Que o presidente seja Trump, o vulgar. Pelo menos suas ideias malucas podem ser barradas

Trump pode ser vulgar, mas não representa, como Hillary, o mundo em que as leis têm significados ocultos que somente os oráculos soi-disant progressistas podem nos revelar

“Hillary x Trump”: um vulgar, cujas ideias malucas podem ser barradas, e uma criminosa com ideias malucas que são e serão aceitas

“Hillary x Trump”: um vulgar, cujas ideias malucas podem ser barradas, e uma criminosa com ideias malucas que são e serão aceitas

Marcelo Franco

Eleições nos Estados U­ni­dos. De um lado, um sujeito vulgar; de outro, uma mentirosa contumaz. Donald Trump é o cara que todos adoram odiar (um cacoete adolescente), mas é, apesar das matérias muito editadas dos telejornais, articulado. Sua única ideia realmente estranha é o tal muro; sua construção, porém, poderá eventualmente ser barrada pelo Con­gresso e pela Suprema Corte. Com a vida vasculhada, descobriram que gosta de mulheres (sem comprovação de ataques físicos, ao contrário do Sr. Clinton), usa mecanismos legais para não pagar impostos e tem um corte de cabelo ridículo, muito piorado pelo tom acaju, ofendendo assim o senso estético da “intelligentsia”.

Já Hillary misturou os negócios da família com os da Secretaria de Estado, usou o tal servidor particular para enviar milhares de emails confidenciais (segredos de Estado), achacou as mulheres atacadas pelo maridão, mentiu sobre o seu estado de saúde e sabe-se lá o que mais. Nos emails vazados (pelo Wikileaks — ora, que coisa estranha, Assange não é ídolo dos esquerdistas?), seus assessores mais leais dizem que os instintos dela são muito ruins, “ruim” como evidente eufemismo para “criminoso”.

Um tosco e uma Messias com laivos de Al Capone que se crê redentora dos nossos pecados, mas o brucutu não pode ser eleito porque as ideias que a criminosa defende se instalaram como senso comum obrigatório. O pior de Trump não são as grosserias, porque o mundo adulto sobrevive a isso (e ainda ri): ele é, e aqui o terreno fica um tanto movediço, voluntarioso; tampouco é um liberal (no sentido clássico, europeu) verdadeiro: crê na intervenção estatal na economia e vai rever acordos de livre comércio (espanta-me como a esquerda não esteja aplaudindo esse improvável insurgente contra a globalização). Para nós outros, liberais clássicos, isso é anátema digno de excomunhão do Clube Hayek. Em matéria internacional, é, como se diz por lá, uma pomba (mais parecido com Obama do que Hillary, portanto): os problemas dos outros não são americanos, ao contrário da falcão Hillary (também me espanta como a esquerda agora tem sido a favor de intervenções na soberania alheia).

O establishment está com Hillary, inclusive parte dos republicanos; a família Bush a apoia discretamente, Colin Powell a apoia estridentemente, jornais republicanos publicaram editoriais a seu favor (e novamente me espanto: a esquerda — esquerda com toques americanos, bem entendido — quer a candidata da Tradicional Família Americana). Com Trump, haverá quatro anos de frases idiotas e confrontos com parte da sociedade, inclusive com o próprio Congresso republicano. Com Hillary, quatro anos de ideias bonitinhas para restringir nossas liberdades, tudo aceito com ares de inteligência bem pensante (cria-se uma “epidemia de bullying”, como Obama fez, e lá vêm leis… Ou se combate o “absurdo” nacional — outra campanha de Obama — de não haver fraldários em banheiros masculinos. Ou se impõe a tal ideologia de gênero como política definitiva. Ou se olha com desprezo para o americano médio, com seu Deus e suas armas, apesar de ele existir e ser talvez parte da maioria política do país, e se tenta mudar sua mente, sua própria forma de pensar e interagir com o mundo). E há ainda os pitacos na vida alheia, inclusive aqui no Florão (a esquerda é a mãe do tal R2P, responsibility to protect, teoria que embasa imersões em outros países). Pior: Hillary, mesmo se cometer atrocidades, não é impichável, primeira mulher etc. etc.

Um vulgar, cujas ideias malucas podem ser barradas, e uma criminosa com ideias malucas que são e serão aceitas. Hillary representa o mundo em que homens são estupradores potenciais, em que negros estão sempre corretos porque são negros, em que a polícia é sempre abusiva, em que estudantes ocupando prédios públicos estão corretos, em que a linguagem deve ser permanentemente policiada para não ferir sensibilidades alheias, em que a discordância disso tudo se torna “fascismo”, em que o Estado entra diariamente em nossa forma de pensar para nos “corrigir”, em que as leis têm significados ocultos que somente os oráculos soi-disant progressistas podem nos revelar.

No mundo de Hillary, a Unesco diz que o Monte do Templo, em Jerusalém, é sagrado apenas para os muçulmanos e não para os judeus (sim, fizeram isso). Pois quero viver num mundo em que bandeiras possam ser queimadas (os republicanos gostariam de criminalizar esse ato), mas também num lugar em que todas as ideias, mesmo as “erradas”, possam ser divulgadas: o Holocausto não aconteceu, Deus criou somente homens e mulheres, cotas são absurdas, polícia armada é algo necessário. Sim, Trump nos dará quatro anos de “não quis dizer isso”, “exijo desculpas”, “chamei o embaixador de volta”, mas o mundo nunca foi um lugar sem confrontos e prefiro isso, mil vezes isso, à placidez das ideias definitivas e ao banimento daquelas que ofendem.

Talvez com Hillary venham quatro anos de paz e prosperidade; pode ser que Trump abra as portas do Apocalipse, não só por seus atos, mas também por falha do “receptor” em “comunicações” (ninguém quer verdadeiramente ouvi-lo). Talvez a derrota de Trump force o partido republicano a se corrigir, significando voltar às origens e não adotar as ideias dos democratas, e isso seria bom. Talvez, talvez, mas tudo isso é futuro — pelo que re­presenta hoje, ela é o maior perigo para nossa liberdade. É uma eleição com dois candidatos ruins, é o “Crivella x Frei­xo” de lá, mas quase todas são.

Com a mão tremendo, cheio de dúvidas, eu, se fosse americano, me reservaria o direito de pensar por conta própria e votaria no vulgar e não na criminosa: a razão me impediria de não ver o risco enorme para as nossas liberdades individuais que Hillary representa. A dama de ferro americana ainda nos presenteará com Oba­ma, aquele ou­tro Messias, como juiz da poderosa Suprema Corte e ele será um novo Tirésias que vê na Constitui­ção o que ninguém mais vê.

Mal comparando, o tosco Berlusconi não destruiu a Itália e a manteve longe, durante algum tempo, dessa vidinha com “trigger warnings” que querem nos impor como a única possível; do mesmo modo, Trump não destruirá um PIB de trilhões de dólares e, talvez, deixará o mundo sem guerras bem intencionadas e sem a idealização infantil da vida livre de perigos e mesmo ofensas. Mais do que tudo, Trump tem alguns freios, inclusive institucionais; Hillary não os tem, nenhum deles, e se percebe, como todo reformador moral, como uma enviada messiânica que nos salvará de nós mesmos. l

Marcelo Franco é promotor de Justiça em Goiás.

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