Todos conhecem alguém que tem ou teve câncer. Por quê?

A incidência no mundo é alta, mas especialistas dizem que muitos tipos da doença, além de estarem sob controle, têm cura

O câncer deixou de ser uma doença rara e pode atingir qualquer um, mas algo é certo: há muitas pessoas que enfrentam a enfermidade e sobrevivem

O câncer deixou de ser uma doença rara e pode atingir qualquer um, mas algo é certo: há muitas pessoas que enfrentam a enfermidade e sobrevivem

Marcos Nunes Carreiro

Por quê? A pergunta do título é difícil de ser respondida, embora a afirmação possa ser considerada como acertada. É difícil encontrar alguém que não conheça uma pessoa com diagnóstico, em tratamento ou que já tenha falecido em razão desse conjunto de enfermidades. O autor desta reportagem, infelizmente, conhece algumas — em todos as fases descritas anteriormente.

Tentemos responder à pergunta começando pelo seguinte: câncer, em uma definição genérica, pode ser classificado como um conjunto de doenças. Não se trata de uma enfermidade apenas, pois a mutação da célula acontece de maneira diferente nos mais variados órgãos em que se manifesta.

As complicações têm início quando há lesão no material genético da célula, que começa a se proliferar sem controle e a invadir tecidos que não devia. Essa é uma definição genérica. Quando essa célula começa a sofrer alterações, sua morfologia se modifica. É claro que isso varia muito de órgão para órgão, mas de uma maneira geral funciona assim.

Dessa forma, entre os vários de tipos de câncer, há doenças mais e menos comuns. Câncer de mama, e até o câncer de pulmão, são tipos relativamente frequentes. Ao último muito se deve o hábito do fumo, sobretudo do cigarro (leia mais sobre esse tipo de doença na próxima página).

Órgãos ligados à Organização das Nações Unidas (ONU) têm apresentado relatórios com expectativas de crescimento no número de casos. O último, divulgado no ano passado, apresentou o seguinte dado: de que os casos de câncer devem aumentar nos próximos anos, prevendo que em 2030 o número de pessoas que morrerão em decorrência disso chegará a 17 milhões por ano. Entretanto, é difícil apontar ao certo as suas causas.

Um dos prováveis fatores para isso é o envelhecimento da população. Como a probabilidade é que a expectativa de vida das pessoas continue crescendo, em grande parte devido à evolução tanto da medicina quanto dos medicamentos, o número de idosos consequentemente cresce. Logo, atualmente, as pessoas vivem décadas a mais do que há apenas um século, quando não costumavam passar dos 50.

O que isso tem a ver com o câncer, o leitor há de se perguntar. O onco-hematologista do Hos­pi­tal Israelita Albert Einstein, em São Paulo, Guilherme Perini a­ponta: “Um dos fatores de risco para câncer é justamente a idade. É o caso dos cânceres no sangue. Leucemia é mais comum em idosos. Alguns tipos de linfoma também. Então, com mais idosos, é de se esperar que os casos de câncer também aumentem”.

Há mais. Existem hábitos que podem aumentar a possibilidade de câncer, como o tabagismo. Alguns tipos de dieta, como um alto consumo de elementos defumados e carnes processadas também pode elevar o risco, assim como o uso exagerado de álcool. “De uma maneira geral, levar uma vida saudável do ponto de vista de dieta e exercícios físicos diminui o risco de se ter várias doenças, inclusive câncer. Mas não há um tipo de dieta específica para se evitar isso”, assegura Perini.

Para ele, não é porque alguém corta o carboidrato ou a proteína, que ela vai evitar ter câncer. “Ainda não podemos afirmar isso, porque o assunto é mais complexo e leva em conta uma série de fatores, como o genético”. E ainda há que se levar em consideração também a obesidade.

Em 2014, a Sociedade America­na de Oncologia Clínica divulgou relatório alertando que, no País, a obesidade deve ultrapassar o tabaco como o principal fator de risco para o câncer. Isso porque o número de fumantes foi reduzido, mas o de obesos só aumenta. No Brasil, a situação não é muito diferente.

Dados do Ministério da Saúde apontam que o índice de brasileiros aci­ma do peso cresce a cada ano. Em 2013, a quantidade de pessoas nessa situação já passava da metade da população (50,8%), número que aumentou em 2014, chegando a 52,5%, dos quais 17,9% estão obesos.

Ainda há mais. Perini, por exemplo, não acredita que haja algum fator específico que leve ao aumento dos casos de câncer. Pelo contrário, acha que a mudança de hábitos já começam a ter um resultado sobre as doenças, como “a diminuição do tabagismo e o aumento dos exames por parte das mulheres”.

Soma-se à análise o fato de que os diagnósticos são muito marcantes. “É possível que todo mundo já tenha conhecido alguém com pneumonia, mas as pessoas não comentam sobre isso na mesa do jantar. Por ser mais marcante, tanto o diagnóstico quanto o tratamento, o câncer aparece mais”, argumenta.

Além disso, Perini atribui esse aumento também à maior notoriedade dos casos. “As pessoas vêm deixando de morrer de coisas pelas quais morriam antigamente, como infecção, pneumonia e infarto. Com o avanço da medicina, isso deixou de ser comum. Assim, os casos de câncer acabam aparecendo mais”, relata.

Assim, o mais correto é dizer que não há uma resposta clara à pergunta do título. Mas algo é certo: uma grande parte dos tipos existentes de câncer tem cura.

Câncer de pele: uma doença curável, mas que tem aumentado a cada dia

Flávio Cavarsan: “A falta de prevenção, somada ao envelhecimento da população, resulta no aumento dos casos”

Flávio Cavarsan: “A falta de prevenção, somada ao envelhecimento da população, resulta no aumento dos casos” | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

“Aqueles tumores que tiveram estratégias de prevenção feitas de forma correta no passado, apresentaram redução de ocorrências. Agora, aquelas estratégias que não foram bem planejadas resultaram no contínuo aumento da incidência das doenças. É o caso do câncer de pele”.

A fala é do oncologista, especialista em doenças de pele, Flávio Cavarsan. Ele sustenta que as campanhas de prevenção, que acontecem esporadicamente no Brasil capitaneadas pela So­ciedade Brasileira de On­cologia, uma instituição privada, e sem o envolvimento das estruturas governamentais, não têm surtido efeito.

E isso, em grande par­te, por sua abrangência restrita. Algo que não se viu em ou­tros tipos da do­ença, como o câncer de colo uterino. “O Ministério da Saúde entrou na questão, o que teve um impacto de redução importante”, argumenta. E a falta de prevenção, somada ao envelhecimento da população, resulta na intensificação dos casos.

Cavarsan explica que o câncer de pele está aumentando no mundo todo, principalmente na população predominantemente branca. Ele conta que em Goiânia, cidade onde mora, esse aumento é evidente. “Temos uma média de 10% de aumento ao ano, para os casos de melanoma (o câncer mais grave da pele), e algo em torno de 5% a 6% de aumento ao ano para os casos de carcinoma (tumores menos graves)”.

O médico ainda compara o Brasil a outros países com alta incidência do câncer de pele, como Austrália e Estados Unidos. Segundo ele, há dois problemas imediatos: o hábito de se expor ao sol por parte das pessoas e a falta de diagnósticos precoces. “Aus­trália e Estados Unidos têm cerca de 80% de diagnósticos precoces e apenas 10% de tratamentos invasivos. Aqui é o contrário: 90% dos nossos casos são invasivos.”

Existe cura para muitos tipos de câncer

Onco-hematologista Guilherme Perini: “Essa história de que câncer não tem cura não é verdade. Há muitos tipos de câncer que têm cura”

Onco-hematologista Guilherme Perini: “Essa história de que câncer não tem cura não é verdade. Há muitos tipos de câncer que têm cura”

“Se um dia você ouvir que foi encontrada a cura do câncer, não leve a sério. O que chamamos de câncer é na verdade um conjunto de mais de cem doenças que, em comum, têm apenas a célula maligna”. A fala é do respeitado Drauzio Varella, no livro “Bor­bo­letas da alma”, publicado pela Companhia das Letras.

O que acontece é o seguinte: os tumores originados nos diversos órgãos não só têm características próprias, como evoluem de maneira variável em cada pessoa. Por isso, devido a essa diversidade biológica, têm sido lentos e desiguais os avanços na cancerologia. Drauzio diz que, nos anos 1970, curava-se apenas 10% dos casos de câncer de pulmão; hoje se cura 13% ou 14% nos melhores centros.

Um avanço pequeno. Porém, em outras áreas, como câncer de mama e testículo, os avanços foram enormes. Embora a incidência seja alta (estima-se que, entre 2014 e 2015, quase 60 mil novos casos tenham sido diagnosticados no Brasil), as chances de cura do câncer de mama são de até 97%. Claro que, quanto antes a doença for identificada, maiores são as possibilidades de cura.

“Então, essa história de que câncer não tem cura não é verdade. Câncer de pele localizáveis, por exemplo, são curáveis com cirurgia. Câncer de colo uterino localizáveis são curáveis com cirurgia, assim como câncer de intestino. Alguns tipos de leucemia são curáveis, linfomas também. Há tipos de câncer, geralmente doenças descobertas em estágios mais avançados, que realmente não são”, afirma Guilherme Perini.

O primeiro fator-chave, então, é a identificação precoce. Sobre isso, Perini diz que a primeira ação em relação a isso é detectar as lesões pré-malignas e retirá-las antes que se tornem verdadeiramente um câncer. Para isso, existem exames preventivos, caso do Papanicolau, exame que se faz na mulher e que ajuda a identificar lesões, permitindo ações rápidas contra o câncer de colo uterino, por exemplo.

Tanto que esse tipo da doença tem cura em cerca de 90% dos casos, desde que haja identificação, o que demanda visita regular a um ginecologista, assim como a realização do exame Papanicolau — para as mulheres que já tenham iniciado sua vida sexual. É o caso também de outro tipo de câncer: o de intestino, evitável por meio do exame de colonoscopia.

“Grande parte dos cânceres de intestino”, relata Perini, “são precedidos por pólipos displásicos, então é importante fazer uma colonoscopia aos 50 anos de idade para verificar a existência deles e retirá-los antes que se tornem câncer”. O mesmo ocorre com o exame do toque, para homens, a fim de evitar o câncer de próstata.

Em outras palavras, identificar lesões pré-malignas ou retirá-las no estágio inicial são duas situações que podem salvar a vida de alguém. Mais do que isso, as explanações acima mostram que muitos tipos de câncer têm, sim, cura.

Mas há um segundo fator-chave: a prevenção. Sobre isso, o principal fator a ser levado em consideração é o tabaco. Por incrível que pareça, o câncer de pulmão ainda lidera o ranking de incidência entre os tipos da doença, sobretudo entre homens. Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que 53% dos casos diagnosticados e 57% das mortes ocorrem em homens.

E entre todos os tipos da doença, a que mais ocorre em homens é justamente o câncer nos pulmões. Nas mulheres, a enfermidade é a terceira, precedida pelos cânceres de mama e colorretal. Também segundo o relatório, a nível global, o câncer de pulmão é o mais letal, com 19,4% do total, seguido pelo câncer de fígado (9,1%) e estômago (8,8%).

A razão para a alta incidência desse tipo de câncer é o tabaco, que ainda causa problemas para uma grande parte da população. E isso ocorre mesmo que o cigarro tenha tido seu consumo diminuído ao longo dos anos. No Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), entre 1980 e 2010, o consumo oficial aparente de cigarros — per capita — foi reduzido em 65%, sendo 30,7% nos últimos nove anos. Contudo, ainda há muito a ser feito.

É curioso notar que, embora os índices de câncer de pulmão estejam intimamente ligados ao uso do tabaco, ainda há resistência de muitos em abandonar o velho hábito; uma relutância que é antiga. Em “O imperador de todos os males: uma biografia do câncer”, o médico indiano, radicado nos Estados Unidos, Siddhartha Mukherjee narra uma boa parte dessa história.

Ele conta que em 1761 um boticário de Londres chamado John Hill afirmou ter encontrado um carcinógeno oculto no rapé (uma forma do tabaco), substância que poderia causar câncer nos lábios, na boca e na garganta. Porém, por ser uma figura tanto pitoresca, uma espécie de Romero Britto da medicina inglesa do século 18, Hill não chamou a atenção da comunidade científica. Muito embora estivesse correto.

A essa época, o tabaco já era vício nacional. Nos pub e cafés, lugares fechados, homens se reuniam para puxar fumaça dos cachimbos e charutos ou cheirar rapé. A Coroa, claro, não deixou de observar o potencial de consumo do produto e, logo, espalhou o tabaco por suas colônias, sobretudo do outro lado do Atlântico, onde as condições de cultivo da planta eram de excelência quase sobrenatural.

Os Estados Unidos, que só alcançaram sua independência em 1776, eram o principal fornecedor de tabaco da Inglaterra, que entre 1700 e 1770 quase triplicou a importação do produto, passando de 38 milhões para mais de 100 milhões de libras por ano, crescimento só visto entre os estadunidenses a partir do século seguinte, o 19.

“Em 1870, o consumo per capita nos Estados Unidos era de menos de um cigarro por ano”, narra Mukherjee. “Apenas trinta anos depois, os americanos consumiam 3,5 bilhões de cigarros e 6 bilhões de cachimbos por ano. Em 1953, o consumo médio anual de cigarros chegara a 3500 por pessoa. Em média, um americano adulto fumava dez cigarros por dia; um inglês, doze; um escocês, quase vinte”.

O contexto do mundo à época, segundo o pesquisador, foi propício para a difusão do hábito. “No turbulento século de 1850 a 1950, o mundo ofereceu conflitos, atomização e desorientação. O cigarro ofereceu o lenitivo oposto: camaradagem, senso de pertencer a uma coletividade e a familiaridade do hábito. Se o câncer é o produto quintessencial da modernidade, assim também é com a sua principal causa evitável: o tabaco”.

Estudos começaram a surgir, de maneira mais intensa, a partir de 1947. À época, no começo do inverno, o ministro da Saúde inglês foi alertado sobre uma inesperada “epidemia” que emergia lentamente: casos de câncer de pulmão tinham aumentado quase 15 vezes nas duas décadas anteriores. Mas houve resistência e muitos médicos, mesmo estudando os casos de câncer de pulmão, se recusavam a parar de fumar.

Foi o caso de Evarts Graham, renomado cirurgião de St. Louis que anos 1920 foi pioneiro em pneumonectomia, a resseção dos pulmões para remover tumores. Em 1948, mesmo sem acreditar que o cigarro causava os cânceres de pulmão que tratava todas as semanas, foi convencido pelo estudante de medicina de Nova York Ernst Wynder, a ajudar na pesquisa para provar o contrário do que acreditava. Sua intenção era mostrar que Wynder estava errado.

Não estava. E no começo dos anos 1950, isso ficou provado. Graham parou de fumar, mas em fevereiro de 1957 morreu — de câncer de pulmão. No mês anterior, quando não se recuperou de uma “gripe”, Graham se submeteu a uma bateria de exames no Barnes Hospital. Um exame de raio X revelou que um tumor obstruía os bronquíolos superiores e que seus pulmões estavam crivados de centenas de depósitos metastáticos de câncer.

“Em 14 de fevereiro, com seu estado deteriorando-se rapidamente, Graham escreveu para o cirurgião Alton Ochsner, amigo e colaborador: ‘Você talvez tenha ouvido dizer que recentemente fui paciente do Barnes Hospital por causa de uma carcinoma broncogênico bilateral, que entrou em mim esgueirando-se como um ladrão na noite […] Você sabe que parei de fumar há mais de cinco anos, mas o problema é que fumei durante cinquenta anos”. Duas semanas depois, morreu.

Antes de sua morte, porém, Graham escreveu um ensaio indagando sobre as maneiras de combate à difusão do tabaco no mundo. Surgiu daí a ideia de restringir a publicidade da indústria de cigarro, em uma época em que a venda nos Estados Unidos tinha disparado em 5000%, devido a isso [os leitores mais velhos haverão de se lembrar do “Homem Marlboro”].

Porém, apenas em 1965, com o crescimento dos índices, o Mi­nistério da Saúde estadunidense acatou a ideia e aprovou a lei Cuidado: fumar cigarros pode ser prejudicial à sua saúde. Assim, de certa forma, é possível dizer que partiu de Graham, de seu exemplo, uma parte da luta contra o tabagismo no mundo.

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