Sebrae busca valorizar e fomentar economia da produção de cachaça de alambique em Goiás

Segundo dados do Mapa, número de marcas e estabelecimentos com registro no País é muito pequeno; presidente do Agopcal diz que mais 90% do mercado goiano é informal

Vera Lúcia Elias de Oliveira | Foto: Divulgação

Desde 2015, o Sebrae Goiás realiza o Projeto Desenvolvimento da Cachaça de Alambique do Estado de Goiás. O intuito, conforme a analista e gestora do Projeto Cachaça, Vera Lúcia Elias de Oliveira, é promover e fomentar o desenvolvimento dos pequenos negócios da cadeia da bebida e gerar um produto de alta qualidade, “valorizando a parte sensorial da bebida e buscando novos espaços de divulgação e comercialização para os produtores goianos”.

Segundo ela, o Sebrae, por meio do projeto, promove ações que têm o papel de induzir e facilitar a inserção da cachaça no mercado consumidor, além de gerar inovação  em produtos e processos para que, não só no mercado local, mas também no nacional, as cachaças goianas sejam reconhecidas pelos seus diferenciais de qualidade físico química e sensorial de sabores e aromas.

Dessa forma, “o projeto oferece ferramentas aos empreendedores para enfrentar o desafio de pensar, agir conjuntamente para a melhoria do ambiente de atuação dos produtores”, diz Vera. “Neste foco de promover o desenvolvimento dos pequenos negócios da cadeia produtiva da cachaça de alambique, o Sebrae oferece consultorias, capacitações, ações de acesso a mercado e leva os produtores a participarem de feiras, missões, rodadas de negócios e até em concursos de degustação às cegas, onde muitas cachaças de Goiás receberam diversas medalhas”.

Beneficiados

O Sebrae conta com parceiros para apoiar os segmentos empresariais ligadas à cachaça de alambique. São eles: o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai ) e a Universidade Federal de Goiás (UFG).

“Com esses atores podemos afirmar que o empreendedor tem hoje em Goiás todo o suporte e orientação que vai desde análise da terra, variedade da cana mais apropriada para sua localidade, implantação do processo de produção, análises, atendimento aos requisitos legais e fiscais até a inserção do seu produto no mercado”, avaliou a analista.

Ela discorreu, ainda, que tanto os pequenos negócios formais e não formais, produtores de cana, produtores de cachaça, profissionais ligados a bares, restaurantes, hotéis, pousadas, mercados, empórios, distribuidoras, que querem conhecer o valor da cachaça, podem contar com o Sebrae. O propósito, segundo Vera, é a disseminação dos elementos sensoriais de valorização de boas experiências geradas a partir das cachaças goianas. “Buscamos orientar a exploração dos diferenciais dos drinks, cardápios preparados e ou harmonizados com a cachaça, mostrando as oportunidades de negócios”.

Foto: Divulgação

Apoio

Também de acordo com ela, o papel do Sebrae é o de apoiar aquele produtor que quer ter seu produto e estabelecimento dentro dos padrões de qualidade e legalidade. Quem irá certificar é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Assim, o Sebrae auxilia o setor na articulação de políticas públicas, na geração e disseminação de conhecimento e oportunidade de negócios para que este, que é um setor com potencial de geração de renda, possa crescer e alavancar a economia do nosso Estado. “O Sebrae atende os produtores que queiram desenvolver, porém o nosso público é o pequeno negócio”.

Inclusive, sobre a legalização do negócio, ela diz que a vantagem de ter um produto atendendo os requisitos legais e fiscais é não estar sujeito à fiscalização e apreensão por parte do Mapa. Além disso, Vera informa a possibilidade de dar a garantia ao consumidor da qualidade e da procedência deste. 

“Vale destacar que cachaça é uma bebida e como tal requer controle para não pôr em risco a saúde de quem consome. Para dar o suporte ao produtor, o Sebrae tem consultorias de gestão e tecnológicas para que o produto seja competitivo, de qualidade e regularizado e que o negócio também seja lucrativo”.

Produção em Goiás

A analista e gestora do Projeto Cachaça, Vera Lúcia, informa que o Mapa lançou, recentemente, o anuário “A Cachaça no Brasil – Dados de registro e de Cachaças e Aguardentes”. Este revela, conforme ela citou, que no Brasil e em Goiás o número de marcas e estabelecimento com registro no ministério é muito pequeno.

Ela diz que o Sebrae não possui dados oficiais para afirmar o tamanho da produção e nem da quantidade de produtores. “A produção de cachaça vem muito como uma tradição de família, passada de geração para geração, onde o foco não era um negócio. Surge com uma atividade complementar e temporária e atualmente este situação vem modificando. Já tem alambique que foi instalado para ser a atividade econômica principal do empreendedor”, observa.

Luiz Manteiga Filho | Foto: Divulgação

“Quando se fala em números, não existe um exato e sim aproximado, já que mais de 90% do mercado Goiano é informal ou clandestino”, corrobora a fala de Vera, Luiz Alvarez Manteiga, presidente fundador da Associação Goiana de Produtores da Cachaça de Alambique (Agopcal).

Ele afirma que a associação tem feito um trabalho de política pública e de inserção dos produtores que estão à margem da legislação. “Além de não recolherem os impostos devidos, fazem uma concorrência desleal e o pior, não atendem as Boas Práticas de Produção, exigidas pelo Mapa, que são a base mínima para o consumidor, como por exemplo, as instalações adequadas, a higiene dos manipuladores no processo produtivo e a higienização dos equipamentos, além das garrafas para envase”.

Luiz explicita que é muito comum encontrar destilado alcoólico envasado em garrafas Pets recolhidas em usinas de reciclagem ou em lixões. “Um verdadeiro caso de saúde pública e quem paga por esta conta são os registrados, com o estereótipo negativo da imagem da verdadeira cachaça de alambique”.

Agopcal

A Agopcal, vale destacar, além de Luiz, possui outros 12 produtores, que também são sócios fundadores. O presidente revela que, em conjunto com o Sebrae, a Emater e a Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Serviços (SIC-GO), foi elaborado, em 2014, o Planejamento Estratégico da Cachaça de Goiás.  “Na época, éramos seis cachaças registradas e sete sem registro junto ao Mapa. Em um curto espaço de tempo regularizamos com o total apoio do Sebrae as demais que ainda não tinham registro. Hoje já somamos 24 produtores, alguns em fase de registro e outros em construção da indústria”.

Para ele, graças à parceria com o Sebrae, Senai e Emater na qualificação e profissionalização dos produtores, os responsáveis pelas cachaças artesanais goianas se tornaram grandes gestores, “não só de nosso próprio negócio como também da economia goiana. Estamos criando, junto com vários atores e parceiros a rota turística, gastronômica e cultural da cachaça de goiás”.

Gastronomia

E por falar em gastronomia, a chef Juliana Barroso, que tem mais de 14 anos de experiência e atualmente coordena o Enchefs Goiás, um projeto de valorização do profissional de cozinha e da cultura gastronômica local, afirma que a cachaça artesanal pode harmonizar com qualquer prato.

“É uma bebida bem complexa e completa e pode harmonizar com qualquer prato. Pode ser usada pra produzir drinks para combinar com os pratos ou pode ser usada diretamente para produção de receitas”, avalia.

Segundo ela, a cachaça possui muito detalhes e peculiaridades. Esta não possui acidez, o que torna a bebida mais harmônica. Deste modo, uma boa cachaça vai melhorar e agregar ao prato.

Questionada sobre a diferença da bebida em versão artesanal ou produzida em grande volume, de forma industrial, ela diz que, em teoria são o mesmo produto, mas na prática é diferente. “A cachaça industrial é feita em larga escala e, consequentemente, não se pode dar atenção a alguns detalhes, como qualidade da cana. Na fermentação são utilizados antibióticos e produtos químicos, sua destilação é simples, por meio de colunas de aço inox e às vezes se acrescenta açúcar para melhorar o produto”.

Já nas cachaças artesanais, segundo ela, o processo é mais cuidadoso. “A cana é selecionada, assim como todos os ingredientes. A destilação é feita em alambique de cobre e a fermentação é feita naturalmente com fermentos selvagens e selecionados. Isso e mais algumas coisas fazem a cachaça artesanal ser um produto mais elaborado, com menos acidez, mais aroma e sabor”, atenta aos detalhes.

Juliana Barroso | Foto: Divulgação

Inclusive, para ela todas as cachaças artesanais do Estado são ótimas. “Vai depender da hora, lugar e prato que vai acompanhar. Não faltando a cachaça, está ótimo”, brinca Juliana e conclui: “A cachaça é um dos produtos famosos do Brasil, por isso precisamos valorizar mais as cachaças artesanais e saber diferenciar de uma simples pinga. Muitas vezes nosso produto é mais valorizado fora do País. É importe valorizar o produto regional para fomentar a economia e valorizar os produtores que tanto se esforçam pra fazer um excelente produto”.

Inmetro

No Brasil, são produzidos cerca de 1,3 bilhão de litros de cachaça de alambique por ano. Além disso, o País possui o terceiro destilado mais consumido no mundo. O Sebrae apoia a certificação dos produtos pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e, com o intuito de contribuir, assume parte dos custos para a obtenção desse atestado de qualidade reconhecido em 80 países.

Dados do Regulamento de Avaliação de Conformidade da Cachaça informam que, no Brasil, 27 marcas já contam com certificação do Inmetro. Este destilado tem quase 500 anos de história de produção no País.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.