Surto de febre suína na China afeta exportações goianas

Vendas para o mercado exterior recuam quase 1 bilhão de dólares, especialmente por causa da dizimação do rebanho chinês causada pela infecção

Pedro Arantes: “A situação só não está pior porque os estoques estão baixos” | Foto: Fredox Carvalho

O surto de febre suína, que dizima o rebanho chinês desde 2018, contaminou a economia goiana. O valor das exportações do Estado caiu 17,5% de janeiro a agosto deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado. Isso significa um tombo de 922 milhões de dólares, puxado principalmente pelo complexo soja, cujo maior comprador é exatamente o país asiático, que a utiliza principalmente para alimentar sua fonte preferida de proteína animal.

De acordo com dados da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), que tem, entre as suas atribuições, acompanhar o movimento da balança comercial goiana, o valor das exportações do complexo soja caiu de 392,6 milhões de dólares, nos oito primeiros meses de 2019, para 104,9 milhões de dólares este ano.

“O que ocorreu foram fatos externos. Por causa da febre suína, a China teve de sacrificar metade de seu rebanho”, explica o subsecretário de Assuntos Metropolitanos, Cidades, Infraestrutura, e Comércio Exterior, Everton Correia. A soja é vendida para o marcado asiático, principalmente, na forma de ração para alimentar esses animais, por isso o impacto imediato nas exportações goianas.

O atual surto de febre suína começou em agosto do ano passado. Os chineses, que são os maiores consumidores da carne no planeta, têm metade da população suína do planeta. Os especialistas estimam que aproximadamente 200 milhões de cabeças sejam perdidas.

Para se ter uma ideia do tamanho do mercado chinês, as estimativas dão conta de que ele, sozinho, represente quase o mesmo volume de carne suína produzida em toda a União Europeia. Portanto, a retração no país asiático impacta diretamente as nações produtoras de commodities – o Brasil entre elas.

Dependência

“Isso mostra o quanto Goiás não pode ficar dependente de um só mercado. Além disso, tem de fortalecer sua indústria de transformação”, diz o secretário de Desenvolvimento e Inovação de Goiás, Adriano da Rocha Lima.

O governo chinês, por sua vez, trabalha na recomposição do rebanho, mas a reposição levará tempo, até pelas dimensões do problema. “A produção de suínos na China é basicamente familiar, quase dentro de casa. O governo, agora, vai incentivar a produção com as exigências sanitárias similares às do resto do mundo, o que vai melhorar a qualidade, porém, de forma mais lenta, pois haverá agora uma série de regras”, avalia o superintendente de Comércio Exterior da Sedi, Edival Lourenço Júnior, que trabalhou por oito anos naquele país.

Mesmo com o incentivo governamental, levará tempo para que a compras retornem os níveis anteriores. “Quando se descartam 52% de um rebanho, leva-se tempo para se recompor. Esse rebanho, para ter o mesmo consumo de soja do ano passado, vai demorar”, diz Everton Correia.

O superintendente enxerga, nesse contexto, uma oportunidade de negócios para produtores goianos. “Cabe a nós aproveitar o potencial de consumo que a China tem para vencer a carne [suína] para a China, como está acontecendo com aves e outras proteínas”, avalia.

A China é, hoje, o maior parceiro comercial de Goiás, mesmo com a redução no valor das importações de produtos goianos. Em 2018, de janeiro a agosto, os asiáticos compraram 1,9 bilhão de dólares do Estado. Este ano, o valou caiu para 1,5 bilhão de dólares. Por outro lado, os chineses ocupam o segundo lugar nas importações, com 238 milhões de dólares.

A queda nas compras chinesas de soja goiana, contudo, não é motivo de alarde, de acordo com o subsecretário de Assuntos Metropolitanos, Cidades, Infraestrutura e Comércio Exterior do governo de Goiás. “A soja não vai apenas para o mercado externo. Ela pode ser direcionada para o mercado de extração de óleo, biodiesel. Essa soja não foi perdida, está sendo processada aqui. Isso não está causando prejuízo à geração de renda e emprego”, diz Everton Correia.

Alerta

Pedro Arantes, do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás, diz que alguns fatores contribuíram para que a retração do mercado chinês não atingisse tão fortemente os produtores goianos. Entre eles, os estoques baixos, relacionados ao forte crescimento nas vendas em 2018 e à diminuição na produção na última safra. “A situação só não está pior porque ano passado ficamos praticamente sem estoque. Mas os produtores começam a ficar no vermelho”, diz.

Contudo, a flutuação do mercado acende um alerta aos agricultores. “Caso os Estados Unidos e a China encerrem a guerra comercial entre eles, certamente os americanos exportarão muita soja para os chineses”, afirma.

Segundo Arantes, os chineses compram apenas a soja em grãos, que lá são transformados em farelo e óleo. Em 2018, segundo ele, foram exportadas 5,5 milhões de toneladas de soja. Esse ano, apenas 3,5 milhões. De tudo que é colhido em Goiás, explica, 75% vai para outros países. “O mercado interno também não está bom”, lamenta.

Outros produtos

Apesar do peso do complexo soja, outros produtos também impactaram negativamente as exportações goianas. Este ano, houve queda nas vendas para o mercado exterior de carnes em geral (-2,52%), couros e derivados (-30,3%), algodão (-69,6%) e produtos farmacêuticos (-3,3%). Esse movimento acabou impactando o resultado da balança comercial. No ano passado, de janeiro a agosto, o saldo foi de 2,9 bilhões de dólares. Neste ano, foi de 2 bilhões de dólares, uma queda de 17%.

Para governo, perdas podem ser zeradas até o final do ano

Everton Correia, subsecretário de Comércio Exterior: “O mercado goiano é diversificado” | Foto: Edinan Ferreira /Sedi

Para o subsecretário de Assuntos Metropolitanos, Cidades, Infraestrutura, e Comércio Exterior, Everton Correia, é possível que as perdas nas exportações sejam zeradas até dezembro. Isso se dá, segundo ele, por causa da diversificação da pauta de produtos goianos. “Mesmo com a queda da soja, que não vai se recuperar tão cedo – apesar de o setor privado continuar buscando novos mercados –, a economia goiana vai se recuperar até o final do ano, sim”, afirma.

O otimismo de Correia é motivado pelo bom comportamento de alguns produtos da pauta de exportações goianas. O complexo milho, por exemplo, teve um salto de 217%, com vendas passando de 97 milhões de dólares para 305 milhões de dólares. Também teve desempenho positivo as vendas de ouro, que subiram de 179,3 milhões de dólares para 283,8 milhões de dólares.

Mesmo produtos que normalmente não têm peso no comércio exterior goiano mostraram dinamismo surpreendente. É o caso do café, por exemplo, que vendeu 2.646% mais este ano. De um valor de apenas 88,8 mil dólares para 2,4 milhões de dólares.  

Correia ressalta, ainda, que Goiás tem várias regiões exportadoras. “A soja é o principal produto, mas outros cresceram muito e seguraram essa queda”, avalia Correia. Em agosto, por exemplo, o principal produto vendido para o exterior foi o complexo milho.

Essa movimentação também alterou o ranking dos maiores compradores de Goiás. Ainda que a China ainda lidere o ranking, países que não estavam no top 10 entraram esse ano, como a Itália e a Rússia. “Temos presença em todos os continentes, o que é extremamente positivo”, diz o subsecretário.

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