Sífilis cresce sete vezes em Goiás

Infecção sexualmente transmissível tem cura simples e barata, mas médicos classificam seu crescimento como epidemia

Gravura da cabeça de uma mulher desfigurada pela sífilis. Viena, 28 de agosto de 1796. | Foto: Wellcome Collection / Domínio Público

O dermatologista Antônio Macedo tem recebido nos últimos anos um número crescente de pacientes se queixando de manchas na pele que não coçam, perda de cabelo, lesões nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. Muitas pessoas o procuram pensando que irão tratar uma micose ou alergia, mas ficam surpresas ao descobrir que, na verdade, estão infectadas com a bactéria Treponema pallidum, causadora da sífilis.

Alarmado pelo crescimento da doença, o médico adotou como protocolo o exame sorológico da sífilis mesmo em pacientes sem queixas. Ocorre que a sífilis tem três estágios, com períodos assintomáticos entre si, e as pessoas que procuram Antônio Macedo por conta das lesões estão no segundo estágio. O dermatologista passou então a encontrar muitos infectados que se consideravam saudáveis e que podiam disseminar a doença desavisadamente.

Sinais


A sífilis começa com uma ferida no ponto onde a bactéria entrou no corpo. Em homens, é evidente quando ocorre na genitália, mas a marca pode ficar escondida dentro da vagina, garganta ou ânus. O ferimento some sozinho após cerca de duas semanas e o doente se dá por satisfeito, mas, na realidade, o quadro apenas avançou para um período de latência. Se chegar ao terceiro estágio, compromete grandes vasos com aneurismas, além de causar danos no sistema nervoso, olhos, articulações e ossos.

Em grávidas, a bactéria causa pode causar a sífilis congênita. Christiane Kobal, presidente da Sociedade Goiana de Infectologia, classificou a condição como desastrosa. “Causa abortos, alterações anatômicas e funcionais no bebê, problemas cérebro, nos olhos, nos ossos, e complicações que levam à morte”, enumera. A doença, entretanto, tem um tratamento muito simples, barato e eficiente: a penicilina, o primeiro antibiótico do mundo, cura praticamente 100% dos casos.

Segundo a infectologista Christiane Kobal, é normal que pacientes descubram a sífilis buscando tratamento para outras doenças | Foto: Fábio Costa

Epidemia silenciosa

O último Boletim Epidemiológico da Sífilis, feito pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES), mostra que nove anos atrás, 14 pessoas a cada 100 mil tinham a doença; hoje, são cerca de 98 a cada 100 mil. De 2016 para 2017, houve um aumento de 33% nos casos de sífilis em gestantes e 31% nos casos de sífilis adquirida. De 2007 a 2016, foram 23 óbitos de crianças por sífilis congênita.

Se a cura é tão simples, por que uma doença medieval cresce tanto no Brasil e em Goiás? A última edição da Pense (Pesquisa Nacional de Saúde Escolar), publicada pelo IBGE, revelou que um terço de jovens entre 13 e 17 anos não usaram preservativo em sua última relação sexual, o que representou uma queda de nove pontos percentuais em três anos. Os médicos entrevistados atribuíram esse descuido à perda do medo do HIV. Como o tratamento tem sido eficaz, os jovens têm menos notícias da doença que assombrou os anos 1980.

Entretanto, a explosão da doença não pode ser explicada apenas por isso. Primeiro, Christiane Kobal explicou que a sífilis é de facílima transmissão e não escolhe um perfil – cresce em todas as etnias e faixas etárias, tendo mais que dobrado entre pessoas de 50 a 59 anos, que nos últimos anos passaram a ter uma vida sexual mais ativa com auxílio de remédios para disfunção erétil. Antônio Macedo aponta um problema ainda mais grave: a falta de penicilina benzatina (Benzetacil).

Antes da penicilina, a sífilis era tratada com mercúrio.
| Foto: Gravura de Jan van der Straet / Domínio Público

Falta penicilina

Sobre o tratamento, Antônio Macedo afirmou: “A penicilina é muito efetiva. Quando foi descoberta, pensaram que a sífilis ia ser erradicada. Mas hoje a gente quase não encontra no mercado; quando eu prescrevo tenho de ligar para as clínicas procurando uma que tenha.” A penicilina, o primeiro antibiótico do mundo, já tem sua patente expirada e não é comercialmente atrativa.

Segundo reportagem da Aljazeera, “Why is the world suffering from a penicillin shortage?”, o problema é global. Pelo menos dezoito países sofrem de falta do medicamento, incluindo Estados Unidos, Canadá, Portugal e França. A indústria farmacêutica, de forma geral, direciona seus esforços para a descoberta de novas moléculas que gerem lucros maiores do que os 2,75 dólares médios cobrados pela dose de benzetacil.

O Ministério da Saúde (MS) informou que voltou a produzir o medicamento em laboratórios públicos e privados, como a Fundação para o Remédio Popular (FURP), Teuto, Eurofarma e Blau. Por nota, a assessoria do Ministério afirmou: “Até 2016, os medicamentos utilizados no tratamento de sífilis tinham seu financiamento, aquisição e distribuição sob responsabilidade de estados e municípios. Em 2017, essa aquisição passou a ser de responsabilidade do MS”.

Hoje, segundo o MS, a produção é normal e atende a todas as demandas do país. Segundo a SES, “o Ministério da Saúde tem sinalizado que as aquisições estão sendo realizadas e que a primeira distribuição para o ano de 2019 será realizada em meados do mês de março”. O boletim epidemiológico com dados após a mudança de jurisdição será publicado em outubro.

História

A origem da sífilis é incerta. A comunidade científica se divide em duas. Há apoiadores da tese de que a doença se originou na Europa, milênios atrás, passando por mutações que a deixaram mais contagiosa. Outra linha, mais recente, surgiu com a análise genética de 26 exemplares de Treponema pallidum, que indicou que a bactéria europeia tem parentesco com as bactérias do novo mundo.

A possibilidade é de que a doença tenha sido trazida da América por Cristóvão Colombo e seus colegas exploradores. A primeira epidemia da doença ocorreu na Europa em 1495, três anos após o retorno da expedição do conquistador italiano. O estudo, publicado no periódico científico Public Library of Science – Neglected Tropical Diseases, não é conclusivo e a causa da morte de Colombo está longe de ser um consenso.

Porém, sabemos que várias figuras históricas morreram pela sífilis e que muitas outras foram vítimas da doença em segredo, escondendo a aflição pelo estigma social associado a ela. Em 1928, a penicilina foi descoberta por Alexander Fleming e começou a ser usada para tratamento em 1942. Desde então, o número de mortes caiu muito, mas a doença não foi erradicada, como se imaginou que seria.

O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), entre outras infecções sexualmente transmissíveis, contraiu a sífilis em prostíbulos na França.

Guy de Maupassant, 1888 | Foto: Felix Nadar / Domínio Público

Guy de Maupassant (1893-1850) é o escritor francês tido como inventor do conto moderno. Segundo a matéria da BBC Remembering Maupassant (relembrando Maupassant) o escritor possivelmente foi vítima de sífilis congênita, tendo passado os últimos anos de sua vida em um sanatório.

Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) foi pintor e ilustrador francês, e um boêmio inveterado. O alcoolismo e o cotidiano nos bordéis parisienses foram retratados em sua obra, bem como vividos pelo artista, que morreu aos 36 anos.

Al Capone, 1930 | Foto: Domínio Público


O mafioso ítalo-americano Al Capone (1899-1941), pouco após ser sentenciado a 11 anos de prisão em presídio federal, começou a sofrer de demência causada pelo terceiro estágio da sífilis.

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