Zikavírus: o mais novo inquilino do mosquito escancara o descaso do Brasil com a educação e a cidadania

Por causar também a microcefalia, o vírus faz as autoridades tomarem medidas que já deveriam ter sido executadas há décadas

Uma simples sacola plástica, tão do gosto dos consumidores brasileiros, pode se tornar foco para o Aedes aegypti | Foto: Divulgação

Uma simples sacola plástica, tão do gosto dos consumidores brasileiros, pode se tornar foco para o Aedes aegypti | Foto: Divulgação

Elder Dias

Nos anos 50 do século passado, o Aedes Aegypti era um animal ameaçado de extinção no Brasil e no mundo. Ele foi caçado impiedosamente como o transmissor da febre amarela urbana e quase foi definitivamente aniquilado. Quase. Hoje, após ressurgir nos noticiários a partir da década de 80, com o início da epidemia de dengue (hoje com seus quatro tipos e a forma hemorrágica), o mosquito prosperou em suas habilidades orgânicas propícias a abrigar exemplares viróticos: tornou-se um inseto polivalente, que transmite também a chikungunya e a febre zika.

Ficar no “quase” trouxe, aos dias atuais, um problema de grande monta. Ironicamente, é o fato de o mundo estar mais “moderno” que causa a volta retumbante do passado doloroso: a produção de lixo e a incivilidade em seu manejo, questões inerentes ao ser humano e agravadas no universo das cidades, são os maiores propagadores do mosquito e, por meio dele, dos males relatados no primeiro parágrafo.

Nos últimos meses, o mundo está sacudido com a forma mais recente dos adventos malignos do Aedes: é a febre zika, causada pelo zikavírus, que até 2007 só havia registrado 14 casos em seres humanos no mundo e de forma localizada, na África e na Ásia. Sua circulação se dava em macacos que viviam em ambientes como a Floresta de Zika, em Uganda, em que o vírus foi descoberto em 1947 — e de onde vem seu nome.

Embora a partir de 2007 tenham ocorrido casos de epidemias em regiões da África e da Ásia e em ilhas do Oceano Pacífico, como a de Páscoa, o zikavírus pode ter entrado efetivamente no Brasil por causa de um evento que já não trazia boa memória por seu resultado em campo e pelos gastos fora dela: a Copa do Mundo de 2014. É sobre a festa do futebol em seu aspecto mais positivo, o congraçamento de pessoas de todos os continentes, que se concentra a maior suspeita da entrada do vírus na América do Sul.

O infectologista e intensivista Boaventura Braz de Queiroz, do quadro permanente do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Universidade Federal de Goiás (UFG), crê nessa possibilidade. “O mais provável é que o vírus tenha mesmo chegado com a Copa”, afirma o médico, que também foi diretor do Hospital de Doenças Tropicais (HDT) de 2009 a 2012. E o Brasil teria como impedir a entrada do vírus, fazendo uma barreira epidemiológica ou algo parecido? “Era quase inevitável. Impossível bloquear um vírus que em 80% dos casos é assintomático. Como colocar em quarentena um indivíduo assim?”, diz, ainda ressaltando que à época não havia exames de sangue em escala para o trabalho.

Hoje isso, porém, é apenas um detalhe, uma filigrana. O fato é que há um problema a mais de saúde pública a ser enfrentado no País. E um problema grave: além de se apresentar ao doente de forma clínica semelhante à dengue e à chikungunya (entre os sintomas mais comuns, ela se diferencia por associar também a conjuntivite), a febre zika é a que tem o potencial de agressão fetal mais significativo: as grávidas infectadas podem ter seus bebês gerados com um quadro de microcefalia congênita, como ocorre quando são acometidas pelo rubéola.
Assim como o vírus da dengue — epidemia a que o brasileiro já está infelizmente mal-acostumado — o zikavírus é da família dos flavivírus, que têm cadeia simples e podem ser transmitidos por mosquitos e outros insetos, como carrapatos. Quando alguém doente é picado pelo Aedes aegypti, o vírus se multiplica no vetor ou em suas larvas. O mesmo exemplar ou, pior, esses novos exemplares, completam a ponte da doença entre um humano e outro ao picarem uma pessoa saudável.

Japoneses após jogo da Copa do Mundo de 2014: lixo recolhido e arquibancadas tão limpas quanto antes

Japoneses após jogo da Copa do Mundo de 2014: lixo recolhido e arquibancadas tão limpas quanto antes | Foto: Divulgação

No caso do Aedes, a chave da felicidade é também a porta para o infortúnio: o controle das larvas. Aos que sentem falta do “carro do fumacê”, como ficou conhecida a pulverização de áreas abertas por inseticidas, visando a combater o mosquito, uma má notícia: ele só tem ação durante meia hora após sua aplicação. Muito pouco para um adversário tão numeroso e espalhado. O custo da luta contra a dengue à base de fumacê se tornaria oneroso e improdutivo. Isso sem contar os efeitos colaterais, como os eventuais riscos à saúde humana e de contaminação do ambiente.

Os esforços logísticos (e, portanto, financeiros) precisariam ser, então, deslocados para o combate aos focos. Matar o mal no ninho. Um trabalho que necessita de uma sintonia muito grande entre governo, agentes e população. Na semana passada, uma pequena cidade piauiense chegou às manchetes por sua forma de lidar com a epidemia. Água Branca, localizada a 98 quilômetros de Teresina, a capital do Piauí, foi reconhecida pelo Ministério da Saúde como referência no combate ao mosquito. Lá, a ação adotou um sistema prático para uma triagem básica: toda residência, após inspecionada, ganha um selo — ou verde, ou amarelo, ou vermelho. Se a casa tiver o selo verde, indica imóvel sem criatório do mosquito; o amarelo significa risco de haver algum foco; já o vermelho, foco identificado.

O fato de ser um município com baixa população, cerca de 16 mil habitantes, é um item que deve ser pesado. É bem mais complexo cuidar de epidemias em metrópoles. Mas isso não significa que o trabalho conjunto entre autoridades e população perca seu valor. Pelo contrário, não dá para ser de outra forma.

Boaventura Braz de Queiroz ressalta a importância de que isso seja realmente um esforço conjunto. “Vivemos em um País onde presenciamos, ao mesmo tempo, o alto desenvolvimento de áreas como a informática e a volta de problemas primários, como uma epidemia provocada por um inseto. É um claro sinal de que falta investimento em educação. Até mesmo antes do saneamento básico, é preciso que haja cultura, higiene, cuidados básicos domiciliares, bons hábitos”, resume o infectologista.

Em outras palavras, não adianta só remediar a situação. Para dominar o inimigo Aedes aegypti é preciso antes absorver uma noção de autodisciplina nada fácil ao desleixado comportamento do brasileiro médio: verificar os possíveis locais de focos em casa já é algo que poucos fazem com a periodicidade recomendada — preferem “deixar para o pessoal da dengue”. Pior do que não fazer a lição (literalmente) de casa, é colaborar para a proliferação da doença com o costumeiro e irresponsável comportamento com o lixo. Isso vale tanto para quem jogar entulho em lotes baldios como para aquela sacola plástica de supermercado que carregou um pote de margarina, algo que seria completamente evitável com uma cultura mais ecológica. Esse plástico que muitas vezes vai parar numa praça pode se converter em um perfeito criadouro após alguns dias de chuva.

Fumacê é estratégia limitada no combate ao mosquito, pois não elimina larvas | Foto: Divulgação

Fumacê é estratégia limitada no combate ao mosquito, pois não elimina larvas | Foto: Divulgação

Assim como a zika veio com a Copa de 2014, desta também surgiu uma imagem e um exemplo emblemáticos: os torcedores japoneses recolhendo todo o lixo que produziam nos estádios brasileiros. “Eles mostraram como a educação pode produzir resultados. Onde havia um japonês ficava tudo limpo ao redor, deixavam o local como estava antes do jogo”, recorda Boaventura, para completar: “Precisamos tratar de uma mudança de hábitos, que estão muito aquém do que pede nosso tempo. A dengue e as outras doenças transmitidas pelo mosquito são um problema de saúde pública, agravado pela falta de educação. E hoje uma criança passa quase metade de seu tempo na escola. Sempre faltou gestão para isso, assim como falta sempre em outras áreas correlatas ao problema da infestação. E falo de todos os níveis da esfera pública, da municipal, da estadual e da federal.”

Enquanto os hábitos não mudam, o governo federal tenta mostrar que se preocupa com o problema. Cerca de 220 mil militares das Forças Armadas estão escalados para trabalhar em 356 municípios no combate ao Aedes aegypti. Em 115 deles, há suspeita de casos de microcefalia provocados pelo zikavírus. É um tipo de esforço que o médico infectologista aprova, ainda que com certa preocupação: “Nesse momento, é muito bom, é um reforço ao papel do agente de saúde. Resta saber se essas pessoas não vão se arvorar em fazer coisas que fujam de sua alçada”, explica.

Mas a bola da vez é mesmo o zikavírus, especialmente por conta da microcefalia. É uma tragédia gravíssima ter uma geração de crianças mortas ou com sequelas cerebrais permanentes simplesmente por falta de cidadania. Ainda que estejam sendo descobertas outras via de contaminação, como a via sexual — um caso dessa forma foi confirmado nos Estados Unidos, na semana passada —, é preciso vontade política e esforço coletivo para vencer a guerra contra a transmissão convencional. Importante ressaltar que a febre zika é também suspeita de desencadear a síndrome de Guillain-Barré — uma doença nervosa de caráter autoimune.

Com os holofotes sobre si, o zikavírus parece ser o mais aterrador dos inquilinos do Aedes aegypti. Mas há como estabelecer uma relação de hierarquia entre as doenças que o mosquito transmite? Se o colombiano de 49 anos do município de Sincelejo, no noroeste do país, que teve a funesta coincidência de ser contaminado com a tríade dengue–zika–chikungunya, pudesse evitar uma das três, qual seria? Em suma, há uma pior que as outras? Boaventura Braz diz que é um tanto difícil estabelecer um grau de comparabilidade. “Não dá para comparar, para dizer, por exemplo, que a zika seja pior. O grau de agressão da dengue, às vezes, é muito alto. Basta falar de sua versão hemorrágica.”

“Rebaixada” a doença controlada, aids agora avança por falta de medo

Boaventura Braz de Queiroz diz que o mau hábito é um duro adversário no combate a qualquer epidemia | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Boaventura Braz de Queiroz diz que o mau hábito é um duro adversário no combate a qualquer epidemia | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Mosquito multidoenças à parte, uma epidemia que anda silenciosa nos últimos anos é a da aids. Um dos motivos é o fato de que a antes temida doença foi “domada” por alguns coquetéis. Embora não se fale em cura, a aids é hoje totalmente controlável — isso se o paciente mantiver a disciplina no tratamento. Na contramão disso, a cultura de não usar preservativo nas relações tem prevalecido. E aqui não é coisa de Brasil, mas geral na maioria dos países, segundo o infectologista Boaventura Braz de Queiroz.

Como as gerações mais novas de jovens não viveram o trauma de ver alguns de seus ícones morrerem destruídos pela doença — Freddie Mercury, Cazuza, Renato Russo, entre outros —, para elas a aids não tem o mesmo significado. “São duas coisas: um novo olhar para a doença, que não é mais de ‘atestado de óbito’, e a não aderência ao preservativo como hábito”, diz o médico. O resultado é não haver redução significativa dos casos na faixa etária mais acometida, dos 20 aos 35 anos.

O avanço dos medicamentos faz com que a doença possa ser tratada de forma consistente — Boaventura tem pacientes com mais de 20 anos de convivência com o HIV. Mas é o mesmo avanço que provoca aberrações. Algo ainda muito raro por aqui, felizmente, é o abandono do uso do preservativo por conta de um medicamento que evita a transmissão, uma combinação de duas drogas. “Nas boates dos Estados Unidos e da Europa é muito comum o sujeito tomar essa pílula e não estar nem aí para a proteção pessoal”, relata.

No Brasil, estima-se que 0,5% da população tenha o vírus da aids. É algo em torno de 1 milhão de pessoas. Dessas 500 mil estão em tratamento, mas, da outra metade, 300 mil nem sabem que têm o vírus. Essas pessoas podem levar até oito anos para desenvolver sintomas. Até lá, são potenciais transmissoras do HIV sem que o saibam, a não ser que busquem um exame de sangue por conta própria. O mais bizarro — e Boaventura faz questão de ressaltar que são casos de exceção — são pacientes serem infectados por parceiros que já sabiam ter o vírus e não os comunicaram. “É importante reforçar que isso é uma minoria, mas ocorre.” Portadores que agem dessa forma, colocando a saúde de outras pessoas sob risco de forma dolosa, podem sofrer ação penal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.