Quando o comandante do Exército saiu da institucionalidade da caserna para impedir Lula de ser candidato

Em livro publicado pela FGV Editora, general Villas Bôas revela, três anos depois, que pressão sobre STF em 2018 era, na verdade, compartilhada pelo Alto-Comando

Reconhecido como um militar verde-oliva moderado, um liberal do Exército, general Eduardo Villas Bôas feriu institucionalidade das Forças Armadas e atuou politicamente, gesto que interferiu nas eleições de 2018 com apoio do Alto-Comando das Forças Armadas | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.”

Assim escreveu em sua conta no Twitter o general Eduardo Villas Bôas, então comandante do Exército, às 20h39 da terça-fera 3 de abril de 2018, véspera do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) do pedido de habeas corpus preventivo da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra uma possível prisão após condenação em segunda instância na ação penal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por suposto recebimento de propina no tríplex do Guarujá (SP). Até então, parecia uma ação isolada de Villas Bôas, uma tentativa clara de pressão sobre os 11 ministros do STF que julgariam o recurso no dia seguinte.

A decisão só foi concluída no plenário do Supremo no início da madrugada da quinta-feira 5 de abril de 2018. Na manhã da mesma data, o então juiz Sergio Fernando Moro, que era titular da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR), expediu a ordem de prisão contra Lula, que se entregou à Justiça e cumpriu prisão na carceragem da Polícia Federal na capital paranaense a partir da noite de 7 de abril, um sábado.

Voz solitária

Naquele julgamento, apenas o então decano da Corte, ministro Celso de Mello, criticou o tom de ameaça adotado publicamente pelo comandante do Exército. “Intervenções castrenses [militares], quando efetivadas e tornadas vitoriosas, tendem, na lógica do regime supressor de liberdades, a diminuir, quando não eliminar, o espaço institucional reservado ao dissenso. Tudo isso é inaceitável.” Celso de Mello afirmou, durante a sessão, que “o respeito indeclinável à Constituição e às leis da República representa o limite intransponível a que se deve submeter os agentes do Estado, quaisquer que sejam os estamentos a que eles pertencem”.

O magistrado citou o golpe de 1964, assunto até hoje não muito bem resolvido na história da redemocratização, tema que os militares não aceitam discutir sem ressentimento e anedotas. “Já se distancia no tempo histórico os dias sombrios que caíram sobre nosso país. A experiência concreta a que se submeteu o Brasil no regime de exceção constitui para esta e para as próximas gerações marcante advertência.”

Por terem ou não cedido à pressão do comandante do Exército na noite anterior, o placar ficou 6 a 5 contra o pedido de concessão de habeas corpus preventivo a favor do ex-presidente da República após ter confirmada a condenação pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre (RS), no dia 24 de janeiro por unanimidade. Na noite de 7 de abril daquele ano, Lula começaria a cumprir preventivamente a detenção pela pena provisória, ainda passível de recurso nas instâncias superiores, aumentada de nove anos e seis meses para 12 anos e um mês em regime fechado.

Fim da prisão

Depois de ter habeas corpus preventivo negado em abril de 2018, ex-presidente Lula da Silva (PT) ficou 580 dias preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR) | Foto: Reprodução/TV Folha

Na tarde da sexta-feira 8 de novembro de 2019, pouco mais de um ano depois da disputa presidencial que elegeu o ex-deputado federal Jair Bolsonaro (sem partido) no segundo turno contra o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), Lula da Silva deixou a cadeia em Curitiba. Foram 580 de cumprimento preventivo da pena. O direito de responder ao processo em liberdade só veio depois de o STF retomar o entendimento de que uma pessoa condenada só pode começar a cumprir a pena após o trânsito em julgado da ação penal, como prevê o artigo 5º da Constituição Federal e o 283 do Código de Processo Penal (CPP).

Ninguém sabe explicar muito bem os motivos que fizeram o Supremo, naquela madrugada de 5 de abril de 2018, dar maioria de seis votos contrários ao que determina a Carta Magna e o Código de Processo Penal, decisão que liberou Moro a decretar a prisão de Lula. Os ministros Edson Fachin, relator na Corte dos processos oriundos da Operação Lava Jato, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux e a então presidente do STF, Cármen Lúcia, votaram contra o habeas corpus preventivo pedido pela defesa do petista.

Mas um ano e cinco meses depois, a ministra Rosa Weber, que decidiu acompanhar a maioria frágil do colegiado no julgamento do pedido de habeas corpus preventivo, disse que não se pode julgar de maneira casuística. Com a mudança de voto da magistrada, o placar mudou para 6 a 5 contra a possibilidade de prisão a partir da condenação em segunda instância. Resgatou-se o que determina a Constituição: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Contra o “populismo”

Até então, o então comandante do Exército, general Villas Bôas, disse em entrevista ao jornalista Pedro Bial um ano antes do processo eleitoral que o Brasil precisaria estar atento para escolher bem o próximo presidente da República. E definiu o que não gostaria de ver sair como resultado das urnas. “O populismo tem sido a desgraça, principalmente na América do Sul”, disse Villas Bôas em entrevista ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, no dia 19 de setembro de 2017, ao falar sobre as eleições de 2018.

Em entrevista anterior, no dia 24 de abril de 2019, Villas Bôas disse à Revista Veja que chegou a ser procurado por emissários da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) às vésperas do julgamento do processo de impeachment no Congresso para que fosse decretado estado de defesa no Brasil. A medida, segundo o ex-comandante do Exército, visava impedir protestos contra a petista nas ruas. Segundo o general, as Forças Armadas teriam ficado “alarmadas” com o pedido vindo do Palácio do Planalto.

“Nós temos uma assessoria parlamentar no Congresso que defende nossos interesses, nossos projetos. Esse nosso pessoal foi sondado por políticos de esquerda sobre como nós receberíamos uma decretação do estado de defesa.” No morde e assopra de Villas Bôas, em seguida declarou que temia o “perigo” do surgimento de líderes populistas na eleição de 2018 “politicamente incorretíssimos, mas que correspondem ao inconformismo das pessoas”. Estaria Villas Bôas a falar sobre Bolsonaro?

Explicações a Dilma

Ex-presidente Dilma Rousseff (PT) cobra detalhes do general Villas Bôas sobre suposta ameaça de decretar estado de sítio contra manifestações em 2016: “Se isso ocorreu é imprescindível o nome dos deputados, pois eles devem esclarecimentos ao país” | Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Villas Bôas, que comandou o Exército de 5 de fevereiro de 2015 a 11 de janeiro de 2019, foi cobrado por Dilma a dizer quem eram os políticos que teriam feito o contato para a instalação de um estado de sítio no Brasil em 2016. “Se isso ocorreu é imprescindível o nome dos deputados, pois eles devem esclarecimentos ao país. Caso contrário, a responsabilidade cabe ao general e à sua assessoria parlamentar”, contestou a ex-presidente.

Mas o general mudou já deu mais de uma versão para o suposto contato: “A presidente Dilma teria me chamado e determinado a decretação do estado de defesa, e eu teria dito que não cumpriria. Isso não aconteceu. Mas que houve a sondagem, ela de fato houve”. A ex-presidente questionou as declarações de Villas Bôas. “Por que não buscou esclarecer se a iniciativa dos deputados contava com respaldo da comandante das Forças Armadas? Não respeitou a hierarquia?”

E continuou a petista: “Explique por que, se ficou preocupado, não informou as autoridades superiores, ministro da Defesa e presidente da República — comandante supremo das Forças Armadas — sobre o fato de dois integrantes do Legislativo sondarem a assessoria parlamentar do Exército sobre um ato contra a democracia, uma vez que contrário ao direito de livre manifestação”.

Conversa com Temer

O livro “General Villas Bôas: conversa com o general” (FGV Editora), organizado por Celso Corrêa Pinto de Castro, diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), revela que o então comandante do Exército se reuniu com o à época vice-presidente Michel Temer (MDB) para saber como as Forças Armadas se comportariam caso o impeachment de Dilma fosse votado. Villas Bôas diz na publicação que informou a Temer que seguiria a decisão do Congresso.

Quando Temer assume como presidente, no dia 12 de maio de 2016, após o afastamento de Dilma pelo Senado, e nomeia o chefe do Estado Maior do Exército, general Sérgio Etchegoyen, como ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Presidência da República. É na gestão do emedebista que os militares passam a comandar o Ministério da Defesa. Quando o titular da pasta, Raul Jungmann, se torna ministro extraordinário da Segurança Pública, o general Joaquim Silva e Luna, hoje indicado por Bolsonaro para a presidência da Petrobras, se torna ministro da Defesa de Temer.

Alguns rastros de que os tuítes de 3 de abril de 2018 eram bem mais graves do que pareciam já tinham surgido em uma entrevista que Villas Bôas concedeu à Folha de S.Paulo em novembro do mesmo ano, no mês seguinte à eleição de Bolsonaro. Primeiro revelou que se encontrou com o presidente eleito.

Encontro com Bolsonaro

Historiador Paulo César Gomes: “Quando Villas Bôas fala que o tuíte que foi feito às vésperas do julgamento do STF com acordo do Alto-Comando, é bastante grave no sentido de que isto representa uma ameaça ao poder civil” | Foto: Rodrigo Benatti

“Era mais uma visita de cortesia. Tivemos uns dez minutos de conversas específicas. Aqui no Exército será alguém da turma dele, e os quatro generais mais antigos são da turma dele. Sugeri que colocasse um civil na Defesa. Com o ministério com tantos militares, teria um equilíbrio interessante. Mas ele insistiu que fosse um oficial-general de quatro estrelas.”

Depois falou sobre quando pressionou o STF às vésperas do julgamento do habeas corpus de Lula: “Eu reconheço que houve um episódio em que nós estivemos realmente no limite, que foi aquele tuíte da véspera da votação no Supremo da questão do Lula. Ali, nós conscientemente trabalhamos sabendo que estávamos no limite. Mas sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle se eu não me expressasse”.

Em seguida, Villas Bôas tenta explicar a situação de bastidores das Forças Armadas naquele momento. “Porque outras pessoas, militares da reserva e civis identificados conosco, estavam se pronunciando de maneira mais enfática. Me lembro, a gente soltou [o post no Twitter] 20h20, no fim do Jornal Nacional, o William Bonner leu a nossa nota”, explicou à Folha em novembro de 2018.

Tuíte de 2018

Na sequência, o então comandante do Exército fala sobre a repercussão dos tuítes. “A relação custo-benefício foi positiva. Alguns me acusaram… de os militares estarem interferindo numa área que não lhes dizia respeito. Mas aí temos a preocupação com a estabilidade, porque o agravamento da situação depois cai no nosso colo. É melhor prevenir do que remediar.” Naquele momento, Villas Bôas contava como chefe do Centro de Comunicação Social do Exército com o general Otávio do Rêgo Barros, que foi porta-voz do governo Bolsonaro de janeiro de 2019 a outubro de 2020.

Villas Bôas revelou ao pesquisador Celso Castro que os militares nunca pediram desculpa pelos crimes cometidos durante a ditadura por medo de punição na Justiça | Foto: Divulgação/FGV Editora

O próprio Villas Bôas, que se mostrou na entrevista à Folha preocupado em separar a imagem dos militares da ativa da imagem do presidente eleito, aceitou se tornar assessor especial do general Augusto Heleno no Gabinete de Segurança Institucional, onde aturou no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) aquele que é considerado o professor do ex-comandante do Exército nas Forças Armadas, o general Alberto Mendes Cardoso.

Em junho de 2019, o pesquisador João Roberto Martins Filho concedeu entrevista ao Intercept Brasil e falou sobre o quanto os militares se incomodaram com o “a questão da Comissão Nacional da Verdade, as investigações que ela fez e o relatório que ela divulgou culpando toda a cadeia de comando das cinco Presidências da República, os generais, entre 1964 e 1985”.

Incômodo com a Comissão da Verdade

E de fato Villas Bôas reclamou da Comissão da Verdade na entrevista concedida à Folha no final de 2018. “Olhar para trás impede que a gente convirja. É ridículo. De 1964 para cá, se passaram 54 anos. Imagine se em 1954 estivessem discutindo 1900. Não acho que devemos jogar para baixo do tapete. Até a Comissão da Verdade foi um desserviço nesse sentido.”

Para o historiador Paulo César Gomes, que fez parte da Comissão da Verdade, disse ao Jornal Opção que é uma falácia dos militares alegar que o grupo não teria “ouvido os dois lados da história”. “Não faz o menor sentido dizer que a Comissão da Verdade tem de ouvir os dois lados da história, porque não existem dois lados. Existe um órgão estatal criado para investigar os crimes cometidos por agentes do Estado brasileiro. E os militares, desta forma, eram agentes do Estado brasileiro agindo em nome do Estado brasileiro.”

Martins Filho afirma que as Forças Armadas voltaram atuar na política nacional a partir do comando de Villas Bôas à frente do Exército. “Esse retorno foi organizado pelo então comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas. Você percebe essa intenção pelas declarações que ele começou a dar depois da queda da Dilma Rousseff em 2016. Quando ela caiu, houve uma mudança de postura do Exército. O Exército aderiu institucionalmente à candidatura Bolsonaro”, aponta o pesquisador ao Intercept.

No livro “General Villas Bôas: conversa com o general”, o ex-comandante do Exército evidencia até um comportamento amedrontado das Forças Armadas com relação à ditadura militar instalada a partir do golpe de 1964. Villas Bôas contou a Celso Castro que os militares nunca pediram desculpa pelos crimes cometidos durante o período de exceção por medo de punição na Justiça. “Nenhum dos presidentes civis da chamada Nova República realmente conseguiu enfrentar a grande mácula da história brasileira, que é a ditadura militar”, destaca Paulo César Gomes.

Villas Bôas no GSI

Historiador Hugo Studart afirma que o “partido fardado” chega à sua 12ª intervenção na política brasileira com a participação dos militares no governo Bolsonaro | Foto: Divulgação

Quando Jair Bolsonaro troca o comando do Exército, sai Villas Bôas e entra p general Edson Pujol, o ex-comandante é só elogios ao novo presidente da República. Villas Bôas chegou a dizer que a eleição de Bolsonaro era a “liberação das amarras ideológicas” no Palácio do Planalto. “O presidente Bolsonaro, que fez com que se liberassem novas energias, um forte entusiasmo e um sentimento patriótico há muito tempo adormecido”, disse o general na solenidade de 11 de janeiro de 2019. Pujol entrou e saiu calado do evento.

“Gostaria de externar a minha felicidade por receber uma missão do presidente Jair Bolsonaro ao ser convidado para integrar o Gabinete de Segurança Institucional, no qual poderei continuar contribuindo para o desenvolvimento da nossa Pátria.” Naquela época, Bolsonaro afirmou que a conversa que os dois tiveram em 2018 seria levada para o túmulo sem ser revelada.

O historiador Hugos Studart, que é pesquisador da ditadura militar e da luta armada ligado ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (IHG-DF), afirma que o “partido fardado fez 11 intervenções na política brasileira. “Dar suporte ao governo Bolsonaro é a 12ª intervenção dos militares na história do Brasil”, diz ao Jornal Opção. De acordo com Studart, as Forças Armadas estão presentes como parte da política nacional desde quando Dom Pedro I assume o comando do Brasil como príncipe regente.

“Ora os civis chamam os militares e os descartam, como na Revolução de 1930, ora há uma aliança entre civis e militares, como em 1964, e ora os militares têm o protagonismo e descartam os civis, como foi o caso do AI-5 em 1968. Podemos dizer que a eleição de Jair Bolsonaro é a 12ª intervenção dos militares na política nacional”, detalha Hugo Studart.

Gravidade dos tuítes

Paulo César Gomes explica que desde o período da redemocratização, “embora o Exército tenha perdido o protagonismo que teve durante a ditadura, foi um ator político que nunca deixou de ter força”. “Quando Villas Bôas fala que o tuíte que foi feito às vésperas do julgamento do STF com acordo do Alto-Comando, é bastante grave no sentido de que isto representa uma ameaça ao poder civil”, avalia o historiador que coordena o site História da Ditadura.

Se, como revelou Villas Bôas no livro, o conteúdo da mensagem publicada no Twitter foi discutida durante um dia inteiro com o Alto-Comando das Forças Armadas, ministros militares do governo Bolsonaro participaram da elaboração dos tuítes. Naquele 3 de abril de 2018, o general Joaquim Silva e Luna era ministro da Defesa. De acordo com as informações que vieram a público três anos depois do episódio de ameaça ao STF, Silva e Luna teria ficado assustado com o conteúdo.

Foi quando Silva e Luna teria entrado em contato com o general Alberto Mendes Cardoso, a quem Villas Bôas nutre enorme admiração. Entre os 15 generais de quatro estrelas que formavam o Alto-Comando à época estão o general Fernando Azevedo e Silva, hoje ministro da Defesa, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo da gestão Bolsonaro, que era adido do Estado Maior do Exército na ocasião, e o ministro da Casa Civil, general Walter Braga Netto.

Respostas dos militares

Se Villas Bôas combinou os tuítes com o Alto-Comando das Forças Armadas, quatro ministros de Bolsnaro participaram da elaboração das mensagens de ameaça ao Supremo | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Ramos nega que tenha sito consultado, como disse à Folha. Braga Netto não respondeu à reportagem de Igor Gielow e Azevedo se resumiu a afirmar que “o conteúdo do livro cabe ao seu autor”. O cheiro de ligação do comando de Villas Bôas com o trabalho dos militares para eleger Bolsonaro em 2018 ganhou novos indícios no final da tarde de sexta-feira, 12, com a publicação da reportagem “O general, o tuíte e a promessa”, de Mônica Gugliano e Tânia Monteiro no site da revista piauí.

As jornalistas revelam informações de bastidores da aproximação entre o general Villas Bôas, então comandante do Exército, do ministro Dias Toffoli, que se tornaria presidente do STF no dia 13 de setembro de 2018, dois meses antes da eleição presidencial que levou Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Na reportagem, as repórteres revelam trechos da história não contados por Villas Bôas no livro publicado pela FGV. ” O que o general não contou é que seu tuíte ajudou a consolidar sua influência junto ao Supremo ainda antes da eleição presidencial”, escrevem Tânia e Mônica.

No encontro ocorrido entre Villas Bôas e Toffoli cinco meses depois da publicação dos tuítes, o ministro do STF, que se tornaria presidente do Supremo, garantiu que manteria Lula afastado das eleições de 2018. “A promessa de Toffoli era música para os ouvidos do general. Naquele momento, Villas Bôas já enterrara outros nomes e se convencera de que a candidatura de Bolsonaro era a alternativa que havia sobrado”, descreve a revista piauí.

Mesmo com a desconfiança inicial por imaginar que Toffoli tivesse ligações com o PT mesmo no STF, Villas Bôas foi convencido do acordo firmado com o magistrado. “O dia 13 de setembro, o general pôde constatar o sucesso do ‘tuíte de alerta’. Estava na posse de Toffoli, o magistrado que lhe prometera manter Lula na prisão.”

Três anos depois

O próprio general Villas Bôas, em fevereiro de 2021, ironizou o ministro do STF Luiz Edson Fachin por reagir tardiamente às ameaças feitas pelo então comandante do Exército ao Supremo na véspera do julgamento de Lula: “Três anos depois”. Na mesma tarde de 16 de fevereiro, uma terça-feira, outro ministro do Supremo, Gilmar Mendes, reagiu às críticas do militar ao colega Fachin: “A harmonia institucional e o respeito à separação dos poderes são valores fundamentais da nossa república. Ao deboche daqueles que deveriam dar o exemplo responda-se com firmeza e senso histórico: Ditadura nunca mais!”.

Mal sabia Villas Bôas que menos de um mês depois Fachin anularia todo o andamento dos quatro processos contra Lula abertos na 13ª Vara Federal de Curitiba. Neste momento, o petista pode disputar as eleições presidenciais de 2022 por um erro de competência, verificado apenas cinco anos depois, do juiz Sergio Moro. Como o ministro entendeu que os casos que envolvem a acusação de crimes supostamente cometidos por Lula não teriam ligação direta com a Petrobras, deveriam ser analisados pela Justiça Federal do Distrito Federal, onde os ilícitos teriam ocorrido.

A decisão certa veio pelo motivo errado e muito atrasada. Desde o início dos julgamentos, em 2016, a defesa do ex-presidente questiona a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para analisar os casos. De repente, Fachin resolveu retirar da gaveta um recurso de novembro e decretar a incompetência do da região do TRF-4 para jugar os processos. Decisão correta, mas que pode ter sido tomada para preservar o que ainda resta de legado da Operação Lava Jato e do trabalho do ex-juiz Sergio Moro.

Tiro pela culatra

Não adiantou muito. No dia seguinte – terça-feira, 9 – o ministro Gilmar Mendes pautou a volta do julgamento da suspeição de Moro na condução do processo do tríplex do Guarujá. A decisão está empatada em 2 a 2, com Gilmar e Ricardo Lewandowski a entender que Moro foi além de suas atribuições legais ao analisar a ação penal e Cármem Lúcia e Edson Fachin, que votaram em 2018, contra a suspeição. O novato no STF, Kássio Nunes Marques, pediu vista porque afirmou não ter tido tempo para conhecer o caso. Mas Cármem adiantou que pode mudar seu entendimento depois de ouvir a justificativa dos votos de Gilmar e Lewandowski.

Caso Moro seja julgado suspeito ao condenar Lula na primeira instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex, a Justiça Federal do Distrito Federal, se entender que deve abrir a ação contra o ex-presidente da República, não poderá utilizar as provas incluídas por Moro na análise da ação penal. Terá de começar do zero. Até aqui, ficam indícios, cada vez mais fortes, de que Villas Bôas e Moro tentaram fazer de tudo para impedir o PT de chegar ao poder. Mas, talvez, tenham jogado sujo contra a suposta corrupção. E quem ultrapassa os limites legais para favorecer ou prejudicar alguém corre o risco de se igualar aos que tenta combater.

Aliás, o livro “Tormenta – o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos” (Companhia das Letras, 2020), da jornalista Thaís Oyama, revela que quando Villas Bôas fez as ameaças ao STF por Twitter, dois ministros cumprimentaram o então comandante do Exército pelas mensagens de pressão ao Supremo. Três anos depois, parte dos magistrados que fazem parte da Corte se incomodou bastante com o silêncio do presidente, ministro Luiz Fux, diante das revelações do general no livro publicado pela FGV. Estranho o silêncio de Fux. Logo um dos ministros que simboliza o lavajatismo e o punitivismo na mais alta instância do Judiciário brasileiro.

Villas Bôas em Bolsonaro

Sobre o pensamento de Bolsonaro a respeito de diversos assuntos, talvez o linguajar seja um pouco menos agressivo entre os generais de quatro estrelas do Exército. Mas Villas Bôas deixou escapar no livro que não tem ideias muito diferentes das defendidas pelo presidente da República. “Quanto mais igualdade de gênero, mais cresce o feminicídio; quanto mais se combate a discriminação racial, mais ela se intensifica; quanto maior o ambientalismo, mais se agride o meio ambiente.”

Paulo César Gomes: “Desde a redemocratização, Exército foi um ator político que nunca deixou de ter força”

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