Exames de sangue ampliam diagnóstico do Alzheimer e novos medicamentos começam a mudar tratamento
16 setembro 2026 às 10h22

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Nos últimos anos, os avanços da ciência têm trazido novas perspectivas para o tratamento de pacientes com Alzheimer. No Brasil, estima-se que cerca de 1,5 milhão de pessoas convivem com a doença de Alzheimer ou algum tipo de demência. Por muito tempo, a identificação da doença dependia principalmente da observação dos sintomas e da exclusão de outras causas que poderiam provocar alterações na memória e no comportamento do idoso.
Agora, exames capazes de encontrar proteínas associadas ao Alzheimer permitem chegar a uma investigação mais precisa. E isso acontece justamente em um momento em que novos medicamentos passaram a atuar sobre um dos mecanismos envolvidos na doença.
Em entrevista ao Jornal Opção, a neurologista Marcela Augostinho, especialista em dor e demências que atua há mais de 12 anos na área, explicou que 2026 foi um marco muito importante nesse cenário. Segundo ela, até pouco tempo atrás, o médico trabalhava principalmente com a possibilidade de o paciente ter Alzheimer. “O diagnóstico era de probabilidade. A gente fazia o diagnóstico com a história clínica, com os achados da história do paciente e que a família relatava”, explica.
A ressonância magnética e os exames de sangue já faziam parte da investigação, mas tinham outra função. Antes, eles ajudavam no descarte de outras doenças e em alterações que poderiam explicar os sintomas. Se o paciente apresentava perda de memória recente, desorientação e outros sinais compatíveis, chegava-se à hipótese de Alzheimer. No entanto, o cenário mudou com o bionarcadores. Um dos exames utilizados para investigação é feito a partir do líquor, líquido que circula pelo cérebro e pela medula espinhal. A coleta é realizada por punção lombar, procedimento semelhante ao utilizado na investigação de algumas infecções, como a meningite.
Nesse material, são analisadas proteínas relacionadas ao Alzheimer, entre elas a beta-amiloide e a tau. A relação entre os resultados ajuda o médico a confirmar a presença das alterações características da doença.
E há uma novidade ainda mais recente: a possibilidade de encontrar esses sinais no sangue. Segundo a especialista, em julho deste ano a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regularizou um exame capaz de identificar no sangue o biomarcador p-tau217, proteína relacionada à tau fosforilada e que também pode indicar a presença de depósitos de beta-amiloide no cérebro. “Hoje nós conseguimos ter a certeza de que é aquele diagnóstico. Porque, muitas vezes, você falava que era Alzheimer, mas você não tinha toda essa certeza”, afirma.
A importância desses exames vai além de dar um nome ao problema. Depressão, por exemplo, pode provocar alterações de memória e concentração e acabar confundindo a avaliação. Há ainda outros tipos de demência que apresentam sintomas semelhantes aos do Alzheimer. Com a identificação dos biomarcadores, o médico passa a ter mais elementos para diferenciar essas situações e definir o caminho do tratamento.

Tratamento mira uma das causas da doença
O avanço no diagnóstico veio acompanhado de uma mudança na forma de tratar o Alzheimer. Até então, os medicamentos disponíveis tinham como objetivo principal controlar os sintomas. Donepezila, rivastigmina e galantamina são alguns exemplos. Esses remédios atuam aumentando os níveis de acetilcolina no cérebro e podem trazer melhora dos sintomas por determinado período, mas não impedem a evolução do processo que provoca a doença.
Agora, existem os chamados medicamentos modificadores da doença, entre eles as terapias antiamiloides. O objetivo é reduzir os depósitos de beta-amiloide no cérebro, uma das alterações associadas ao Alzheimer. “Eles limpam o cérebro, retiram essas proteínas, as beta-amiloides, que vão se depositando no cérebro”, explica a neurologista.
Mas existe uma condição para esse tratamento: o paciente precisa estar nos estágios iniciais da doença e passar por uma avaliação criteriosa. A confirmação da presença dos biomarcadores também é necessária. É justamente aí que o diagnóstico precoce ganha ainda mais importância. “Não adianta fazer já com o paciente na fase moderada, avançada. Para você fazer esse tratamento, você tem que estar na fase bem inicial, tem que pegar o paciente bem no início”, alerta.
O problema é que, muitas vezes, os primeiros sinais são atribuídos à idade. A família percebe que o idoso está esquecendo mais coisas, mas entende que aquilo faz parte do envelhecimento e demora a procurar ajuda. Algum esquecimento pode ocorrer com o passar dos anos. O alerta está nas mudanças que começam a se repetir e interferem na rotina.
Um exemplo citado pela médica é o de uma pessoa que sempre costurou e, de repente, já não consegue mais realizar a atividade. O mesmo pode acontecer com alguém que cozinhava com facilidade e passa a não saber preparar uma receita que fazia há anos. Quem sempre cuidou das contas de casa ou de uma empresa e começa a se perder nos números também merece atenção. Perder-se em lugares conhecidos e apresentar mudanças de comportamento ou de personalidade são outros sinais que precisam ser observados. “Ele deixou de fazer coisas que fazia antes com muita facilidade. Isso tem que ser visto e procurar um neurologista”, orienta.
A recomendação não significa, necessariamente, que a pessoa tenha Alzheimer. Existem outras causas para alterações cognitivas e comportamentais. A avaliação médica é que vai ajudar a encontrar a origem do problema.
Acesso ainda está longe de ser amplo
Se a ciência avançou, o acesso a essas novidades ainda é uma questão. A neurologista aponta o alto custo dos exames e dos tratamentos como uma das principais barreiras para os pacientes. Segundo ela, os novos exames e medicamentos ainda não estão disponíveis de forma ampla na rede pública e os custos também dificultam o acesso por parte de muitas famílias.
Para a especialista, há dois pontos que precisam caminhar juntos: descobrir a doença cada vez mais cedo e tornar as novas ferramentas disponíveis para uma parcela maior da população. “Hoje esse diagnóstico de certeza e esse tratamento estão limitados para pessoas com muita condição financeira. Não é uma coisa muito democrática para todos que tiverem o diagnóstico”, afirma.
Enquanto essas mudanças não acontecem, a atenção da família continua sendo uma das principais formas de perceber que alguma coisa não vai bem. A neurologista também chama atenção para dois fatores que podem passar despercebidos. Um deles é a depressão em idosos, que pode apresentar sintomas parecidos com os de uma demência e precisa ser investigada antes de se concluir que há Alzheimer. O outro é a perda auditiva.
Um idoso que não consegue ouvir bem tende a participar menos das conversas e das atividades sociais. Com o tempo, isso pode aumentar o isolamento. Por isso, a médica considera importante investigar a audição e, quando houver indicação, estimular o uso do aparelho auditivo. “A socialização é muito importante. Os idosos que socializam mais têm uma proteção contra demência e contra a evolução do Alzheimer”, diz.
Para as famílias, o principal sinal de alerta está na diferença entre o que aquela pessoa sempre fez e aquilo que passou a não conseguir fazer. Quando a memória, a orientação, o comportamento ou atividades comuns do dia a dia começam a mudar de maneira frequente, é hora de investigar.
Quanto antes a causa for descoberta, maior é a possibilidade de discutir as alternativas disponíveis para aquele paciente — especialmente agora, em um cenário em que o diagnóstico e o tratamento do Alzheimer começam a passar por uma transformação.
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