tempo que for necessário”, afirmou.

O valor final pode variar conforme as características da paciente e as etapas necessárias durante o tratamento.

Entre carreira e maternidade

Além das questões biológicas e financeiras, o especialista chama atenção para a pressão enfrentada por mulheres que tentam conciliar projetos profissionais e pessoais com o desejo de ter filhos.

Segundo Diego, algumas pacientes chegam ao consultório carregando culpa por ainda não terem sido mães ou por terem priorizado outros projetos em determinados momentos da vida.

“O congelamento deve ser visto como uma grande estratégia, um aliado para manter projetos profissionais e pessoais e aliviar esse peso psicológico”, afirmou.

É nesse cenário que os relatos públicos de mulheres conhecidas também ampliam a discussão sobre o tema. Ao falarem sobre suas próprias decisões, elas ajudam a levar para fora dos consultórios uma discussão que envolve fertilidade, autonomia e planejamento reprodutivo.

Para Diego, o congelamento de óvulos deixou de ocupar um espaço excepcional dentro da medicina reprodutiva. “Não é moda, não é uma tendência passageira. Ele tem sido um grande aliado para a mulher que quer adiar a sua gestação com mais tranquilidade”, disse.

O especialista defende que o assunto seja abordado nas conversas sobre planejamento reprodutivo, especialmente porque os resultados estão relacionados à idade em que os óvulos são preservados.

“Nós não conseguimos hoje pensar num planejamento reprodutivo, de forma assertiva, sem considerar o congelamento de óvulos”, concluiu.

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