A morte de Jenekely Morais Santos, de 42 anos, após passar mal durante um treino em uma academia de Anápolis, chamou atenção para os riscos e os sinais de alerta relacionados ao acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Segundo familiares, ela sofreu um AVC após a ruptura de um aneurisma cerebral.

Jenekely passou mal na noite de segunda-feira, 10, durante a atividade física, apresentou uma crise convulsiva e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ela foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhada ao Hospital Estadual de Anápolis Dr. Henrique Santillo (Heana), mas morreu na terça-feira, 11.

Diante do caso, o neurocirurgião endovascular Marcos Spadoni explicou ao Jornal Opção como um aneurisma pode provocar um AVC hemorrágico, quais sintomas devem ser observados e qual pode ser a relação entre exercícios físicos intensos e a ruptura dessas alterações nos vasos sanguíneos.

Aneurisma pode permanecer silencioso

De acordo com Spadoni, o aneurisma cerebral é uma dilatação que se forma em uma artéria no cérebro. Em determinadas situações, essa alteração pode se romper e provocar um sangramento.

“O aneurisma cerebral é uma dilatação que acontece em uma artéria de dentro do cérebro, formando um papo, e ele predispõe ao sangramento”, explica o neurocirurgião.

O especialista ressalta, porém, que nem todo aneurisma é descoberto após uma ruptura. Muitos são identificados por acaso durante exames realizados por outros motivos, como na investigação de dores de cabeça.

Para Spadoni, esse é um dos melhores cenários para o paciente, já que o diagnóstico precoce permite avaliar a necessidade de tratamento antes que ocorra um sangramento.

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Marcos Spadoni: “o que diferencia o risco de ruptura é o tamanho do aneurisma, a localização e fatores de risco do próprio paciente” | Foto: Acervo pessoal

Dor de cabeça súbita é principal sinal de alerta

A ruptura de um aneurisma pode provocar um AVC hemorrágico de instalação súbita. Segundo o neurocirurgião, um dos principais sinais é uma dor de cabeça extremamente intensa e diferente das dores habituais.

“O paciente costuma relatar que essa dor ele nunca sentiu na vida. É uma dor diferente de qualquer outra que ele já tenha sentido antes”, afirma.

Em quadros mais graves, o sangramento pode provocar perda de consciência e crise convulsiva. Segundo relatos de pessoas que estavam na academia, Jenekely apresentou uma convulsão após passar mal.

Spadoni explica que a crise convulsiva pode ocorrer porque o sangue entra em contato com o tecido cerebral, provocando alterações no funcionamento normal do órgão.

Exercício intenso pode estar relacionado à ruptura

O caso também levantou dúvidas sobre a possibilidade de exercícios físicos contribuírem para a ruptura de um aneurisma.

Segundo Spadoni, atividades de maior intensidade podem provocar aumento fisiológico da pressão intracraniana e elevação da pressão arterial. Em pessoas que já possuem um aneurisma, essas alterações podem contribuir para uma ruptura.

“Durante o exercício físico, especialmente aqueles movimentos, os exercícios de agachamento, o levantamento de peso, existe um aumento da pressão intracraniana fisiológica”, explica.

O médico destaca, entretanto, que isso não significa que a prática de exercícios seja, por si só, um fator de risco para AVC.

“É importante que algumas coisas fiquem bem esclarecidas. O exercício físico não é um fator de risco para que você tenha um AVC. Muito pelo contrário, o exercício físico previne doenças cardiovasculares em geral”, afirma.

Além dos aneurismas, o especialista cita outra condição que deve ser considerada em pessoas jovens que apresentam eventos neurológicos durante atividades físicas: as dissecções dos vasos cervicais, que também podem provocar complicações neurológicas.

Aneurisma pode atingir pessoas de diferentes idades

Embora o caso de Jenekely envolva uma mulher de 42 anos, Spadoni ressalta que a ruptura de aneurisma não está restrita a uma faixa etária específica.

“O que diferencia o risco de ruptura é o tamanho do aneurisma, a localização e fatores de risco do próprio paciente”, explica.

Entre os fatores associados a um risco maior, o especialista cita tabagismo, idade e sexo feminino. A avaliação individual desses fatores pode ajudar a identificar pacientes que necessitam de investigação médica mais detalhada.

Avaliação médica antes de exercícios intensos

Para o neurocirurgião, pessoas que praticam atividades físicas regularmente, sobretudo exercícios de maior intensidade, devem manter acompanhamento médico e avaliar individualmente a necessidade de exames.

“Os pacientes que realizam atividade física regular, principalmente exercícios mais intensos, todos devem passar por uma avaliação, um check-up”, afirma.

Segundo Spadoni, exames como angiorressonância e angiotomografia podem identificar aneurismas e malformações arteriovenosas. A necessidade desses exames, no entanto, deve ser avaliada pelo médico de acordo com o perfil e os fatores de risco de cada paciente.

A atenção deve ser maior entre pessoas com histórico familiar de aneurisma, malformações vasculares ou AVC. Nesses casos, Spadoni orienta que a necessidade de investigação seja discutida com profissionais especializados.

O especialista ressalta ainda que ter um aneurisma não significa necessariamente abandonar a atividade física. Pacientes diagnosticados precisam passar por avaliação individualizada para definir o tratamento e quais atividades podem ser realizadas com segurança.

Academias devem estar preparadas para emergências

Além da prevenção, o caso chama atenção para o preparo das academias diante de situações de emergência.

Spadoni considera importante que professores e educadores físicos recebam treinamento periódico para realizar suporte básico de vida até a chegada de uma equipe especializada.

“Os educadores físicos são profissionais totalmente capazes de realizar esse primeiro atendimento, de suporte básico de vida, até a chegada do socorro especializado, como o Samu pelo 192”, diz.

Em situações de parada cardiorrespiratória, profissionais treinados podem reconhecer a emergência e iniciar as manobras de reanimação enquanto aguardam o atendimento especializado. O neurocirurgião também destaca a importância do Desfibrilador Externo Automático (DEA), quando disponível, e de protocolos de emergência bem definidos nos estabelecimentos.

Atendimento rápido pode fazer diferença

A parada cardiorrespiratória pode ocorrer como consequência de uma deterioração neurológica grave após a ruptura de um aneurisma, explica o médico. Em casos mais severos, o quadro pode evoluir rapidamente, com perda de consciência e convulsões.

Por isso, diante de uma crise convulsiva, perda súbita de consciência, alteração neurológica importante ou dor de cabeça abrupta e extremamente intensa, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente.

No caso de Jenekely, o Samu foi acionado pouco antes das 21h30 e realizou os primeiros atendimentos antes de encaminhá-la ao Heana. Apesar do socorro, ela morreu posteriormente.

O neurocirurgião reforça que pacientes com suspeita de AVC devem ser encaminhados, sempre que possível, a hospitais preparados para esse tipo de atendimento, onde possam passar rapidamente por exames de imagem e receber o tratamento adequado.

“Um paciente que tem a ruptura de aneurisma, ele evolui com esse rebaixamento de nível de consciência, a crise convulsiva, que pode, sim, levar à parada cardiorrespiratória, em alguns casos mais severos”, explica Spadoni.

O especialista ressalta que o episódio não deve servir como motivo para afastar as pessoas das academias. A atividade física continua sendo importante para a prevenção de doenças cardiovasculares. A recomendação é associar a prática de exercícios ao acompanhamento médico adequado, à atenção aos fatores de risco e ao reconhecimento dos sinais de emergência.

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