Uma Câmara que, no discurso, quer adotar novos hábitos e práticas

Com um quadro a partir de janeiro de 2017 com 13 reeleitos e 22 vereadores que não estavam na Casa este ano, Legislativo de Goiânia defende independência

Dos 35 vereadores que assumem em janeiro, 22 não estão na atual legislatura | Divulgação

Dos 35 vereadores que assumem em janeiro, 22 não estão na atual legislatura | Divulgação

Augusto Diniz

Na ponta do lápis, a renovação na Câmara de Goiânia a partir do dia 1º de janeiro será de 62,85% das cadeiras disponíveis. Dos 35 vereadores eleitos para a legislatura que vai de 2017 até o final de 2020, 22 dos nomes não estão na Casa. A maioria deles vai ocupar um cargo eletivo pela primeira vez. Os 13 reeleitos fazem parte dos 30 que tentaram continuar no Legislativo goianiense.

O processo eleitoral barrou dois desses vereadores que buscavam a reeleição já no registro de candidatura. Foi o caso dos parlamentares Cida Gar­cêz (PMN) e Fabio Lima (PSB), que tiveram sua tentativa de fazer cam­panha impedida pela Justiça Eleitoral. Dos outros 28, chegaram a 15 os quer foram barrados pelo eleitor, que não deu um novo mandato a eles.

Apesar da renovação em quantidade, já há quem diga que essa mudança, com a entrada de nomes novos, pode ser preocupante. E tem quem defenda também que seja preciso observar o início dos trabalhos da nova legislatura para saber para qual lado irá cada um dos novos 22 vereadores.

Mas nem todos são novos. Juarez Lopes (PRTB), por exemplo, foi ve­reador entre 2005 e 2012 e não seria bem um nome desconhecido na Câmara Municipal. E há também entre os outros 21 parlamentares eleitos aqueles que são representantes de grupos conhecidos da política goiana.

Quem são eles

Já é possível dizer, por exemplo, a ligação de alguns dos vereadores a políticos ou presidentes de partidos. Um desses casos é o eleito Carlin Café (PPS), que é ligado ao deputado federal e presidente estadual do PPS, o sobrinho da senadora Lúcia Vânia (PSB), Marcos Abrão. Carlin é identificado como um novato que atua na Região Leste de Goiânia.

Cara nova na Câmara de Goiânia, a vereadora Sabrina Garcêz (PMB) é filha da parlamentar da mesma Casa, Cida Garcêz (PMN), e sobrinha do ex-vereador Wladimir Garcêz. Outro sobrenome conhecido na política goiana é Priscilla Tejota (PSD), mulher do deputado estadual Lincoln Tejota (PSD), além de nora do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Sebastião Tejota, que é marido da ex-deputada Betinha Tejota.

A Câmara terá quatro representantes das forças de segurança pública estadual e municipal. Um deles é o Cabo Senna (PRP), policial militar do grupo de Major Araújo (PRP), deputado estadual e candidato a vice-prefeito na chapa de Iris Rezende (PMDB). Outro policial militar a chegar à Câmara em 2017 é o Sargento Novandir (PTN), que faz parte do Batalhão de Choque da PM goiana.

O guarda civil metropolitano e presidente do Sindicato do Tra­ba­lhadores do Município de Goiânia (Sindigoiânia) Romário Policarpo (PTC), que colocou no nome político a sigla do órgão que trabalha, GCM. Ex-titular da De­legacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Consumidor (Decon), o delegado Eduardo Prado (PV) conseguiu se eleger em sua primeira candidatura.

Dois pastores também aparecem na lista de novos vereadores. São eles Leia Klebia (PSC), da Assembleia de Deus Jardim Mirabel, e Oseias Varão (PSB), da Assem­bleia de Deus Ministério Fama. Ele recebeu o apoio do vereador indeferido Fabio Lima (PSB) na tentativa de se reeleger. Outro religioso é Kleybe Morais (PSDC), que tem com forte bandeira a atuação contra a discussão do aborto. Ele é ligado à Igreja Católica.

Outro que recebeu apoio de um vereador que não foi candidato é Tiãozinho Porto (PROS), que teve o parlamentar Paulo Borges (PR) ao seu lado nas eleições. O empresário Jair Diamantino (PSDC) tem ligação com o líder do governo e presidente eleito da Assembleia Legislativa, o deputado estadual José Vitti (PSDB).

Lucas Kitão (PSL) é do grupo do deputado estadual Lucas Calil (PSL). Gustavo Cruvinel (PV) é filho do conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), o ex-deputado Honor Cruvinel. O ex-secretário municipal Andrey Azeredo (PMDB) é filho da ex-deputada Raquel Azeredo.

Da TV e do rádio vêm Jorge Kajuru (PRP), do grupo do ex-secretário estadual da Fazenda Jorcelino Braga (PRP), e Alysson Lima (PRB), apresentador de programa jornalístico na TV Record. O médico Paulo Daher (DEM) atua em projeto social voltado ao atendimento de câncer de mama e é aliado do senador Ronaldo Caiado (DEM).

Vinícius Cerqueira (Pros), que já esteve ao lado de Fábio Tokarski (PCdoB) e Samuel Belchior (PMDB), surge como um dos conselheiros tutelares eleitos na lista dos novos vereadores, assim como Anderson Sales (PSDC). Encerra a lista o bancário Emilson Pereira (PTN).

Realidade

Para a vereadora Dra. Cristina Lopes (PSDB), novatos precisam pensar no futuro da cidade

Para a vereadora Dra. Cristina Lopes (PSDB), novatos precisam pensar no futuro da cidade | Fernando Leite/Jornal Opção

O que esses novos 22 vereadores vão encontrar na Câmara é um cenário de descrédito junto à população goianiense. E esse é um reflexo do sentimento da população diante de todos os poderes ocupados por políticos no Brasil. “A Câmara está inserida em um contexto de uma das piores administrações da cidade”, afirma a vereadora reeleita Dra. Cristina Lopes (PSDB).

Para a parlamentar, é um efeito cascata. “Quando a cidade vai mal, vai junto todo o conjunto. Se a cidade está mal, os vereadores também são vistos como ruins.” Mas Cristina se mostra esperançosa, ainda mais com a porcentagem de renovação, que para ela só é possível com o voto, o grande instrumento que a população tem para exercer a democracia.

“Quero acreditar que teremos uma renovação”, se enche de esperanças a tucana, que define como necessários que esses novos vereadores cheguem ao Legislativo da capita para contribuir com a construção de uma gestão melhor. Para Cristina, faltou mais capacidade para administrar Goiânia nos últimos anos, assim como também ficou devendo a atuação da Câmara. “Quando o debate na Câmara deixar de ser tão direcionado e priorizar o coletivo, nós teremos melhora na cidade.”

A vereadora explica que o Poder Legislativo não pode compactuar com situações como a de deixar que parlamentares a serviço do próprio umbigo passem a não usar a prerrogativa de pressionar o Executivo e fiscalizar a gestão municipal.

Crise de identidade pode ser corrigida com reaproximação da sociedade

A vereadora reeleita Dra. Cristina Lopes (PSDB) aconselha os novos 22 vereadores eleitos no dia 2 de outubro a não pensarem em ações imediatas, mas que sejam parlamentares que atuem com foco na discussão do futuro de Goiânia. “É preciso ouvir mais, utilizar a política do olho no olho.”

De acordo com a tucana, o otimismo que ela tem alimentado desde o resultado das eleições para o Legislativo goianiense vem da crença de que será possível dialogar e realizar debates de qualidade na Câmara a partir de janeiro de 2017. “Nós precisamos inclusive de ter renovação na presidência da Casa. Eu acredito que a renovação é uma mudança saudável para dar novo formato e uma nova cara à gestão da Câmara”, observa.

Lucas Kitão (PSL) defende que novos parlamentares poder retomar a credibilidade da Casa

Lucas Kitão (PSL) defende que novos parlamentares poder retomar a credibilidade da Casa

Da vereadora reeleita, o discurso de esperança em uma nova Câmara é continuado por Lucas Kitão (PSL), em dos novatos que conseguiram uma cadeira no Legislativo municipal em 2017. “Hoje é um órgão desacreditado pela população, mas dá para resgatar a credibilidade.”

Para Kitão, a solução é criar um grupo de parlamentares que queira identificar uma possibilidade de construir um novo conceito de Câmara a partir de janeiro. “É preciso buscar entre quem já está na Casa e gente que entrou agora um novo formato”, explica. E essa recuperação da imagem do Legislativo goianiense como um local sério que se preocupa com as demandas da cidade viria do uso de instrumentos que aproximem a população das atividades da Casa.

“Precisamos usar mais as consultas públicas, audiências com a população, os plebiscitos como forma de reaproximar a sociedade da Câmara.” Kitão entende que a participação do povo nas decisões do Parlamento Municipal farão com que o Legislativo da capital se renove. “Temos que criar mecanismos para trazer um novo pensamento e mudar essa insatisfação com o trabalho dos vereadores.”

O novo parlamentar do PSL afirma que pretende esperar a eleição de prefeito acabar para decidir um rumo a tomar com relação à eleição para escolher o novo presidente da Câmara no ano que vem. “Tem gente que este lá e gente nova com quem eu simpatizo. Mas esse assunto ainda é muito precoce.” Ele cita a vereador Dra. Cristina como espelho de trabalho parlamentar que lhe inspira, assim como outros parlamentares.

Desafios

Um dos desafios que Kitão vê que a Câmara precisa enfrentar é o corporativismo que existe no Legislativo de Goiânia. “A ligação forte com o prefeito é o problema mais complicado. A Câmara não pode ser uma extensão do Executivo”, afirma.

Sobre a atual legislatura o futuro vereador observa que a especulação imobiliária foi atendida diversas vezes em seus interesses sem se preocupar, por exemplo, com questões ambientais danosas à cidade. “A Câmara precisa ser um poder mais independente”, declara Kitão.

E o ano de 2017 causa certas preocupações com relação a qual postura adotarão os novos vereadores. Como completa dez anos em vigor sem muito de seu conteúdo nem ter sido sequer regulamentado, o Plano Diretor de Goiânia precisa ser discutido. E ninguém quer abrir mão das prerrogativas de vereador para tratar do assunto. E é um dos que causa maior preocupação, pois ninguém tem como saber se será uma legislatura que afundará o Plano Diretor ou tentará impor limites a grupos econômicos que assediam parlamentares e o Executivo na busca de benefícios que pouco ou nada têm a ver com o contexto de comum e amplo interesse da população.

Sem pressão

Para o Delegado Eduardo Prado (PV), é preciso ser independente  e não ceder a pressões

Para o Delegado Eduardo Prado (PV), é preciso ser independente
e não ceder a pressões

Defensor de uma atuação independente na Casa, o eleito Delegado Eduardo Prado (PV) defende a independência do Legislativo, sem atender a pressões de um ou outro grupo na cidade. “Não tenho vínculo com ninguém. Vou votar o que eu achar que é melhor para a sociedade.” O parlamentar eleito pelo PV vê uma Câmara renovada, com pessoas motivadas a buscar uma mudança de pensamento. “Espero que não decepcionem a população”, afirma.

Eduardo destaca a discussão do Plano Diretor e da expansão urbana como temas centrais e mais do que importantes em 2017. “Você não pode atropelar áreas nem barrar o crescimento, mas é preciso evitar abusos. Se a expansão for boa para a cidade, a gente tem que aprovar. Mas tudo baseado em estudo técnico.”

Para o delegado, a população se viu pouco representada pelos atuais vereadores porque a Câmara está ocupada por “pessoas acomodadas”. “E o prefeito Paulo Garcia (PT) não teve uma gestão muito feliz”, define. Como cidadão e eleitor, Eduardo diz que acompanhou muitas denúncias e problemas em secretarias passarem sem que fossem observados ou se tomasse alguma atitude. “A Câmara não tem fiscalizado bem a atuação do Executivo”, reclama.

Sobre a eleição de um novo presidente, Eduardo afirma que o caminho é também o da renovação. “Sou a favor de sempre dar oportunidade a novas caras. Seria bom mudar a cadeira para ter novas perspectivas. Que seja alguém que ainda não ocupou a cadeira de presidente da Câmara.”

Foco na saúde

Médico que atuou no SUS, Paulo Daher (DEM) defende a melhoria e valorização da saúde

Médico que atuou no SUS, Paulo Daher (DEM) defende a melhoria e valorização da saúde

O médico Paulo Daher (DEM) conta que atuou durante muitos anos no Sistema Único de Saúde (SUS) e tem visto, não só na sua área profissional, a Câmara passar anos sem apresentar um trabalho relevante à sociedade. Movido por uma vontade de ajudar as pessoas que vê sofrendo para conseguir uma consulta, remédio ou um exame, o democrata gostaria de ver os problemas da saúde resolvidos, por exemplo, em postos de saúde que funcionem de verdade.

“Faltou muito a fiscalização das ações da prefeitura por parte da Câmara.” O alerta feito por Paulo à nova legislatura, da qual ele fará parte, define a sua atuação na busca pela orientação ao Executivo da adoção de medidas simples, sem muito custo, que melhorem as condições dos serviços de saúde, com a valorização dos profissionais da área, e o investimento em medicina preventiva.

Paulo define como “complacente” a postura dos atuais vereadores diante das ações do prefeito. “O poder da Câmara deveria ser mais independente.” Aliado do senador Ronaldo Caiado (DEM), o médico afirma que o presidente do partido dá liberdade para que ele atue sem amarras. Mas diz que a eleição de presidente da Câmara deve contar com a orientação do senador.

Voz da população

Jornalista Alysson Lima (PRB) quer usar o poder de vereador para solucionar problemas da população

Jornalista Alysson Lima (PRB) quer usar o poder de vereador para solucionar problemas da população

O jornalista Alysson Lima (PRB) vê que hoje é difícil se pensar em um trabalho integral a ser desenvolvido pela Câmara, pela fragmentação da atuação do Legislativo. “Não são todos que estão ligados a interesses econômicos, mas existem grupos sim que atendem a demandas de determinados setores.”

Defensor da participação popular nas decisões da Câmara, Alysson se define como bastante autocrítico e que tenta sempre ampliar sua participação política como cidadão. “É preciso começar a mudar a mentalidade para que o povo deixe de cobrar dos políticos somente em ano eleitoral. As redes sociais possibilitaram que se acompanhe mais os políticos e começa a mudar isso.”

Para Alysson, a renovação aconteceu na eleição, pelo menos nos nomes. “Ainda é cedo para estabelecer um perfil da nova legislatura. Mas tenho certeza que vai ser uma Câmara mais dinâmica, com muita gente ligada às redes sociais, com nível superior de formação.” Entre os nomes que considera capacitados e que foram eleitos, ele cita o Delegado Eduardo Prado e Gustavo Cruvinel (PV).

Essa nova realidade mais engajada é citada por Alysson como uma nova possibilidade de se pensar a Câmara de Goiânia mais conectada com as necessidades da população. Sobre sua atuação como vereador, o jornalista diz que pretende ser um parlamentar para todos, que deixou de ser o apresentador que fazia as denúncias para ter poder de atuar nesses casos. “Independentemente do prefeito que for eleito, quero ser um vereador que fiscaliza e cobra da prefeitura com equilíbrio e respeito.”

A discussão do Plano Diretor para ele é algo bem “melindroso”, que precisa ter a participação da sociedade. “É um tema que envolve muito assédio financeiro.” Outra preocupação de Alysson é com o transporte coletivo, e ele pretende atuar para ver se a população concorda com o modelo adotado hoje em Goiânia.

Inicialmente, ele defende a eleição do vereador Rogério Cruz (PRB) para ser o novo presidente da Casa. E adiantou que sua atuação será independente: “Não aceito cabresto.”

Sindicalista

Presidente do Sindigoiânia, Romário Policarpo (PTC) quer legislar com ajuda da população

Presidente do Sindigoiânia, Romário Policarpo (PTC) quer legislar com ajuda da população

Presidente do Sindicato do Trabalhadores do Município de Goiânia (Sindigoiânia), Romário Policarpo (PTC), que é guarda civil metropolitano, analisa que as votações polêmicas prejudicaram vereadores que tentavam a reeleição em Goiânia. “Eu acredito que tem que mudar o cenário político, mas não é só na Câmara da capital.”

Ele é mais um defensor da reaproximação da população com o Legislativo. “Os vereadores não podem entrar em particularidades de prefeito ou governador. E por alguns vereadores novos que eu conheci, a tendência é a de ter uma Câmara mais independente.” Romário diz que enxerga, entre os novos parlamentares, um sentimento maior da necessidade de manter a independência da Casa.

De acordo com o presidente do Sindigoiânia, a discussão da presidência da Casa e sua eleição já faz parte das conversas de alguns grupos que estarão no Legislativo em 2017. “Depende muito também de quem for o prefeito eleito. Mas eu defendo que a escolha caminhe para grupos alternativos, com atuação mais independente dentro da Câmara.”

A atuação conjunta com a população será construída a partir da colocação do cargo a serviço da sociedade como um canal aberto com a cidade, explica Romário. “É a população que vai decidir como o Romário vai atuar e votar no que for melhor para a cidade”, declara.

Sobre o papel fiscalizador, o vereador eleito pelo PTC observa que há uma limitação na atuação de fiscalização que precisa de discussão mais profunda. “A participação popular é importante. São só 35 vereadores e quase 1,5 milhão de habitantes”, enfatiza.

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