Selic a 3% conserta o País. Mas será possível?

Um dos maiores empresários goianos, José Alves Filho alerta: “O juro alto está castigando os brasileiros” 

Empresário José Alves Filho: “Precisamos fazer a reforma monetária” | Foto: Reprodução

Cezar Santos

Na semana passada, em uma solenidade no Câmara de Verea­do­res de Goiânia, o em­presário José Alves fez um duro dis­curso contra a política e­conô­mi­ca do governo federal que insiste em manter altos juros que castigam os brasileiros em geral, e, em particular, o empresariado, que se vê tolhido em sua capacidade de produzir e consequentemente, gerar empregos.
Sem desconsiderar a necessidade de fazer as reformas estruturais — o que o governo de Michel Temer, mesmo com todas as dificuldades, vem fazendo, diferentemente dos antecessores Lula da Silva e Dilma Rousseff, que não quiserem mexer nesses temas impopulares —, Alves enfatizou que o altíssimo custo do dinheiro no Brasil é um verdadeiro flagelo para a sociedade.

“As reformas previdenciária e trabalhista são vitais. Mas a reforma que o país precisa fazer com urgência é a monetária. A redução dos juros é que vai garantir a recuperação mais rápida da economia. Porque tem efeito no curto prazo”, disse José Alves, me­ga­em­presário que há mais de cinco dé­cadas anos comanda um grupo que atua em vários Estados e em vários ramos de negócios, como indústria de bebidas (Refresco Bandeirantes-Coca-Cola), instituição de ensino (Faculdades Alfa), tecnologia da informação (Red e White Solutions), rastreamento de veículos (3T Systems) e no ramo i­mo­biliário (NL Negócios Imobiliários).

José Alves citou números para ilustrar o descalabro da situação: “O governo federal tem uma dívida líquida de R$ 3 trilhões de reais. Com juros altos, essa dívida é impagável e só cresce. O país, se fizer a reforma da Previdência, vai economizar R$ 6 bilhões. O ajuste fiscal do governo Temer é vital para a economia como um todo. Mas se os juros não caírem, a dívida chegará logo a 100% do Produto Interno Bruto (PIB). Isso é grave, o Brasil precisa de uma cruzada contra os juros altos. Precisamos de uma reforma monetária urgente.”

E o empresário citou uma cifra concreta como ideal para a taxa Selic, também conhecida como taxa básica de juros da economia brasileira e que serve de referência para todas as demais taxas da economia: 3% (atualmente é de 12,25%). Segundo José Alves, a Selic a 3% ao ano fortalece a bolsa de valores, quer dizer, o setor produtivo. “É lá que estão as empresas produtivas de capital aberto, e, com juros mais baixos, serão incentivadas.”

O empresário disse que a taxa Selic mais baixa contribui para a retomada do crescimento doméstico, possibilita a retomada do consumo, aumenta a escala dos negócios. “É preciso retirar a taxa de indexação da inflação da taxa Selic. A economia brasileira está necrosando, mas não está inteiramente podre. É possível acelerar a recuperação econômica.”

Segundo José Alves, um homem que “põe a mão na massa” e, portanto, sabe do que está falando, a questão da recuperação econômica do País tem foco no consumo, que deve ser estimulado de forma sustentável. Nesse ponto, não há como esquecer o que fizeram os governos de Lula e de Dilma, que estimularam o consumo de forma irresponsável e artificial, o que apenas adiou e agravou os problemas da economia no médio e no longo prazo.

“O consumidor brasileiro precisa recuperar o crédito. Só assim voltará a comprar e, portanto, a esquentar a economia. André Lara Rezende, economista brilhante (ex-diretor do Banco Central e um dos integrantes da equipe econômica que elaborou o Plano Real), também defende que é preciso reduzir a taxa Selic imediatamente. Reduzir a taxa Selic para 3% ao ano é plenamente possível”, afirmou José Alves Filho, que criou e preside o Fórum Democrativa, cuja missão é mobilizar empresários e outras lideranças numa agenda de recuperação da economia.

“Diálogo”

Economista Beny Parnes: “Há um espaço substancial para queda dos juros” | Leo Pinheiro / Valor Econômico / Agência O Globo

Na terça-feria, 21, dia seguinte ao discurso de José Alves Filho na Câmara Mu­ni­cipal, o jornal “Valor Econômico” trouxe entrevista com Beny Parnes, sócio e economista-chefe da gestora de recursos carioca SPX Capital e diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central entre 2002 e 2003, quando Ilan Goldfajn, atual presidente do BC, ocupava a diretoria de Política Econômica. Entre várias considerações, no que tange à necessidade de redução dos juros, Beny Parnes praticamente “dialogou” com o empresário goiano.

Um trecho do que Parnes disse textualmente: “Há um espaço substancial para queda dos juros, substancial. Tudo indica que há espaço enorme para o juro real da economia brasileira cair. O elefante que estava na sala está saindo, que é o crescimento de 4,5% real do gasto público todos os anos, porque a gente sabe que aprovaram a PEC 55. Bem ou mal, isso tira pressão enorme do juro real. Com­por­tamento do consumidor vai ser mais prudente e expansão desmesurada do crédito ficou para trás. São fatores estruturais. Conjuntural-mente, existe espaço enorme para queda de juros no curto prazo, dada a enorme ociosidade na economia, com ou sem cenário alternativo.

Valor: No seu cenário, o juro real terminaria o ano perto de 5%, perto do que o mercado estima como neutro. Tem espaço para cair além disso, então?

Parnes: Sim. A gente está avançando em discussão de reforma da Previdência e trabalhista. Aprovar isso seria uma mudança enorme no país. Estamos avançando em discussão de reforma da indústria de petróleo, em medidas que flexibilizam economia. Não estou falando que não há riscos. Tem o risco de não aprovar reforma, de aprovar reforma ruim, tem o risco das eleições de 2018. Mas o governo tem obtido vitórias significativas no Congresso e não dá para dizer que foi por acaso.”

Copom reduz taxa, mas meta para 2018 é tímida

Economista Aurélio Troncoso: “A taxa de juro no Brasil hoje é o grande vilão da economia” | Foto: Divulgação

Na quarta-feira, 22, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu os juros básicos, a Selic, em 0,75 ponto porcentual, para 12,25% ao ano, e deu a sua primeira indicação explícita de que poderá levar a taxa a um dígito nos próximos meses. A decisão foi unânime e alinhada ao consenso de mercado, que esperava a repetição do ritmo adotado na reunião do mês passado. O atual ciclo de corte começou em outubro do ano passado, com juro básico saindo de 14,25% ao ano.

Considerando a projeção do mercado de Selic de 9,5% no fim deste ano, e de 9% no fim de 2018, o modelo de projeção do BC aponta inflação de 4,2% em 2017 e de 4,5% no encerramento de 2018. Como a projeção está dentro da meta de 4,5%, as projeções indicam que os juros, em tese, podem cair para porcentuais entre 9% e 9,5% deste ano para o próximo.

Para o enfrentamento da difícil situação econômica brasileira na atualidade, essa projeção do BC é muito tímida, segundo o economista Aurélio Troncoso, coordenador do curso de Economia das Faculdades Alfa e integrante do Fórum Demo­crativa. Troncoso lembra que não se trata de derrubar a Selic para 3% do dia para a noite, o que seria loucura e o próprio mercado financeiro não suportaria.
“Mas podemos baixar mais que 9% neste ano. Se isso ocorrer, e a taxa continuar caindo, não diria aos 3% que seriam o ideal, mas podemos chegar num patamar em que o empresário vai conseguir se adaptar e, consequentemente, passar a investir na produção pesadamente, gerando empregos. E os bancos vão trabalhar com uma taxa de juro saudável para o mercado financeiro, ao mesmo tempo em que o consumidor terá condição de tomar crédito em condições de pagar”, afirma Troncoso.

O economista não tem dúvida em afirmar que a taxa de juro no Bra­sil hoje é o grande vilão da economia, porque impede o empresário de investir no País. “Com esse juro alto, ele pode aplicar no mercado financeiro, sem correr risco, porque vai investir no mercado produtivo para ganhar menos? Não faz sentido.”
O economista Valdivino Olivei­ra reforça o coro na necessidade de redução do juro. Ele observa, porém, que para o Brasil, uma taxa de 3% é muito difícil, principalmente porque nossa economia é muito dependente de capital externo, que precisa se remunerar com uma taxa de juro atrativa. “Se cair a 6 a 7% seria uma grande vitória para a economia brasileira, considerando que historicamente nossa inflação fica por volta de 4,5% a 6% ao ano. l

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