A perda de peso depois dos 60 anos requer cuidados diferentes daqueles adotados por adultos mais jovens. Ao Jornal Opção, a nutricionista Pammela Vilela, explicou, nesta terça-feira, 6, que o envelhecimento traz mudanças importantes na composição corporal, especialmente a redução natural da massa muscular, o que torna processos de emagrecimento muito agressivos um risco para a saúde e para a qualidade de vida.

Segundo a especialista, uma restrição calórica intensa pode acelerar ainda mais a perda de massa magra. “O idoso já tende a perder mais massa magra e essa função do músculo relacionada à força. Quando a gente coloca o idoso com uma restrição calórica maior, isso pode ser muito agressivo e potencializar mais ainda esse processo”, afirma.

A preocupação vai além dos números na balança. Pammela explica que o emagrecimento rápido pode comprometer a funcionalidade muscular e aumentar a vulnerabilidade a doenças. Ela ressalta que o consumo adequado de proteínas é fundamental durante qualquer processo de perda de peso.

Nutricionista Pammela Vilela | Foto: Acervo Pessoal

“A gente precisa sempre estar com o suporte proteico adequado. Essas dietas muito restritivas tendem a reduzir não só a proteína, mas também micronutrientes importantes para o funcionamento do organismo”, aponta.

No consultório, a nutricionista observa com frequência hábitos alimentares preocupantes entre idosos. Muitos permanecem longos períodos sem se alimentar e, quando comem, optam por alimentos de baixo valor nutricional. “Recebo muitos pacientes que ficam um tempo muito grande sem se alimentar. Às vezes passam períodos longos sem comer e, quando alimentam, é biscoito, bolacha água e sal”, relata.

Um dos principais desafios, segundo a profissional, é diferenciar a perda saudável de gordura da perda prejudicial de massa muscular. A redução da força, o cansaço excessivo e a dificuldade para realizar atividades cotidianas podem ser sinais de alerta. “O paciente reduz muito a força, tem aquele cansaço excessivo e muita dificuldade para realizar atividades simples do dia a dia”, explica.

Para avaliar essa condição, ela utiliza ferramentas como dinamometria, que mede a força de preensão das mãos, e testes funcionais que analisam a capacidade do paciente de se levantar da cadeira repetidas vezes. “Às vezes ele mostra um cansaço excessivo, dificuldade para realizar algo simples, como levantar da cadeira para ir ao banheiro. Então tem um risco maior de quedas”, afirma.

A nutricionista aponta que a simples perda de peso não deve ser interpretada automaticamente como um sinal de melhora da saúde. Para acompanhar a composição corporal, ela utiliza avaliações antropométricas e exames de bioimpedância. “Às vezes é preciso observar como está acontecendo essa perda. Pode parecer positiva na balança, mas estar ocorrendo principalmente às custas de massa magra”, ressalta.

Quando o assunto é peso ideal, a nutricionista defende uma abordagem mais ampla e multidisciplinar. Segundo ela, o foco deve estar na funcionalidade, na preservação muscular e na saúde metabólica. “Eu preciso saber como está essa funcionalidade desse paciente. O peso não precisa estar somente na balança”, explica.

Nesse contexto, a especialista chama atenção para um fenômeno que preocupa profissionais de saúde, especialmente diante da popularização das chamadas canetas emagrecedoras. “Hoje a gente tem um grande medo de ter uma obesidade sarcopênica, que é quando o paciente perde peso, mas perde muita massa magra se não estiver sendo acompanhado de perto”, afirma.

Para minimizar esses riscos, a nutricionista aposta em um trabalho integrado entre diferentes profissionais. “Hoje a gente faz um acompanhamento com médico, nutricionista e personal trainer. Semanalmente estamos acompanhando esses pacientes para entender sintomas, alimentação e prática de atividade física”, aponta.

Um outro ponto de atenção são as dietas da moda e as orientações encontradas nas redes sociais. Na avaliação da especialista, elas frequentemente levam a uma ingestão calórica insuficiente e a deficiências nutricionais importantes. “Eu vejo que eles comem muito pouco. A ingesta calórica é muito baixa quando fazem dieta da moda. Esse paciente fica muito tempo sem comer e acontece a perda de peso rápida, mas sem qualidade nutricional”, diz.

A alimentação adequada, associada aos exercícios físicos, é considerada essencial para manter força, mobilidade e independência. Para isso, a recomendação é respeitar a rotina, os gostos alimentares e as limitações individuais de cada pessoa. “A gente vai prescrever alimentos com densidades calóricas melhores, fracionando as refeições ao longo do dia conforme a aceitação de cada paciente”, afirma.

Segundo ela, muitos idosos apresentam menor apetite ou dificuldade para mastigar e engolir alguns alimentos. Por isso, estratégias simples podem ajudar a melhorar a alimentação. “Eu utilizo muito preparações com mais fácil deglutição, como mingaus e sopas com uma boa quantidade de proteínas”, aponta.

Na prática, o plano mais seguro para o emagrecimento na terceira idade passa pelo fracionamento das refeições ao longo do dia, garantindo proteínas e nutrientes suficientes. “A gente precisa facilitar a vida dessas pessoas. Um pão com queijo, um iogurte, refeições de fácil aceitação. O importante é manter um bom aporte proteico e uma boa densidade nutricional”, explica.

Ao final da entrevista, Pammela reforçou que a sustentabilidade do tratamento é mais importante do que resultados rápidos. Para ela, compreender a rotina e as necessidades individuais do paciente é o caminho para promover saúde duradoura.

“Essas dietas muito restritivas e dietas da moda não são sustentadas por muito tempo. Quando conseguimos entender a rotina do paciente e trazer ele para mais próximo, temos bons resultados e conseguimos gerar qualidade de vida e saúde, que é o nosso principal objetivo”, finaliza.

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