Reforma da Previdência: a ponte que Temer não pode atravessar

Para tocar em algo tão sério é preciso ter algo que o presidente emedebista não tem nem terá: a legitimidade dos votos

Silvio Santos recebe o presidente da República Michel Temer | Foto SBT

Ali, naquela tarde-noite de domingo, parecia um promotor de colchão magnético ou de alguma substância emagrecedora vendendo seu produto em um decadente programa de auditório. O ani­mador, com o microfone sempre preso à lapela, fazia sua parte co­mo anfitrião que recepciona o anunciante e levantava a bola da mercadoria apresentada.

Mas não era um apresentador qualquer. E nem um anunciante qual­quer. Ali estavam o dono de uma rede de televisão e o presidente da República. Muito menos era banal o produto à venda: a polêmica reforma da Previdência.

É mesmo algo desesperador o nível com que Michel Temer (MDB) tem tratado o tema que muda imediatamente a vida de dezenas de milhões de brasileiros e, do restante da população, pelas próximas décadas. Parece alguém querendo passar por cima de tudo para executar um serviço que lhe foi encomendado. É como o velho jargão “mas tem mais, o patrão ficou maluco!”, pelo qual o gerente fica autorizado a fechar qualquer negócio. O problema é que o patrão é Temer.

É, mas não deveria ser – e está aqui toda a origem errada do que vai seguir errado até o fim do presente mandato. Michel Temer foi eleito vice-presidente de uma chapa com Dilma Rousseff (PT). É bem verdade que nunca se soube exatamente qual negociação havia para se fazer uma composição esdrúxula com alguém que nunca teve qualquer ascendência política de maior porte em seu Estado de origem. Em 2004, quando era deputado federal e já presidente nacional do partido, Temer se lançou pré-candidato a prefeito da capital. Os paulistanos lhe deram 1% de intenção de voto e ele teve de se contentar com o posto de vice na chapa de Luiza Erundina (PSB).

Sendo ou não representativo, havendo ou não negociações es­cusas que o garantissem, o fato é que o emedebista foi eleito e reeleito com a presidente. Tinham ambos, sob pena de trair os votos angariados com a maioria da população, o compromisso de cum­prir a carta-programa. Temer não só confeccionou sua própria – chamada “Ponte Para o Futuro” – ainda antes do processo de impeachment começar como a está aplicando totalmente desde que assumiu o poder de forma tão contestada.

A “ponte” que se constrói no Planalto não foi apreciada no escrutínio de 2014. Nada tem a ver, portanto, com o que solicitou o voto da maioria dos eleitores; mais do que o processo em si, é isso que dá margem maior para se falar em golpe. Cai por terra o argumento espertalhão de que o voto em Dilma seria também uma procuração para seu vice – de fato, até seria, desde que o vice con­tinuasse o mesmo projeto.

Se há uma “ponte” em obras no governo Temer, ela liga o País à mais velha política de privilégio às mais tradicionais elites nacionais – banqueiros (hoje rentistas), latifundiários e megaempresas. A seu lado na condução do País, situados em postos-chave nos mi­nis­térios e no Legislativo, os ve­lhos políticos e seus parentes que se locupletam nos cargos há décadas.

Mesmo com toda a água suja que já passou debaixo da “ponte” – benesses, isenções generosas, negociações de cargos, retiradas de direitos, aumentos de tarifas etc. –, talvez não haja nada mais tenebroso do que a propagandeada (literalmente, até) reforma da Previdência.

Para conseguir seu intuito, o governo investe pesado em duas frentes. Uma é o convencimento popular, não apenas com a presença física da figura do presidente da República em auditórios vespertinos, mas também com propaganda massiva nos horários de TV sobre o combate a um suposto “privilégio”, especialmente dos servidores públicos; a outra vem de uma esperança de que, a partir do sucesso na primeira frente, os parlamentares se­jam eles próprios convencidos de que o risco de não se reelegerem está descartado ao decidir apoiar a mudança drástica na Previdência.

Não é que não seja preciso rever as condições do sistema de seguridade social no Brasil. Pelo contrário, é evidente que, sim, me­xer nele e executar uma reforma é um dever patriótico. Porém, para to­car em algo tão sério é preciso ter algo que Temer não tem nem terá: a legitimidade dos votos.

Em um ano eleitoral, mais do que fazer a toque de caixa uma reforma da Previdência encomendada, é hora de o Legislativo colocar em debate, para os pré-candidatos e durante a campanha, o pro­jeto de seguridade social que ca­da um deles tem: o que pensa o PT, que esteve no poder por 13 anos e fez mudanças na Previ­dên­cia logo no primeiro ano do go­ver­no Lula? Há algo que Jair Bol­so­naro (ainda no PSC) tenha a dizer sobre o tema que vá além de bravatas? E Marina Silva (Rede), sem­pre tão calada, até quando não poderia? Geraldo Alckmin (PSDB), ameaçado pela sombra de Luciano Huck (ainda não filiado ao PSDB), falaria o quê? Ciro Go­mes (PDT) diz que é preciso esperar o próximo mandatário, mas já teria um esboço de seu projeto de reforma?

O tempo que se tem para vo­tar a reforma da Previdência, diz-se em Brasília, é este mês. Diz aquele que deve ser o mais sábio dos ditados que “tempo é dinheiro”. Pode-se comprar praticamente tudo, do pão na padaria ao de­pu­tado no Congresso. Só não se po­de comprar tempo. Que não se fa­ça mais essa maldade; que não se jogue o destino do tempo de vida de milhões de brasileiros nas mãos de um governo que não está au­torizado moralmente. Que fe­ve­reiro seja realmente curto. Que es­te ano passe logo. Que o governo Temer acabe o mais rapidamente possível. l

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.