Recordes, tecnologia, emoção e mais: Copa da Rússia já entrou para a história

Um resumo da fase de grupos deste mundial que superou números importantes antes mesmo do mata-mata

Rússia aplicou goleada de 5 a 0 na Arábia na estreia com golaço de Cheryshev

De Samara, Rússia

Os confrontos das oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia já estão em andamento, mas é necessário relembrar como foi a fase de grupos do torneio a fim de explicar por que este mundial entrou para a história antes mesmo do início do mata-mata.

A Copa do Mundo deste ano é a sexta em que competem 32 seleções divididas em oito grupos de quatro e a penúltima neste formato que se iniciou em 1998, na França, já que, a partir de 2026, quando Canadá, Estados Unidos e México serão sedes em conjunto, o número de participantes será de 48.

Neste sentido, a escala de comparação do mundial da Rússia deveria se restringir às últimas cinco edições. Porém, recordes de muito antes também foram batidos. A quantidade de pênaltis marcados ajuda a exemplificar: os árbitros assinalaram 24 penalidades máximas nos 48 jogos da fase de grupos, das quais 18 foram convertidas — ambos os números já são maiores do que qualquer outra Copa do Mundo.

VAR
Alguns destes pênaltis podem ser colocados na conta do árbitro de vídeo (VAR, na sigla em inglês). A novidade da tecnologia já se faz presente em ligas europeias, como a italiana e a alemã. Em uma Copa do Mundo, é a primeira vez. É claro não está sendo perfeito, pois ainda precisa de aprimoração, mas os resultados, por ora, são positivos.

Ao todo, o VAR checou 335 incidentes — quase sete checagens por jogo — e corrigiu 14. Nas primeiras 24 partidas, o tempo de espera pela decisão do árbitro de vídeo foi de cerca de 31 segundos, enquanto cobranças de falta e de tiro de meta totalizam 10 minutos e 29 segundos, em média.

Em outras palavras, o VAR não atrasou o jogo. Além disso, não acabou com a típica polêmica no futebol, como muitos temiam — não há consenso, por exemplo, se Miranda sofreu falta ou não no gol da Suíça contra o Brasil. Enfim, a tecnologia chegou ao futebol. E veio para ficar — desde que continue em progresso.

Gols
Outro ponto positivo da fase de grupos foi o alto número de gols marcados. Com goleadas de 5 a 0 — Rússia contra Arábia Saudita — e 6 a 1 — Inglaterra contra Panamá —, 122 bolas foram parar nas redes — média de 2,5 gols por jogo. Apenas uma partida, entre França e Dinamarca, terminou em 0 a 0.

A propósito, a Copa do Mundo de 2018 foi a primeira da história em que todas as seleções marcaram pelo menos dois gols. A quantidade de gols que decidiram partidas nos acréscimos do segundo tempo também foi recorde: oito. E a última rodada da fase de grupos foi responsável por mais um feito histórico: o meia Fakhreddine Ben Youssef, da Tunísia, marcou o gol de número 2.500 de todas as Copas.

Mas nem todos esses 122 gols foram comemorados por quem deu o último toque na bola antes dela entrar. Afinal, o mundial da Rússia superou mais um recorde, desta vez o de gols contra: nove, deixando para trás os seis de 1998.

Outras curiosidades
Dos últimos 10 finalistas, isto é, de 1998 a 2018, apenas a França, em 2006, não terminou na primeira colocação de seu grupo. Falando em final, a deste ano só não será inédita se os finalistas forem Brasil e Suécia, que decidiram a Copa do Mundo de 1958 — a única em solo europeu vencida por uma seleção de fora do velho continente.

Em 2018, Uruguai, Espanha, França, Croácia, Brasil, Suécia, Bélgica e Colômbia venceram os seus grupos, enquanto Rússia, Portugal, Dinamarca, Argentina, Suíça, México, Inglaterra e Japão se classificaram em segundo — dez da Europa, cinco da América Latina e um da Ásia.

A definição do último grupo — o mais equilibrado de todos —, que contou com Colômbia, Japão, Senegal e Polônia, foi mais uma novidade no mundial da Rússia. Japoneses e senegaleses terminaram a fase de grupos com todos os critérios de desempate iguais — saldo de gols, gols marcados e gols sofridos, além do confronto direto.

O último critério antes do sorteio é o fair play. O Japão levou quatro cartões amarelos — dois a menos que Senegal — e, assim, avançou às oitavas, fase a partir da qual as partidas serão disputadas com uma bola diferente. Na verdade, muda somente uma cor — o cinza é trocado pelo vermelho — e a Telstar, o nome oficial da bola, ganha um apelido: Metchta, que significa “sonho” — em 2010 e 2014, também houve bolas diferentes, mas apenas para a final.

Seleção brasileira
Não só pelo fato de ser estreia — que, geralmente, é a partida mais tensa da fase de grupos —, mas o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo foi também contra o melhor adversário da chave. Não é à toa que a Suíça se classificou às oitavas.

O 1 a 1 deixou muitos torcedores frustrados. Outros, bravos. E o principal alvo de críticas era Neymar. Não pelo seu cabelo, mas sim pelo futebol jogado. É verdade que o jogador voltava de lesão e estava sem ritmo de jogo. Contudo, prendeu demais a bola, atrasando o jogo, sem ser objetivo e muito menos coletivo. Se não fosse o gol de Philippe Coutinho, a situação do Brasil teria sido pior.

No segundo jogo, contra a Costa Rica, o Brasil dominou a partida. Martelou até furar a linha de cinco da equipe adversária mais uma vez com Philippe Coutinho, já nos acréscimos do segundo tempo. Neymar deixou o seu logo em seguida, mas o craque do Brasil estreou mesmo diante da Sérvia.

Não foi uma partida do nível que se espera de alguém como Neymar, mas pelo menos o camisa dez parece ter entrado no ritmo de Copa do Mundo e jogou muito mais para o time do que para si. Com gols de Paulinho e Thiago Silva, o Brasil passou em primeiro para enfrentar o México nas oitavas.

Neymar, criticado pelo seu futebol abaixo da média nas duas primeiras partidas, jogou melhor diante da Sérvia e é esperança para as oitavas

É importante ressaltar que quatro jogadores diferentes marcaram os cinco gols da seleção brasileira até aqui, o que significa mais opções e menos “Neymardependência”, como foi em 2014. Destaca-se também que, dos 23 convocados, não entraram em campo os dois goleiros reservas, Ederson e Cássio, os zagueiros Marquinhos e Geromel, o volante Fred e o atacante Taison.

O Brasil melhorou, mas as lesões passaram a ser um problema. Antes mesmo da convocação final, a seleção perdeu o lateral direito titular, Daniel Alves. Durante os treinamentos pré-mundial, Renato Augusto e Fred se lesionaram. Já durante a Copa do Mundo, Marcelo, Danilo e Douglas Costa machucaram — este último já havia se apresentado com lesão, assim como Fagner.

Em relação aos mexicanos, trata-se de um adversário especialista em perder nas oitavas. O México avançou a esta fase nas últimas seis edições — e perdeu em todas elas. Aliás, Brasil e México são as únicas seleções que passaram de todas as fases de grupo desde 1994.

Se vencer, o México, além de quebrar a “tradição” de ser eliminado nas oitavas, vai se igualar à Hungria e à Itália. São estas as únicas seleções que venceram tanto Brasil quanto Alemanha em um mesmo mundial — em 1954 e 1982, respectivamente.

Vexame da campeã
A Alemanha repetiu o enredo de todos os campeões na era de 32 seleções, com exceção do Brasil. A França venceu em 1998 e, quatro anos depois, foi eliminada na fase de grupos. O mesmo aconteceu com a Itália em 2006 — campeã — e 2010 — eliminada na fase de grupos — e a Espanha em 2010 — campeã — e 2014 — eliminada na fase de grupos.

Em 2018, foi a vez da Alemanha, que venceu a Copa do Mundo quatro anos atrás no Brasil, dar o vexame. Com o quarto elenco mais caro da competição, os alemães terminaram em último lugar do grupo F, atrás de Suécia, México e Coreia do Sul, com uma vitória, duas derrotas, dois gols marcados e quatro sofridos.

A única vez que a Alemanha saiu na primeira fase foi em 1938, quando não existia fase de grupos. A seleção alemã jogou uma partida contra a Suíça, que terminou empatada em 1 a 1. Como ainda não havia disputa de pênaltis, foi jogada uma partida desempate, vencida pelos suíços, de virada, por 4 a 2.

Estreantes
A Copa do Mundo da Rússia teve a estreia de duas seleções em mundiais: Islândia e Panamá. A primeira conseguiu arrancar um empate contra a Argentina na estreia, mas não passou disso. Mesmo assim, fora das quatro linhas, a torcida islandesa fez uma festa à parte, apesar de o país de 330 mil habitantes ser a menor população representada na história das Copas.

Já o Panamá, que perdeu as três partidas da fase de grupos — assim como Egito —, foi a primeira seleção estreante a sofrer 11 gols desde os Emirados Árabes Unidos, em 1990. Mas isso não fez com que a torcida deixasse de vibrar com o primeiro gol do país em uma Copa do Mundo. Parecia que eles haviam ganhado o torneio. É esta a magia do futebol.

Jogo rápido

Melhor partida: Portugal 3×3 Espanha
Gol mais bonito: Ricardo Quaresma, na vitória de Portugal contra o Marrocos
Melhor equipe: Croácia
Melhor jogador: Luka Modrić
Melhor atuação individual: Cristiano Ronaldo, no empate de Portugal contra a Espanha
Artilheiro: Harry Kane, com cinco gols
Maiores goleadas: Inglaterra 6×1 Panamá e Rússia 5×0 Arábia Saudita
Surpresa/zebra: Suécia
Decepção: Alemanha (equipe) e Thomas Müller (jogador)

Dinheiro pesa? Veja como seria a classificação com base no valor de cada time

Nenhum grupo terminou exatamente de acordo com os valores de mercado dos 23 jo­gadores de cada seleção somados, segundo o site especializado Transfermarket.

Egito, Sérvia, Alemanha, Se­negal e Polônia são equipes que teriam se classificado, caso o dinheiro realmente fizesse a diferença — em seus lugares, passaram, respectivamente, Rússia, Suíça, Suécia, Colômbia e Japão.

O jogador mais caro do mundo é o brasileiro Neymar. O seu valor de mercado é de aproximadamente R$ 780 milhões. Mas isso não foi suficiente para fazer da seleção brasileira a mais cara do mundial — Espanha e França estão à frente. Por sua vez, a equipe mais barata é o Panamá.

Confira como teria sido a classificação com base no valor de cada time:

Grupo A
1 Uruguai € 373 milhões (R$ 1,6 bilhão)
2 Egito €€ 197 milhões (R$ 754 milhões)
3 Rússia €€ 119 milhões (R$ 518 milhões)
4 Arábia Saudita €€ 18,8 milhões (R$ 83 milhões)

Grupo B
1 Espanha €€ 1,08 bilhão (R$ 4,4 bilhões)
2 Portugal €€ 494 milhões (R$ 2 bilhões)
3 Marrocos €€ 134 milhões (R$ 587 milhões)
4 Irã €€ 48,3 milhões (R$ 213 milhões)

Grupo C
1 França €€ 1,03 bilhão (R$ 4,4 bilhões)
2 Dinamarca €€ 259 milhões (R$ 1,1 bilhão)
3 Austrália €€ 50 milhões (R$ 220 milhões)
4 Peru €€ 38,5 milhões (R$ 178,5 milhões)

Grupo D
1 Argentina € 699 milhões (R$ 3 bilhões)
2 Croácia € 364 milhões (R$ 1,5 bilhão)
3 Nigéria € 134 milhões (R$ 587 milhões)
4 Islândia € 76 milhões R$ 335 milhões)

Grupo E
1 Brasil €€ 981 milhões (R$ 4,4 bilhões)
2 Sérvia €€ 273 milhões (R$ 1,2 bilhão)
3 Suíça €€ 218 milhões (R$ 956 milhões)
4 Costa Rica €€ 40,5 milhões (R$ 178,5 milhões)

Grupo F
1 Alemanha €€ 883 milhões (R$ 3,8 bilhões)
2 México € 154 milhões (R$ 679 milhões)
3 Suécia €€ 119 milhões (R$ 518 milhões)
4 Coreia do Sul €€ 87,5 milhões (R$ 385 milhões)

Grupo G
1 Inglaterra €€ 874 milhões (R$ 3,8 bilhões)
2 Bélgica €€ 754 milhões (R$ 3,3 bilhões)
3 Tunísia €€ 58,8 milhões (R$ 259 milhões)
4 Panamá €€ 8,2 milhões (R$ 32,2 milhões)

Grupo H
1 Senegal €€ 297 milhões (R$ 1,3 bilhão)
2 Polônia €€ 274 milhões (R$ 1,2 bilhão)
3 Colômbia € 251 milhões (R$ 1 bilhão)
4 Japão € 73,4 milhões (R$ 323 milhões)

Seleção dos 11 melhores da fase de grupos

É bastante provável que, até a final, alguns nomes da lista abaixo mudem. De qualquer forma, vale evidenciar os que se destacaram durante a fase de grupos. Os 11 eleitos dificilmente começariam uma partida juntos, mas é impossível deixar de fora determinados jogadores.

Com uma improvisação ou outra, veja abaixo a seleção dos melhores da Copa do Mundo até aqui — e o porquê de terem sido escolhidos:

Goleiro
Apenas uma seleção não sofreu um gol sequer ao longo da primeira fase: o Uruguai. Portanto, nada mais justo que o melhor goleiro seja Fernando Muslera, o único que ainda não teve que buscar bolas no fundo da rede. O feito da celeste, de não sofrer gols durante a fase de grupos em uma Copa do Mundo com 32 seleções, ocorreu só em 1998, com a Argentina.

Defesa
Aqui, entra o primeiro brasileiro na lista: Thiago Silva. O zagueiro do Paris Saint-Germain fez três partidas extremamente seguras e, de quebra, marcou um gol de cabeça na última. A dupla de zaga é complementada por Andreas Granqvist, que anotou dois gols para a surpreendente Suécia.

Nas laterais, duas improvisações. John Stones, da Inglaterra, jogou a fase de grupos como zagueiro e fez dois gols de cabeça. Entretanto, como nenhum lateral direito teve grande desempenho, Stones, que já atuou na referida posição em algumas situações durante a carreira, conquistou o lugar na lista.

Pelo lado direito, o argentino Marcos Rojo, que, no Manchester United, joga tanto como zagueiro quanto como lateral esquerda, é o dono da posição. Foi dele o gol decisivo contra a Nigéria que classificou a Argentina. Cabe destacar que Rojo começou a partida na zaga, mas, com a saída de Nicolás Tagliafico, foi adiantando e só depois selou a vitória argentina.

Meio-campo
Croácia, Uruguai e Bélgica são as únicas equipes 100%, ou seja, venceram os três jogos. O ótimo desempenho da seleção croata muito se deve ao volante Luka Modrić, que já marcou duas vezes e comandou a sua equipe na vitória por 3 a 0 contra a Argentina.

O segundo brasileiro a marcar presença na seleção da fase de grupos é Philippe Coutinho. Dos cinco gols do Brasil até o momento, três têm participação direta do jogador do Barcelona — dois gols e uma assistência. É o grande destaque da seleção brasileira no mundial.

Ataque
É neste setor do campo que o time se desequilibra e, por isso, teria dificuldades em jogador junto. Isso porque não há como deixar de fora o português Cristiano Ronaldo — quatro gols —, o brasileiro naturalizado espanhol Diego Costa — três gols —, o belga Romelu Lukaku — quatro gols — e o atual artilheiro da Copa do Mundo, o inglês Harry Kane — cinco gols.

Nota-se que, coincidentemente ou não, os quatro jogadores em questão são típicos centroavantes. É verdade que Cristiano Ronaldo tem maior capacidade de jogar pelos lados, mas, na última temporada pelo Real Madrid, foi mais 9 do que 7 — e o mesmo ocorre com a seleção portuguesa no mundial.

No início desta década, pensou-se que o centroavante seria uma posição fadada à extinção devido ao “falso 9”, termo inaugurado por Pep Guardiola à época em que treinava o Barcelona — e que muitos técnicos tentaram copiar —, cuja função era desempenhada por Lionel Messi, que está longe de ter altura de centroavante.

É certo que Cristiano Ronaldo, Diego Costa, Lukaku e Kane não ficam estáticos na área esperando a bola chegar e possuem boa mobilidade — eles tiveram que se adaptar ao “futebol moderno”, em que todos marcam. Por outro lado, já dá para dizer que está Copa do Mundo representa a volta dos camisas 9.

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