Quer ser prefeito de Goiânia? Chame o síndico que há em você

Diante do delicado quadro financeiro das contas públicas, saber fazer (e fazer bem) o básico será essencial para o próximo prefeito da capital, não importa quem seja

Praça Walter Santos, no Setor Coimbra: preferência aos carros reduz qualidade de vida | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Praça Walter Santos, no Setor Coimbra: preferência aos carros reduz qualidade de vida | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias

Claro que ainda é muito cedo para bater o martelo sobre quem será o prefeito de Goiânia. E neste texto nenhum dos pré-candidatos já postos na disputa será citado – pelo menos, não por essa condição circunstancial. Se por enquanto não tem como imaginar concretamente o nome daquele que governará a cidade a partir de 1º de janeiro do próximo ano, por outro lado é bem fácil deduzir de que nível será sua missão: muito complicada.

O próximo prefeito de Goiânia vai lidar com um quadro complexo, eufemisticamente falando. Em bom português, terá um abacaxi gigantesco para descascar, com o aumento populacional da capital – fenômeno a que ela, por ser rota de migração, estará sempre submetida – e o encolhimento da receita – que, mesmo se não cair nominalmente (o que também pode acontecer este ano, de acordo com a retração do mercado e seus reflexos principalmente no setor terciário, principal base da economia goianiense), despenca quando se observam os índices de inflação e o crescimento vegetativo da folha de pagamento.

Isso leva a algo com que todos os pré-candidatos – dos quais boa parte, em cinco meses (a campanha começa no dia 16 de agosto), estará nas ruas pedindo voto – terão de lidar, desde já: planejar em que nível pretendem seduzir o eleitor com suas promessas e propostas. E o fator financeiro, certamente, vai pesar bastante na modalização do discurso de quem vai partir para a disputa da sucessão municipal. “O que” colocar em pauta? E “como” colocar em pauta?

Há 12 anos, quando o Brasil começava a ensaiar uma recuperação econômica da crise de 1999, ainda no primeiro governo Lula, Iris Rezende (PMDB) foi eleito prefeito de Goiânia puxado por duas promessas de vulto: asfaltar todas as ruas habitadas da cidade e resolver o problema do transporte público em seis meses. Foi reeleito graças à primeira, que cumpriu senão no todo pelo menos satisfatoriamente, no entender do eleitorado. Aqui, fica um porém sobre a qualidade questionável da pavimentação asfáltica e do fato de que, em grande parte dela não foi feita nenhuma obra de infraestrutura prévia (leia-se, especialmente, galerias pluviais). Já a segunda questão – bastante mais complexa, diga-se –, só vem se agravando e certamente vai voltar à tona no debate deste ano.

Mas suponha-se que pudesse ser trazido o cenário de 2004 para o contexto atual: Iris teria sucesso hoje repetindo a mesma fórmula? Ou seja, prometer asfalto e solução rápida para um problema sério surtiria efeito eleitoralmente? O mais provável é que não. E isso pode ser facilmente observado por meio do comportamento do cidadão goianiense diante dos problemas que têm afetado sua qualidade de vida nos últimos tempos. O goianiense não quer grandes obras – até porque ele sabe que não há dinheiro em caixa para propostas exorbitantes.

Entretanto, a eleição de Goiânia talvez passe por coisas bem mais simples do que o estabelecimento de grandiosidades na plataforma eleitoral. Vamos a algumas aspas apanhadas de uma dona de casa, em uma conversa informal, na semana passada. Moradora do Setor Universitário, Daniela Almeida disse o seguinte: “Sabe o que eu penso? Que tinham que pelo menos deixar nossa cidade bonita e limpa como era antes. Goiânia nem parece Goiânia mais.”

Mais importante que o “bonita e limpa”, na frase de Daniela o que deve ser mesmo levado em consideração é o pronome possessivo no plural que ela utiliza. “Nossa cidade” é uma forma típica de demonstrar agradável pertencimento a um conjunto, a uma representação. O que ela diz — pode se aferir facilmente — representa um imenso contingente daquilo que se chama povo goianiense e que traz em si um orgulho coletivo: a beleza de sua capital.

A questão é que a crise administrativo-financeira da Prefeitura de Goiânia tem impactado no visual da cidade. No fundo de todas as questões, esse é o verdadeiro calcanhar de Aquiles. Nesse sentido, está aí algo que tem tudo para ser um grande trunfo a ser usado pelos concorrentes ao Paço: devolver ao goianiense uma cidade que ofereça “conforto” ao olhar.

Ciclovias, com a da T-63, são obras que precisam de sequência na próxima gestão

Ciclovias, com a da T-63, são obras que precisam de sequência na próxima gestão

Isso não diz respeito só à parte central, e nem apenas à questão meramente urbanística. Essa satisfação visual interage com demais variáveis, como a mobilidade e a segurança. Uma cidade fica mais bonita a partir do momento em que ela “funciona” e, ao mesmo tempo, transmite tranquilidade. Uma zona urbana bem resolvida equivale a menor estresse e, portanto, mais qualidade de vida.

Em sua dinâmica, ocorreu na última década um aumento acelerado da frota circulante na capital. A gestão de Iris Rezende partiu para uma opção em princípio prática, rápida e pouco onerosa: cortar praças para deixar o trânsito fluir. Quem conhece o ex-prefeito sabe que ele não se importa muito com estética e acabamento — nunca foi o forte de suas gestões, desde as casas da Vila Mutirão, ainda nos anos 80, até as placas dos viadutos da Avenida 85. A solução tem seu preço: para agilizar o fluxo dos veículos, o visual da cidade, sua “interface amigável” com as pessoas, acabou ficando prejudicado. O exemplo mais recente ocorreu na Praça do Relógio, para minimizar os transtornos provocados à Avenida Jamel Cecílio pelo excesso de automóveis dos moradores de condomínios e frequentadores de shopping concentrados em uma pequena região.

Difícil pensar em refazer praças já cortadas ao meio. Mas há outras formas de se investir na mobilidade e na humanização. Uma medida recente (e acertada) foi a transformação do chamado “manto de Nossa Senhora” — a área delimitada pelo contorno da Praça Cívica e as avenidas Araguaia, Paranaíba e Tocantins — em local com limite de velocidade “Zona 40”(km/h). Motoristas reclamam, mas é uma adequação necessária ao bom convívio e ao respeito com quem se locomove de forma mais lenta, notadamente ciclistas e pedestres. A propósito, as ciclovias e ciclorrotas implantadas na atual gestão vão precisar de uma sequência de investimento na próxima gestão. Nada exorbitante, que não caiba em um plano de governo sóbrio.

O prefeito terá de colaborar na política de segurança. Além da Guarda Municipal — que já tem dado sua parcela de contribuição —, é essencial a reposição constante das lâmpadas e a poda das árvores. Serviços não tão caros nem tão difíceis de efetivar como rotina, desde que haja um planejamento correto. Da mesma forma é regularizar a coleta de lixo, a varrição das ruas, a poda dos canteiros centrais e das áreas verdes, um melhor ajardinamento das praças e parques. Tudo o que, de alguma forma, por causa das tribulações geradas com a pouca saúde dos cofres municipais, tem feito falta ao dia a dia da cidade. Ou seja, o cidadão não está pedindo muito.

Mais do que um problema conjuntural de recolhimento de lixo, a questão dos resíduos na capital é algo de que um futuro gestor que tenha responsabilidade socioambiental não poderá se esquivar —ainda que isso, em princípio, não renda grande quantidade de votos: como alertou o promotor Juliano de Barros Araújo em entrevista ao Jornal Opção, é preciso que Goiânia consolide seu aterro sanitário, algo que já vem como dívida de administrações anteriores à atual.

O último gargalo a solucionar tem a ver com a melhoria no atendimento nos Cais e postos de saúde. Parece difícil — e talvez seja —, mas há algo que pode ser melhorado substancialmente: a humanização do atendimento. Acolher da melhor forma (e sempre isso pode ser melhor) pessoas em seus momentos vulneráveis é algo essencial e a que, infelizmente, poucos gestores se atêm com a ênfase devida.

Aqui se falou de propostas palpáveis, nada de outro mundo. Mas não dá para excluir, do jogo eleitoral, o emaranhado complicadíssimo em que se meteu a política brasileira nos últimos anos, ainda mais especialmente com os fatos das últimas semanas. Hoje, graças à publicidade dada à Operação Lava Jato, até mesmo o cidadão mais comum tem o mínimo de conhecimento sobre como se dão os mecanismos que conduzem a política. Já sabe que é preciso observar a que tipo de empresas cada candidato está se ligando, quem está por trás de cada um dos nomes postos em jogo.

Mas, em suma, o próximo prefeito será um grande gestor se for… um síndico. Se conseguir manter os serviços funcionando a contento e fizer a manutenção do que for necessário, não precisará inaugurar nenhuma obra de vulto para terminar seu mandato consagrado. Resta saber quem conseguirá evitar prometer coisas mirabolantes, que são geralmente onerosas. Vencer esse comichão parece ainda ser um desafio para os políticos tradicionais. Os marqueteiros, ou pelo menos alguns deles, provavelmente apontarão este rumo: faça o fácil, descomplique. Mas que faça bem feito.

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