Queda de braço permanece

Sem nunca ter indicado um líder desde a sua posse, em janeiro do ano passado, prefeito Iris Rezende não consegue estruturar base permanente na Câmara de vereadores

Prefeito Iris Rezende: a impressão é que está faltando ele na Prefeitura

Afonso Lopes

É a primeira vez que Iris Rezende enfrenta uma resistência tão grande no legislativo. Essa experiência, de não ter uma base permanente, é inédita para ele desde seu primeiro mandato como prefeito de Goiânia, ainda na década de 1960. O que não é novidade é sair das urnas com minoria no legislativo, como ocorreu nas eleições de 2016. Mas desta vez, ao contrário do que aconteceu em alguns de seus mandatos como prefeito e como governador do Estado, Iris Rezende não está conseguindo erguer uma base. Sequer houve indicação de um líder, que funciona como uma espécie de intermediário direto entre o plenário e o gabinete do governante.

A pior resultante dessa equação minoritária é a dificuldade que a administração de Iris Rezende tem enfrentado no dia a dia. Cada vez que ele envia matéria para apreciação dos vereadores, há necessidade de negociação direta com vereadores. Isso, além de empobrecer o debate, acaba custando sempre muito caro.

Bancada dos camaleões

Sem a referência da base de sustentação do governo, a bancada majoritária na Câmara dos Vereadores de Goiânia é formada por autênticos camaleões políticos, que mudam de lado a todo instante, dependendo das conversas pontuais com o prefeito. É claro que nenhuma das parte admite, mas cada voto favorável às matérias de interesse da Prefeitura tem como mesa de negociação principal algo em troca, como possibilidade de indicação para cargos. Pode-se alegar que a formação de uma base permanente também envolve esse tipo de negociação. A diferença é que nesse caso a negociação é feita apenas uma vez, e não a cada votação importante.

Sem contar com uma base, o prefeito acaba expondo muito mais seus secretários. Os da Saúde, Fátima Mrue, e da Educação, Marcelo Costa, “apanham” quase diariamente dos vereadores. Esse fato seria absolutamente normal e corriqueiro pela postura da bancada oposicionista, que tem como vocação natural explorar as falhas do Executivo. O que não é normal é a pancadaria sem contraponto da bancada governista, que não existe.

Sem esse grau de comprometimento, as matérias caem no plenário com alguma articulação de secretários, que quase sempre se revelam insuficientes. Na semana passada, a derrota do prefeito foi impressionante. Considerada estratégia para recompor as esfarrapadas finanças da Prefeitura, que segue acumulando contas oficialmente calculadas em torno de 22 milhões de reais por mês, a cobrança de multa do IPTU sobre melhorias nos imóveis foi desautorizada por unanimidade pelos vereadores presentes. Para a Prefeitura, a derrota não vai impedir que a cobrança seja feita. De acordo com a procuradora-geral do Município, Anna Vitória, não há nem mesmo a necessidade de se buscar, a exemplo do que aconteceu com o reajuste no IPTU de maneira geral, refúgio na Justiça. A procuradora entende que a Câmara Municipal extrapolou suas funções.

É mais um desgaste para a imagem do prefeito e da administração como um todo. Com uma base, a discussão ficaria restrita ao plenário da Câmara dos Vereadores. Ou seja, a Prefeitura teria com quem dividir o custo político de uma medida que é impopular — aumento de impostos jamais são bem recebidos. Em outras palavras, os efeitos negativos poderiam ser amenizados pelos debates na própria Câmara. Sem isso, a carga negativa recai inteiramente no Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges.

Não se sabe exatamente o que levou o prefeito Iris Rezende a não se motivar pela criação e montagem de uma base de sustentação fiel e permanente, e nem se tem ideia das dificuldades para escolher um líder que o represente no plenário. Qualquer que tenha sido a motivação, a verdade é que tem custado muitíssimo caro para a imagem do governo municipal, ao ponto de atingir inclusive a imagem de Iris Rezende como administrador. No ano passado, tinha-se a impressão de que estava faltando Iris na Prefeitura. Pelo jeito, a ausência continua.

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