Alívio rápido, risco silencioso: uso de corticoides preocupa médicos na época da seca
30 julho 2026 às 18h21

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Com a chegada dos meses de estiagem no Centro-Oeste, quando a baixa umidade do ar favorece o aumento de alergias e doenças respiratórias, médicos chamam atenção para um comportamento cada vez mais comum nos consultórios: pacientes que recorrem repetidamente aos corticoide sistêmicos em busca de alívio rápido dos sintomas.
Embora esses medicamentos tenham papel importante no controle de inflamações, especialistas alertam que o uso frequente, sem avaliação médica adequada, pode esconder a origem das crises, atrasar diagnósticos e provocar consequências para a saúde.
O médico alergista, imunologista e otorrinolaringologista Márcio Niemeyer explica que muitos pacientes chegam ao consultório já esperando uma nova prescrição de corticoide, principalmente porque tiveram melhora em episódios anteriores.
“Recebemos pacientes que chegam perguntando se vão precisar de uma injeção ou de comprimidos de corticoide porque foi o que resolveu em uma crise anterior. Esse comportamento merece atenção. Sintomas semelhantes podem ter causas diferentes e o tratamento não deve se limitar ao alívio imediato”, afirma.
Sintomas parecidos podem ter diferentes causas
Durante a época mais seca do ano, manifestações como nariz entupido, coriza, espirros e tosse tornam-se mais frequentes. No entanto, segundo o especialista, esses sinais podem estar associados a diferentes condições, como infecções virais, rinite alérgica e sinusite, o que torna fundamental identificar corretamente a origem do problema.
“O corticoide é um medicamento muito eficaz quando utilizado da maneira adequada, mas seu uso repetido ou prolongado sem acompanhamento pode provocar aumento da pressão arterial e da glicemia, retenção de líquidos, ganho de peso, alterações de humor, redução da imunidade, maior risco de infecções e perda de massa óssea”, explica Niemeyer.
Segundo ele, dependendo da quantidade utilizada e do tempo de tratamento, também podem ocorrer alterações hormonais e comprometimento da atividade das glândulas adrenais, responsáveis pela produção de importantes hormônios do organismo.
Alta incidência de alergias aumenta preocupação
A atenção ao tema cresce diante da elevada presença de doenças alérgicas na população. Dados da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) apontam que aproximadamente 30% dos brasileiros convivem com algum tipo de alergia. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, estima que esse índice poderá alcançar 50% da população mundial até 2050.
Outro fator que preocupa especialistas é a prática da automedicação. Levantamento realizado pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) indica que nove em cada dez brasileiros utilizam medicamentos sem orientação profissional.
Apesar de a pesquisa não analisar especificamente o consumo de corticoides, o resultado revela um cenário favorável ao uso inadequado de remédios, principalmente em situações nas quais o paciente busca apenas controlar sintomas momentaneamente.
Investigação é fundamental em casos recorrentes
Para Márcio Niemeyer, pessoas que precisam recorrer aos corticoides sistêmicos diversas vezes durante o ano devem passar por uma avaliação mais detalhada para descobrir a causa das crises.
“Se uma pessoa recorre aos corticoides repetidamente para tratar crises de rinite, sinusite ou outros problemas respiratórios, é importante investigar a causa. O objetivo não deve ser apenas controlar cada episódio, mas identificar o problema e reduzir, sempre que possível, a necessidade de novos ciclos desses medicamentos”, destaca.
O especialista ressalta que existe diferença entre os corticoides utilizados por via nasal e aqueles administrados por comprimidos ou injeções. Os medicamentos de aplicação nasal, quando usados corretamente e com prescrição, apresentam menor absorção pelo organismo. Já os corticoides sistêmicos exigem maior cautela, especialmente quando utilizados várias vezes ou durante períodos prolongados.
Tratar apenas o sintoma pode atrasar diagnóstico
Além dos possíveis efeitos colaterais, o uso inadequado dos corticoides pode criar uma falsa sensação de controle da doença, sem eliminar o problema que está provocando as crises.
Quadros repetitivos de obstrução nasal, espirros, coriza e dificuldade respiratória podem estar relacionados a condições como rinite persistente, sinusite crônica, pólipos nasais ou outras doenças que precisam de tratamentos específicos.
“Nem toda obstrução nasal é causada por alergia e nem todo quadro deve ser tratado com corticoides. Muitas vezes, aliviar apenas os sintomas atrasa o diagnóstico da doença que está provocando as crises”, alerta Niemeyer.
Além de evitar a automedicação, especialistas recomendam cuidados preventivos durante o período seco, como manter os ambientes limpos e arejados, reduzir o contato com poeira, mofo e ácaros e procurar atendimento médico quando os sintomas forem persistentes ou aparecerem de forma recorrente.
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