Sob olhares desconfiados, geração digital desafia sociedade a se reinventar

No centro dos conflitos com seus pais e avós, juventude que nasceu na era dos smartphones e tablets tem alterado todos os conceitos éticos, linguísticos e sociais conhecidos antes da chegada deles ao mundo, a partir dos anos 1990

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz

Toda novidade vem acompanhada de grande preconceito, principalmente de quem está acostumado a ver o mundo como ele deveria ser. Quando a escrita surgiu, por volta de 3.500 antes de Cristo (a.C.), a vida passou da sua primeira era, a da oralidade, para a segunda etapa humana. Talvez a terceira época da humanidade seja a da tecnologia, com a rapidez e o desenvolvimento do mundo digital, que se popularizou a partir do final da década de 1980 e se consolidou como tendência na década de 1990.

Veio da geração X, considerada aquela nascida entre 1965, e 1983, que vivenciou a popularização da televisão, o termo que define a juventude do início do século 21. Com um controle remoto na mão, a pessoa se sentava ou se jogava no sofá depois do trabalho ou escola e passava a zapear, mudava incessantemente, de canal na TV. O termo zapear deu origem ao nome da geração nascida a partir de 1991, o que ainda gera muitas discussões sobre seu ano de início, a Z.

A geração Z, e muitas vezes também a geração Y – dos nascidos entre 1984 e 1990 –, são classificadas como millennials ou smartphone. Em alguns casos, apenas os nascidos a partir de 1990 ou 1995 são considerados millennials ou nativos digitais. Já outras definições incluem os Y, que viveram a transição do mundo da televisão para a era da tecnologia, juntamente com aqueles que têm hoje no máximo 26 anos, entre os nativos digitais.

Essas classificações começaram com a geração nascida no pós-Segunda Guerra Mundial, os baby boomers, que nasceram entre 1951 e 1964. Dos trabalhadores dedicados à carreira, a segunda geração categorizada pelos estudiosos incluiu os happy hours no final do expediente. Já na quarta geração, a chamada Z, a relação entre chefes e subordinados tende a ser mais cooperativa em uma empresa, mesmo que esses supervisores e superiores sejam X ou baby boomers.

Pense em um mundo em que a mulher começou a votar no Brasil no ano de 1933 e que o sexo feminino intensificou sua participação no mercado de trabalho a partir da década de 1970 no País. Agora imagine uma realidade em que os filhos nasceram com seus pais menos tempo em casa e mais na rua do que na convivência com eles, e que as principais discussões são de inclusão e direitos civis iguais às minorias étnicas e de gênero. E nesse contexto que estão inseridos os nascidos a partir de 1984, como imigrantes digitais.

A geração da segunda metade dos anos 1980 em diante viu o vinil e a fita cassete perderem espaço no mercado para o CD, assim como o VHS, aquele que era alugado para se ver um filme ou uma série de TV, migrou para a tecnologia do DVD e do Blu-Ray, digitais e de melhor qualidade no som e imagem. Esses filhos de três décadas atrás acompanharam o orelhão perder espaço para o telefone fixo residencial. Depois vivenciaram a troca do aparelho em casa pelo móvel, o celular.

Em 2017, o telefone público quase não existe mais – é difícil achar um desses sobreviventes da mudança tecnológica e comportamental das comunicações nas ruas. E até os baby boomers hoje têm o aplicativo WhatsApp em seus smartphones e reduzem a quantidade de ligações que fazer aos parentes e amigos em outras cidades e estados por mensagens de texto trocadas pela internet. Mesmo seus avós compartilham memes com conhecidos pelo celular. Inclusive aqueles antigos e-mails correntes, com conteúdo inspiracional de auto-ajuda, que agora viraram os conhecidos vídeos com musiquinha e frases motivacionais no aplicativo de mensagens.

Geração selfie

Se até o início dos anos 2000 era preciso revelar o rolo do filme de uma máquina fotográfica e ampliar os negativos para que alguém pudesse ver as fotografias que tirava, hoje basta olhar no visor do celular se a selfie ficou boa. Em seguida é só mandar como mensagem no grupo de WhatsApp, no Messenger do Facebook ou no inbox do Instagram e postar nas redes sociais para que seus seguidores e amigos curtam, comentem e compartilhem.

Ao mesmo tempo, essa geração formada por recém-chegados ao mercado de trabalho começou a ser tratada como impaciente, pouco focada, distraída, viciada em smartphone e internet, com dificuldade de aproximação e convívio. Isso é de fato uma real análise dos mais novos ou parte do preconceito pautado no conflito de gerações em que o que é novidade, inclusive no comportamento, é tratado como um acúmulo de estranhamentos sem fim dos mais velhos?

O natural é descrever aquilo que é desconhecido com olhar duvidoso e rechear o discurso com clichês na hora da definição. A professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Maristela Rossato, que é doutora em Educação pela UnB, trata a relação das gerações Y e Z com a tecnologia no texto “A aprendizagem dos nativos digitais” como uma modificação no processo do mundo como as gerações anteriores o conhecem.

“O uso das ferramentas e instrumentos tecnológicos transforma a cultura e, ao mesmo tempo, interfere nos processos humanos.” A publicação, que faz parte do livro “O Sujeito que Aprende – Diálogo entre a psicanálise e o enfoque histórico-cultural” (Liber Livro, 2014), mostra o quanto é complicado rotular toda uma geração com descrições e características generalizadoras e engessadas, já que cada indivíduo tem diferentes níveis de formação e contato na juventude (dos 15 aos 29 anos) com a tecnologia e a informação. De qualquer forma, Maristela começa a discorrer sobre o tema com a definição de que não há mais a distinção entre uma identidade virtual e uma identidade real para a nova geração.

Os dois conceitos se fundem e são inseridos na visão global de mundo. Se antes eram, por exemplo, os pais ou os avós os responsáveis pelo filho saber determinada receita, hoje bastam poucos clique em uma ferramenta de busca na internet para encontrar o prato que se quer comer, com diferentes formas de preparo e vídeos explicativos do passo a passo na cozinha. Na palestra “Y, Z, Millennials… A polêmica de uma geração e o que podemos aprender com ela”, Tatiana Garcia, socióloga e técnica em informática pela Unicamp, lembra que hoje é impensável que um jovem queira gastar duas horas de sua vida em uma fila de restaurante no dia das mães. É mais interessante fazer o próprio almoço ou jantar comemorativo em casa, sem espera ou senha para conseguir uma mesa, e com um preço mais acessível.

Reprodução

Conhecidos como as pessoas que mexem no celular, assistem televisão e ouvem música ao mesmo tempo, os millennials, nativos digitais, Z e até os imigrantes digitais, chamados de Y, lidam de uma forma diferente com a informação e a capacidade de absorção e compreensão desse conteúdo ao qual são expostos. É claro que tudo depende de qual tipo de fonte a pessoa tem contato para buscar essa formação.

Para a psicanalista Marcella Haick Mallard, essa mudança nas relações subjetivas e intrassubjetivas já era percebida na geração X ao entrar em contato com a informação e conteúdo transmitidos pela tela da televisão. “A nova geração passa por uma transformação na relação familiar, ética e social pelo contato e inserção dos aparelhos digitais em sua vida diária.”

Marcella observa que é normal verificar essas mudanças, e que elas não necessariamente implicam em uma alteração negativa do cotidiano. “Toda transição, como a que estamos vivendo, implica na construção de uma linguagem diferente”, explica. Alguns sinais dessa nova geração já são notados pela psicanalista em seu consultório: “Essa geração é mais rápida, extremamente criativa e desejosa de criar”.

Mas uma das características percebidas por Marcella é a que talvez seja a mais positiva e transformadora da geração dos nativos digitais: a experiência colaborativa. “Acontecem casos de isolamento e individualismo, mas os jovens têm usado mais a tecnologia para gerar o encontro de ideias e tolerância às diferenças”, descreve a psicanalista.

Os problemas gerados por doenças como a postura inadequada no uso de smartphones e o contato excessivo com a luminosidade das telas desses aparelhos acabam por ser destacados como as intervenções principais da tecnologia na vida dos jovens. E isso inclui os que nasceram em meio à era digital ou aqueles que acompanharam a evolução da comunicação pela internet discada até a banda larga. “Há registro de patologias, como as fobias e o atraso do desenvolvimento cognitivo em alguns casos, mas ainda estamos em uma fase de transição na qual não podemos precisar que rumo tomaremos”, afirma.

O momento de não saber explicar exatamente o uso da internet e da tecnologia manuseada para obter informação e se relacionar com outras pessoas coloca a tentativa de definir ou apontar melhoras ou pioras da nova geração como imprecisas. Marcella cita o exemplo dos hippies, no final dos anos 1960 e início da década de 1970, que pregavam o amor e a paz.

Aquela luta, quase quatro décadas depois, rendeu o reconhecimento do primeiro casamento homoafetivo nos Estados Unidos em 2015. “Mas essa união se deu no modelo cartorial, o mesmo de sempre. Há o avanço, mas dentro dos moldes antigos.” Nem sempre as quebras de paradigma estão dissociadas das bases de formação desse jovem, que continuam a acontecer com a família, por mais que ele tenha acesso ao mundo a um clique na tela do celular ou tablet.

Apesar de estarmos na era da tecnologia, ainda há setores da sociedade que têm um acesso restrito a essa geração digital. E cada pessoa utiliza o conhecimento oferecido de forma anárquica pela internet, livre e sem controle, de uma maneira. Nem sempre a liberdade e o contato com o mundo virtual resultam em desenvolvimento pessoal.

Na outra ponta está a educação, que tem dificuldades em acompanhar o ritmo acelerado e recheado de informação visual bem elaborada da nova geração. Maristela Rossato descreve que o maior desafio não é de quem pertence aos millennials, Y, Z ou até da próxima geração a ser analisada, que já começa a ser chamada de Alfa – as crianças de hoje, que já nascem com os tablets e smartphones nas mãos –, mas sim dos imigrantes digitais, vindos da gerações baby boomers e X, de “desenvolver novas formas de compreensão e de usos sociais da Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs)”. Para a professora da UnB, os pais e avós desses jovens têm de conhecer e aprender a conviver com os nativos da era digital, que estão inseridos em um contexto social muito mais complexo.

Professora Maristela Rossato (UnB) diz que os imigrantes digitais precisarão reaprender a lidar com o mundo

Como o entendimento tende a ser o de que não existe crise da nova geração, mas um conflito natural entre gerações, como sempre existiu na negação do comportamento anterior pelos mais novos, até o mercado de trabalho tenta se adaptar a essa nova experiência. “Antes as empresas tinham que tentar baixar a bola do jovem que chegava ao mercado querendo dominar o mundo. Era preciso adequar aquele novo empregado à realidade do local de trabalho. Hoje em dia as empresas é que precisam acompanhar a velocidade do novo trabalhador para conseguir aproveitar essa capacidade produtiva da nova geração”, descreve Marcella.

A psicanalista não analisa como ruim, mas como sendo diferente a relação que os recém-chegados ao mercado de trabalho têm com suas carreiras. “Antes se preocupava muito mais com a estabilidade, em fixar-se na empresa por muito tempo. Hoje o jovem não é infiel, mas é um profissional que busca diferentes experiências na vida.”

Mas essa não é uma exclusividade da geração Z, millennials ou smartphone. Ela cita o caso de uma incorporadora que pretendia lançar um empreendimento para a terceira idade. “Uma pessoa de 70 anos foi convidada por uma empresa para testar a construção de um local de convivência para idosos, mas houve negação a esse conceito pelo fato de ninguém gostar de segregação.”

A geração X, em determinado ponto, viu que estava abrindo mão do nascimento da filha, da formatura do amigo, para se dedicar a uma carreira de sucesso, e começou a procurar distribuir o tempo entre a vida pessoal e a profissional. A nova geração, tratada como a que se nega a padrões estabelecidos e formalidades profissionais, tende a criar uma relação muito mais colaborativa no local de trabalho, que pode ser virtual via home office, do que necessariamente hierárquica.

Marcella cita uma discussão de ideias que presenciou entre dois garotos de 11 anos na última semana. “Eles conversavam sobre o que fariam para melhorar o País se cada um fosse presidente da República. Claramente vieram de formações ideológicas diferentes e discordaram em diversos pontos, mas com uma capacidade de respeito à posição do outro impressionante.” Ela diz não acreditar no fim dos radicalismos e polarizações, como verificamos em todo o mundo. “Estamos em um momento de grande furo de referencial de autoridade. Mas os jovens estão se aliando mais do ponto de vista global”, observa.

Problemas

Para Marcella, a relação do jovem com a violência hoje é sintomática. “Isso aparece mais forte neles. Ainda mais em uma realidade de filhos mais protegidos pelos pais.” Considerado um problema atual grave, ainda mais com Goiás na 7ª posição do Mapa da Violência 2016, que tem como base informações até 2014, com 31,2 assassinatos por arma de fogo a cada 100 mil habitantes, as crianças não escapam do reflexo dessa realidade. “Os jovens têm que se adaptar a esse cenário, seja com a superproteção dos pais e imposição de limites ou com a convivência da situação”, diz.

Quando considerada a taxa de homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos, Goiás figura na 6ª posição, com 77,5 assassinatos a cada 100 mil habitantes. E é nessa realidade que, tanto jovens como adultos, precisam se inserir em sociedade e viver. “Há o registo de alguns casos de fobias, mas que não podem ser considerados como específicos dessa nova geração.”

Já quando o assunto é a criação que os pais têm dado para seus filhos e o abuso do tempo de uso de smartphones e tablets nos primeiros anos de vida das crianças, Marcella se mostra mais preocupada. “É possível notar um excesso de diagnóstico de casos de autismo causados pela falta de outra atividade que não seja o tablet.” A psicanalista cita o caso de um bebê de um ano que foi atendido com suspeita de autismo. Na entrevista com os pais, a rotina descrita da criança foi de uso de tecnologia em exagero, sem desenvolvimento de qualquer outra atividade, o que gerou dificuldade no início da fala. “Isso tende a ser questão de saúde pública”, alerta.

“É preciso ter um limite no uso das novas tecnologias. Tudo tem que ter limite.” Marcella se mostra preocupada com a criação de filhos que ficam o tempo todo na frente de um tablet ou smartphone e não são incentivados a realizar outros tipos de atividades cognitivas ou motoras.

O que pode ser o preconceito ou medo das mudanças trazidas pela nova geração às relações humanas tem muito a ver com o conflito de condições de entendimento da sociedade entre nativos de diferentes décadas. Mesmo com os avanços, é preciso que sempre se observe os excessos, como orienta Marcella. Talvez a geração Alfa consiga explicar melhor, com o devido distanciamento de tempo, o que de fato aconteceu com o mundo que conhecemos até aqui nas primeiras décadas do século 21, quando as gerações Y e principalmente a Z influenciaram esse novo tratado social.

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