Trump, seca e violência: como suportar o apocalipse

Por motivos ambientais, políticos ou sociais, tudo indica que será preciso ter resiliência para controlar os impulsos e manter a lucidez pelos próximos anos e décadas

O perigo de uma bomba nuclear talvez seja mais majestático do que a destruição de um bioma como o Cerrado e que o avanço do crime organizado, mas todos as ameaças desafiam a resiliência e pedem mudança de rumo

Elder Dias

Furacões, terremotos, secas severas, bombas nucleares, ódio, intolerância, violência generalizada. Não necessariamente nessa ordem, mas ninguém que tenha acompanhado o noticiário ou as redes sociais nas últimas semanas se livrou de se deparar com esses assuntos. Não que eles nunca estivessem fora de pauta, mas apareceram todos juntos de uma vez: são fenômenos naturais, ameaças graves entre países ultra-armados e diversas formas de hostilidade.

Em um país de cultura judaico-cristã como o nosso, não tem como não ligar tudo às imagens do Apocalipse, o último livro da Bíblia, que traz revelações herméticas sobre os últimos dias da Terra. Faz tempo que as pessoas usam a expressão “fim dos tempos” – na verdade, parece que desde os escritos do referido livro de São João Evangelista nunca a deixaram. Que a conjuntura traz graves preocupações sobre o destino da humanidade e do próprio planeta, disso não há dúvidas.

O apocalipse pode vir de uma guerra nuclear? Desde a explosão da primeira bomba atômica, em Hiroshima, com toda aquela plasticidade mórbida e maligna, isso se tornou uma espada de Dâmocles sobre o planeta. O pós-guerra trouxe a disputa ideológica, econômica e geopolítica entre as superpotências dos mundos capitalista e comunista e, com ela, a corrida armamentista. O auge do perigo foi em 1962, quando mísseis nucleares soviéticos foram instalados em Cuba em resposta a uma invasão à ilha patrocinada pelos Estados Unidos. Depois de negociações tensas, um acordo foi fechado para a retirada das armas, com o compromisso da reciprocidade dos norte-americanos em fazer o mesmo em bases da Itália e da Turquia, nas vizinhanças da Cortina de Ferro do mundo socialista.

Nos dias atuais, a Coreia do Norte tem feito testes nucleares cada vez mais ousados. É o país mais fechado do mundo, com uma ditadura familiar de três gerações que tem um jovem no poder. Kim Jong-un tem 34 anos e, com um potencial bélico perigosíssimo, a cada discurso triunfal dirige ameaças pesadas aos Estados Unidos. Do outro lado está Donald Trump, o presidente mais verborrágico, destemperado e imprevisível da história da América. Equilíbrio em atos e palavras não é exatamente seu forte. E o mundo fica na corda bamba.

Mas o apocalipse pode estar mais perto, no Cerrado, ecossistema considerado o “berço das águas” do território brasileiro. Água é questão de vida ou morte. Onde não há água não há vida, simples assim. A situação pela qual vem passando o Cerrado nas últimas décadas e, especialmente, nos últimos anos demonstra que alguma coisa está fora da ordem natural de seu regime. Se ainda há uma estação seca e outra chuvosa dividindo o ano – como tem de ser no Cerrado –, preocupa como isso tem se dado: a sensação é de que o período de estiagem está se esticando e as chuvas têm se tornado mais raras, breves e fortes. Não é algo baseado apenas em uma observação leiga – estudiosos apontam, por exemplo, a falta das chuvas mansas e contínuas, durante dias, as chamadas “invernadas”, que são as que realmente cumprem com o papel de reabastecer o lençol freático.

A expansão do agronegócio, com o consequente aumento da fronteira agrícola, tornou o Cerrado coisa rara na paisagem ao longo das rodovias. Estima-se que mais da metade da vegetação original não exista mais. Pior: o que existe fora dos parques está fatiado em ilhas, sem qualquer sustentabilidade. Pior ainda: as queimadas nos parques, como ocorreu na última semana com a Chapada dos Veadeiros, transformam o fogo de amigo em vilão do bioma. Como alertou o professor Altair Sales Barbosa em entrevista histórica ao Jornal Opção há três anos, a extinção do Cerrado leva inevitavelmente ao aniquilamento dos rios e dos reservatórios. A falta d’água generalizada na região metropolitana de Goiânia, em Brasília e em mais dezenas de municípios já é consequência do que fizeram com o meio ambiente. O que preocupa agora é a falta de envolvimento sério das pessoas e de vontade política genuína dos governos, mesmo com esse quadro gravíssimo. Será que, quando vierem de fato, ainda que tímidas, as chuvas não afogarão qualquer lembrança e postergarão a necessidade urgente de mudança?

O apocalipse pode estar logo ali na esquina. Quem mora em Goiânia pode se ver longe fisicamente do Rio de Janeiro, que vive uma guerra civil não declarada, mas não deixa de sentir medo ao sair às ruas. Isso ganha tom surreal quando se passa a temer pela integridade do filho dentro de uma escola. A tragédia do Colégio Goyases, onde um adolescente levou para a sala de aula uma pistola após sofrer assédio moral de seus colegas, matou dois deles e feriu outros seis – uma garota ficou paraplégica –, espalha desesperança. E muita gente continua a achar que a solução seja armar as pessoas, de modo com que, assim, o bandido, em tese já “armado”, passe a “ter medo” de praticar seus crimes. Seria só ingenuidade se, por trás dessa ideia desastrosa, não houvesse muita gente interessada em ganhos políticos e financeiros – as multinacionais da indústria armamentista estão atentas e satisfeitas com os rumos que vêm sendo tomados.

Não bastassem os casos de mortes banais, o crime organizado avança. Até então resistente à penetração de grupos como o PCC e o Comando Vermelho, já há nos presídios goianos e na criminalidade das ruas claros sinais da influência deles. Ao quadro de violência se junta o da intolerância: recentemente, numa avenida da capital, uma professora foi achincalhada durante uma manifestação pela intervenção militar(!), simplesmente por apontar o polegar para baixo diante da situação. Foi xingada de… “professora!”.

O positivo que há nas situações extremas é poder aprender com elas. A humanidade é bela por ter o condão de trabalhar o mundo conforme seu desígnio. No cristianismo, isso se chama “livre arbítrio”. E a mensagem apocalíptica significa “revelação” de uma nova era. Talvez seja necessário chegar aos maiores limites para aprender. Talvez seja esse o passo para essa evolução. Até lá, será preciso ter resiliência para controlar os impulsos e manter a lucidez.

 

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