Sergey Akopov: “Torcedores que vão à Rússia verão com seus próprios olhos como está o país”

Embaixador russo no Brasil fala com exclusividade ao Jornal Opção sobre Copa do Mundo e política internacional

Embaixador da Rússia no Brasil, Sergey Akopov | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcelo Mariano
Em Brasília

Na iminência de sediar uma Copa do Mundo, é natural que as atenções se voltem à Rússia. Falando um português invejável, o embaixador do país no Brasil, Sergey Pogóssovitch Akopov, concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Opção na sede da embaixada em Brasília. Torcedor do Spartak Moscou, Akopov já estaria satisfeito caso a seleção russa passasse da fase de grupos.

Mas a conversa não foi só sobre futebol. A suposta interferência russa nas eleições dos Estados Unidos, o comércio bilateral entre Brasil e Rússia e as perspectivas do Brics foram outros assuntos abordados. “Quando escuto esta propaganda antirussa de que a Rússia interferiu nas eleições dá até orgulho sentir que temos o poder de eleger o presidente dos Estados Unidos”, ironiza o diplomata.

Akopov chegou ao Brasil pela primeira vez em 1983. Ao todo, foram três missões e 17 anos em terras brasileiras. Formado em Relações Internacionais, o embaixador serviu também nas representações diplomáticas da Rússia na Costa Rica e no Chile.

O sr. está no Brasil há quanto tempo?
Esta é a minha terceira missão no Brasil. Somando todas, são 17 anos. Desta última vez, são oito anos.

O sr. já falava português antes de chegar ao Brasil?
Não. Aprendi espanhol na universidade e, chegando ao Brasil, em 1983, comecei a aprender português.

O que o sr. estudou na universidade?
Relações Internacionais.

Vamos falar um pouco sobre Copa do Mundo. O sr. gosta de futebol?
Não posso dizer que sou um fanático por futebol, mas gosto, como todos.

Para qual time o sr. torce na Rússia?
Para o Spartak Moscou.

No Brasil, o sr. tem alguma preferência?
Francamente, não tenho. Diria que é a seleção brasileira.

Sendo bem realista, até onde o sr. acha que a seleção russa pode chegar na Copa do Mundo?
Acho que a grande tarefa da seleção russa deve ser passar da fase de grupos. Se conseguirmos classificar, já poderíamos considerar um êxito, uma missão cumprida.

Mas a final ideal, para o sr., seria Brasil e Rússia?
Sim, claro.

Então o sr. vai torcer para o Brasil como segunda opção?
Exatamente. Não posso falar por todos, mas sinto que há uma tendência entre os russos de que muitos vão torcer pelo Brasil.

O que um brasileiro que vai à Rússia durante a Copa do Mundo pode esperar do país?
Diria que um grande carinho com os brasileiros e todos os torcedores de outros países. Acho que o clima na Rússia é de uma grande festa esportiva internacional. Talvez a mais popular que exista hoje. Talvez a Copa do Mundo seja mais popular que as Olimpíadas. Esperamos que seja um grande acontecimento, não só esportivo, mas também cultural e de amizade.

A Rússia já está preparada para a Copa do Mundo? As obras de infraestrutura e os estádios já estão todos prontos?
Sim, sim. Tudo já está pronto. Talvez alguns detalhes ainda faltem, mas os estádios e toda a infraestrutura já estão prontos.

Qual será o legado que a Copa do Mundo deixará para a Rússia?
Em primeiro lugar, o desenvolvimento econômico que a realização da Copa do Mundo está dando para a Rússia. A infraestrutura das 11 cidades-sede foi renovada. Muitos aeroportos, portos e ferrovias foram reconstruídos e modernizados e ficaram com um aspecto muito bonito. Tudo isso vai ficar para o povo. Esse legado vai ser muito importante. Além disso, a Copa do Mundo está criando um interesse entre as crianças. Acho que vai dar um grande impulso para o desenvolvimento do futebol.

Para voltar aos velhos tempos da União Soviética no futebol?
Sim [risos]. Espero que assim seja.

Recentemente, alguns países, como Reino Unido e Islândia, anunciaram um boicote diplomático à Copa do Mundo por causa de questões políticas. O sr. acha que isso pode prejudicar o evento de alguma maneira?
Acho que não vai prejudicar em nenhum grau. Mas é a escolha deles. Se não querem vir, que não venham.

Há quem acredite que exista russofobia no Ocidente, ou seja, aversão a tudo que vem da Rússia. Isso se tornou cada vez mais presente desde as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 2016. A Copa do Mundo pode ajudar a melhorar a imagem tanto da Rússia quanto do presidente Vladimir Putin?
Pessoalmente, não estou sentindo nenhum tipo de russofobia no Brasil. Na verdade, sinto uma grande simpatia de todas as diferentes camadas da sociedade brasileira em relação à Rússia. E esse sentimento é recíproco. Em outros lugares do mundo, realmente podemos lamentar que as autoridades estão, sim, criando esse clima de russofobia. É algo absolutamente sem sentido. É uma coisa política. Os torcedores que vão à Rússia verão com seus próprios olhos como está o país e poderão tirar as suas próprias conclusões.

“Criaram este conto da influência russa para uso interno nos Estados Unidos”

Para Akopov, não há prova de que a Rússia interferiu na eleição de Donald Trump | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Nas eleições dos Estados Unidos, um dos grandes debates foi, e ainda é, a suposta intervenção russa. Neste ano, o Brasil passa por eleições. O sr. acredita que este assunto também possa fazer parte do debate político brasileiro?
Quando escuto esta propaganda antirrussa de que a Rússia interferiu nas eleições dá até orgulho sentir que temos o poder de eleger o presidente dos Estados Unidos. Meu Deus do céu! Se fosse assim, acho que a Rússia seria o país mais importante do mundo. Mas falando sério, não tem nada por trás disso. É política. Criaram este conto da influência russa para uso interno nos Estados Unidos. Até agora não vimos nenhuma prova concreta de que isso foi realizado. Estão comentando sobre alguma empresa russa da área de culinária da qual seis pessoas teriam trabalhando para influenciar as eleições. Isso é ridículo.

Uma coisa importante é que, nos Estados Unidos e no Reino Unido, foi descoberta uma empresa, a Cambridge Analytica [agência responsável pela campanha de Donald Trump], que coletava informações do Facebook de milhões e milhões de pessoas. E essa empresa nada tem a ver com a Rússia. Sobre o Brasil, por que a Rússia iria influir ou fazer alguma coisa nas eleições brasileiras? Não faz nenhum sentido.

Brasil e Rússia fazem parte do Brics [acrônimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Na semana passada, ocorreu o Fórum Econômico de São Petersburgo, que marcou a ascensão da África do Sul à presidência do grupo. Mas nenhum representante brasileiro se fez presente. O Brasil está se distanciando do Brics?
Não usaria este fato de que o Brasil, a nível oficial, não participou do Fórum Econômico de São Petersburgo como uma prova de que o país esteja se afastando do Brics. Pelo contrário, até onde eu sei, o Brasil está participando ativamente de todas as reuniões sobre os futuros acontecimentos do Brics. Não sentimos nenhum afastamento.

Com o Banco dos Brics cada vez mais forte, qual é a perspectiva de futuro para o grupo? O Brics veio mesmo para ficar?
Sim. O Brasil era um dos países que menos recebia atenção do banco, mas isso foi algo absolutamente técnico. Na última semana, chegaram notícias de que foi assinado um protocolo entre o Brasil e o Novo Banco de Desenvolvimento para receber mais recursos a fim de desenvolver projetos de infraestrutura.

Uma recente matéria da agência russa Sputnik Brasil revelou alguns produtos que devem entrar na pauta comercial entre Brasil e Rússia, como pescados, trigo, frutas tropicais, gelatina, laticínios, ovo em pó, entre outros. Como o sr. analisa estas possibilidades?
Sim, é verdade. Temos trabalhado muito nos últimos anos para abrir cada vez mais os mercados brasileiro e russo. E o que foi mencionado realmente são novos produtos que vão entrar na pauta do comércio bilateral entre Brasil e Rússia. Principalmente trigo e pescado, falando especificamente das exportações russas.

Goiás é um grande parceiro da Rússia. O sr. acha que esta parceria pode servir de vitrine como exemplo de sucesso para outros Estados brasileiros?
Sem dúvida. Temos tido um desenvolvimento muito bom das relações de cooperação entre o Estado de Goiás e regiões da Rússia. Eu até gostaria que fosse mais. Estamos trabalhando em projetos industriais muito importantes porque o nosso objetivo é não somente nos contentar com troca de mercadoria, mas também chegar a uma aliança tecnológica. A construção de ferrovias, por exemplo, é algo que sei que já foi debatido. Cooperação na área de altas tecnologias e criação de joint ventures [empreendimentos em conjunto]. São coisas neste sentido que achamos que devemos fazer grandes esforços.

A Rússia é pioneira na extração de petróleo de alta profundidade. No futuro, pode ocorrer cooperação para ajudar o Brasil na exploração do pré-sal?
A Rússia ainda tem pouca experiência na exploração de petróleo e gás offshore [em alto mar]. Por isso, não estamos participando da exploração destas áreas brasileiras. Mas, no onshore [no continente], a Rússia tem muita experiência e as nossas empresas já estão trabalhando. Por exemplo, a Rosnieft, grande empresa estatal russa, já atua no Estado do Amazonas. Ela tem um projeto muito importante na região do Rio Solimões, onde está sendo realizado um trabalho de prospecção. Foi encontrado muito gás na Amazônia. Por problemas ecológicos, a extração é complicada. Mas estão trabalhando e não desistem. Acho que daqui a pouco vão começar a explorar comercialmente este gás junto com outras empresas brasileiras de forma que não agrida o meio ambiente.

“Espero ver o Brasil entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU”

Embaixador da Rússia no Brasil diz que a candidatura brasileira é uma das mais fortes para obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A Rússia é membro do Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas] e um dos grandes pleitos da política externa brasileira é assegurar uma cadeira permanente ao Brasil no conselho. A Rússia apoiaria?
Sim, a Rússia apoiaria. Isso já foi dito anteriormente e nós confirmamos esta posição ao governo brasileiro há pouco tempo. A Rússia enxerga a candidatura do Brasil como uma das mais fortes para obter uma cadeira permanente, caso a comunidade internacional chegue a um acordo de reforma do conselho. Com o tempo, espero ver o Brasil entre os membros permanentes.

Quando Vladimir Putin vem ao Brasil?
O presidente Michel Temer visitou oficialmente a Rússia e já fez o convite. Em 2019, podemos dizer que, sem dúvida, ele estará no Brasil, já que o país será sede da cúpula dos Brics. E ele certamente não vai visitar o Brasil somente para participar da cúpula, mas também vai aproveitar para realizar uma visita bilateral.

O veículo de comunicação russo RT tem projeto de abrir uma sucursal no Brasil com transmissão em português?
Sim, claro. Este projeto existe já faz algum tempo. A RT está tentando criar sucursais em diferentes idiomas. Já há em inglês, francês, árabe, espanhol e alemão. Financeiramente, a RT não chegou nas condições de criar uma sucursal em português, mas sei muito bem que está nos planos. Eles estão trabalhando nisso.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.