Uso de cigarros eletrônicos avança entre adolescentes e preocupa autoridades em Goiás

Cada vez mais frequente em festas e bares, os vaporizados de nicotina se tornaram um utensílio de entretenimento na mão de adolescentes e jovens

Cigarro eletrônico vira febre entre adolescentes | Foto: Reprodução

O adolescente R.E.F, de 17 anos, estudante do ensino médio de um caro colégio particular de Goiânia, frequentado pela nata da sociedade, usa um vaporizador de nicotina há quase um ano com a finalidade de se entreter com os amigos em festas ou encontros na casa de conhecidos. Apesar de alguns colegas terem deixado o consumo frequente do cigarro eletrônico, mais conhecido como “vape” entre os adolescentes, o estudante admite ter entrado na onda atraído pela funcionalidade do aparelho e a possibilidade de alternar o consumo entre vários aromatizantes disponíveis no mercado. Este último foi o principal fator para o estudante ter comprado o primeiro vaporizador em uma tabacaria no Setor Bueno de Goiânia. “Alternar sabores e aromas é o que mais atrai os jovens, entende? É você experimentar coisas diferentes a qualquer momento, apenas num trocar de refil”, resume o adolescente.

O primeiro dos três vaporizadores do inventário do adolescente foi adquirido por R$ 450 sem questionamentos pelo vendedor e nem uma simples verificação de idade na cédula de identidade do estudante, embora a comercialização no Brasil seja proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) depois de publicada a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 46 de 2009. O uso, porém, não foi proibido.

Os outros dois aparelhos foram comprados depois de cinco meses de uso do primeiro modelo. “Ele era de um modelo intermediário, eu até gostava bastante dele, mas novos lançamentos foram lançados, com novas funcionalidades e cores, então decidi comprar mais dois, que me custaram, juntos, R$ 800”, relata.

Questionado acerca do valor dos equipamentos, o adolescente não considera caro pela durabilidade por uso intensivo, quase diário, e qualidade dos materiais empregados na produção.

Como lançamentos de produtos podem ter o uso passageiro, o estudante acredita deixar de comprar novas essências em alguns meses, mas não ao ponto de esquecer o “vape” no guarda roupas por muito tempo. “Muitos amigos meus já pararam de fumar o cigarro eletrônico. Meio que a graça do equipamento passou. Acho que largo também”, estima.

Curiosamente, o adolescente não consumia cigarro tradicional antes de comprar o eletrônico, seguiu apenas a “moda” colocada em prática pelos amigos. Ele relata também não pretender usar cigarro convencional no futuro nem os amigos. “Era uma coisa de entretenimento mesmo”.

O avanço dos cigarros eletrônicos entre os jovens e adolescentes em Goiânia parece não ter vigência estabelecida, como prevê o adolescente do próprio uso. No colégio onde ele estuda parece haver um ciclo de um grupo iniciando o uso e quando este abandona, outro surge.

Para L.E.N, de 16 anos, estudante de um colégio particular no Centro da capital, o cigarro eletrônico e derivados dele, como canetas vaporizadoras, tem conquistado pessoas de sua mesma faixa etária, conforme observado em cada evento que tem frequentado. “Em dezembro passado, por exemplo, apenas eu usava cigarro eletrônico numa festa que fui. No fim de setembro, eu vi mais sete pessoas usando, além de mim. É um aumento significativo que tenho percebido”.

O primeiro cigarro do jovem foi uma caneta vaporizadora de R$ 60 comprada em Goiânia. Depois veio um cigarro eletrônico mais sofisticado de R$ 400 e um terceiro “vape” de R$ 200.

Os pais do estudante reclamam do uso frequente dos equipamentos, porém não o forçam a deixá-lo. “Meus pais falam que faz mal, eu entendo. Por isso deixei de fumar em locais onde estejam familiares e reservei o uso para quando estiver sozinho ou com amigos”, conta.

Diferentemente de R.E.F, primeiro entrevistado, L.E.N consome o cigarro convencional, que libera fumaça por meio de combustão, com o eletrônico. Atualmente, L.E.N tem reservado dias pares para uso do cigarro comum e ímpares para o eletrônico. Com esse calendário, o jovem espera largar de vez o tabaco convencional. “Acredito que o eletrônico é menos prejudicial do que o tradicional com a queima de nicotina, alcatrão e outras substâncias”, pondera L.E.N.

Mortes por inflamação

O cardiologista do Hospital do Coração Anis Rassi, Nelson Siqueira de Morais, desconhece qualquer registro de morte ou internação, em Goiás, decorrente do uso de cigarros eletrônicos. E as 19 mortes ocorridas nos Estados Unidos, número confirmado pelo governo americano até o momento, têm relação com o uso de refis supostamente contaminados no momento da fabricação e posteriormente inalados pelos usuários.

Cardiologista Nelson Siqueira, do Hospital do Coração Anis Rassi | Foto: Divulgação

“As mortes nos EUA parecem ter relação com uma inflamação brutal nos sistemas circulatório e respiratório. O que acontece que essas substâncias tem potencial inflamatório. Você não tem os produtos da queima do alcatrão no cigarro normal, mas tem a vaporização de substâncias que ninguém sabe a origem dela. O líquido pode não ter a nicotina em seu formato original, mas tem aromatizantes que podem ter consequências mais graves ao coração”, explica o cardiologista.

Segundo o médico, a recorrência de inflamação nas vias aéreas causa a geração de cânceres, em geral relacionados ao uso de tabaco, e agora sobre esses novos casos de neoplasia e doenças isquêmicas do coração, relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos, ainda passam por exames e estudos laboratoriais no mundo inteiro. “Mas do ponto de vista de inflamação a partir da inalação, a gente já tem ligação com o cigarro eletrônico. Esses vaporizadores têm causado a mesma reação inflamatória nos sistemas circulatórios e respiratórios, porém com uma velocidade muito superior a causada pelo cigarro tradicional”, relata o médico.

As campanhas antitabagismo conseguiram reduzir drasticamente os indicadores de fumantes e novos fumantes no Brasil, segundo o cardiologista, que atua na área de combate ao fumo em Goiás, com queda de 40% para 10%.

“A gente espera que essa nova onda dos cigarros eletrônicos não cresça porque conseguimos reduzir os números de fumantes e esperamos continuar nessa redução, e que um vício não seja agora substituído pelo outro”, espera Nelson Siqueira.

Assim como nos tratamentos médicos convencionais para reduzir o vício em cigarro, os eletrônicos têm unidades decrescentes de níveis de nicotina. “A teoria é que eles fizessem a mesma função do tratamento médico levando o fumante a reduzir o nível de nicotina até usar o vaporizador com nível zerado”, pondera o cardiologista.

Estudos analisados e compilados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em uma publicação embasou a decisão do órgão, em 2009, de proibir o comércio dos equipamentos eletrônicos em todo o território nacional. Os resultados preliminares de uma pesquisa da faculdade de Medicina da Universidade de Nova York (EUA), presente no documento da Anvisa, apontaram a possibilidade de o cigarro eletrônico aumentar o risco de danos ao coração, pulmões e bexiga. Porém, os resultados não são conclusivos, já que esse tipo de investigação demanda anos de pesquisa.

Por outro lado, a agência adverte as evidências de que o uso do produto reduz os riscos para os fumantes ainda não estão claras e não há certeza dos benefícios e riscos da substituição do cigarro tradicional pelo uso de vaporizadores.

Um segundo estudo produzido no Brasil pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) e a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), criada em 1902 e a mais antiga agência internacional de saúde do mundo, não encontrou associação entre uso de cigarro eletrônico e mudanças no consumo de cigarros em pouco tempo de uso ou com um ano de seguimento continuado no uso. Os médicos cientistas não registraram diferença na mudança do consumo de cigarros entre a quantidade inicial em ano de seguimento entre fumantes que tinham usado cigarro eletrônico no início do estudo e os que não tinham. No entanto, os revisores citam que dados relevantes sobre o uso de cigarro eletrônico durante o período de acompanhamento não foram relatados.

Em julho de 2017, a Associação Médica Brasileira (AMB) enviou um ofício à Anvisa com relatos de estudos nacionais e internacionais e recomendou que o órgão mantivesse a proibição da comercialização, depois de identificado um movimento de lobistas da indústria tabagista no Congresso Nacional, segundo a associação.

“Tendo em vista os recentes movimentos da indústria do tabaco junto à mídia, entidades médicas e sociedade em geral, na tentativa de convencer as autoridades sanitárias a modificarem a RDC nº 46/2009, com o claro objetivo de liberar a produção, distribuição e comercialização dos cigarros eletrônicos, a Associação Médica Brasileira sente-se na obrigação de apoiar a manutenção da resolução, que é um marco do controle de tabaco no país”, diz o documento assinado pelo presidente da Comissão de Combate ao Tabagismo, o médico Antônio Pedro Mirra, citando ainda outras 29 pesquisas sobre o tema.

O médico da AMB disse que os produtos eletrônicos possuem 84% da mesma nicotina presente nos cigarros comburentes e os estudos por ele citados observaram altos níveis de emissão de nicotina com tragadas com duração de apenas dois segundos.

Proibição nos Estados Unidos

Os Estados Unidos estudam proibir o uso e comércio do cigarro eletrônico com sabor, de acordo com autoridades de vigilância sanitária no país. A “Food and Drug Administration” (FDA), a agência reguladora norte-americana, adiou uma nova resolução para 2022, o que gerou críticas de autoridades médicas, já que 9 milhões de pessoas fumam nos vaporizadores, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano.

Na rasteira das decisões americanas, a Anvisa pediu a 252 instituições de saúde brasileiras, na terça-feira, 1º, que enviem alertas e relatórios sobre problemas relacionados ao uso de cigarros eletrônicos. A ação deve reduzir os riscos de uma epidemia de mortes como a registrada pelos americanos.

“A ação tem como objetivo reunir informações para antecipar e prevenir uma crise de saúde como a que tem sido noticiada nos Estados Unidos, onde há casos de uma doença respiratória grave, levando a óbitos, associada ao uso desses dispositivos”, disse a agência em nota enviada à imprensa.

As pessoas ligadas a Saúde e integrantes da Rede Sentinela vão anotar relatos de pacientes com sintomas relacionais ao uso do cigarro eletrônico. Essas informações serão juntadas em um estudo anual do órgão. A Rede Sentinela é uma estratégia iniciada em meados de 2001, com o objetivo de ser observatório ativo do desempenho e segurança de produtos de saúde regularmente usados, como medicamentos, próteses e materiais médico-hospitalares.

Projeto para proibição de uso e venda em Goiás

Deputado estadual Rafael Gouveia quer proibir uso e venda em Goiás | Foto: Denise Xavier

O aumento de usuários, já percebido pelos adolescentes entrevistados, soou como alerta na Assembleia Legislativa de Goiás na última semana e levou o deputado estadual Rafael Gouveia (DC) a apresentar um projeto de Lei requerendo a proibição do uso, da comercialização, da importação, produção e propaganda de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar.

“Mantenho contato constante com jovens que frequentam bares e boates e cada vez mais tem sido comum ver jovens e adolescentes usando esses produtos em festas”, argumenta o parlamentar.

Gouveia admite ter embasado a ideia do projeto em cima de reportagens lidas sobre as mortes nos Estados Unidos pela utilização dos cigarros eletrônicos. “A partir daí aprofundamos o estudo e vimos que não tem autorização da Anvisa para serem comercializados e queremos proibir em Goiás. Tem gente que usam propaganda dizendo que o eletrônico é eficiente para auxiliar no tratamento para parar de fumar, mas isso não foi comprovado cientificamente. Essa é nossa preocupação no meio da juventude, esperamos que seja proibida a comercialização desse produto em Goiás”, ressalta.

De acordo com o projeto de Gouveia, o responsável pelos recintos, como bares e boates, deverá advertir os eventuais infratores [atualmente usuários] sobre a proibição prevista na Lei, bem como sobre a obrigatoriedade, caso persista na conduta proibida de comercializar os produtos eletrônicos, de imediata retirada do local, se necessário mediante o auxílio de força policial.

O Artigo 5º diz que “aquele que comercializar, importar, produzir, ou realizar propaganda para uso de cigarro eletrônico e similares ficará sujeito às seguintes sanções: I – multa; II – interdição do estabelecimento, por 30 dias, no caso de segunda reincidência; III – interdição total do estabelecimento, por dois anos, no caso de terceira reincidência”. O valor da multa a ser aplicada se inicia em R$ 1 mil e pode chegar a R$ 10 mil em caso de reincidência.

O deputado justifica que a alegação de trazer menos risco à saúde transmite a falsa sensação de segurança e pode induzir não fumantes a aderirem ao cigarro eletrônico. “Os e-cigarettes, como também são conhecidos, também não têm comprovação de que promova a cessação de uso dos cigarros convencionais. Isso faz com que algumas pessoas façam o uso duplo, ou seja, usam o cigarro eletrônico, mas não param de usar o cigarro convencional”.

Lojas em Goiânia

A oferta de cigarros eletrônicos pode ser facilmente encontrada na internet e em lojas físicas espalhadas por Goiânia, principalmente tabacarias. Uma delas, localizada às margens da Avenida T-63, vende produtos com preços entre R$ 250 a R$ 600, a diferença fica nos detalhes, como bateria mais duradoura, cores e materiais de acabamento, entre plástico e alumínio.

O vendedor da loja visitada conta que o modelo mais vendido custa R$ 550 e é a prova de água. “Para o pessoal que está começando a fumar ‘vapes’, indico esse modelo. Vende bastante”, resume.

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