Quando a intolerância nega o óbvio, todos nós perdemos

Manifestações de ódio, tentativas de anular períodos da história de um país e demonstrações de opressão ao diferente nos colocam em sinal de alerta

Foto: Learning Lark/Flickr

Augusto Diniz

“Virou modinha esses alienados dizer que aqui houve ditadura militar.” A frase anterior, retirada de um comentário feito em uma publicação no Facebook de um veículo de comunicação, não está sozinha no pensamento de muitos usuários de redes sociais no mundo virtual e nas ruas. Na mesma discussão, outra usuária escreveu: “Ditadura houve pra esquerdista guerrilheiro que adora manipular a história a seu favor e se vitimizar. De resto, todos viveram muito bem, obrigada”.

A dica a qualquer uma dessas pessoas é consultar qualquer livro ou publicação sobre o regime que esteve à frente do Executivo nacional entre 1º de abril de 1964, a partir de um golpe – apesar de alguns ainda comemorarem a tal “Revolução de 64” em 31 de março –, até 15 de março de 1985. Talvez a leitura mais adequada e didática, sem necessidade de se aprofundar tanto no estudo de historiadores, seja a publicação História do Brasil, que já está em sua 14ª edição, de Boris Fausto (2012, edUSP).

O próprio autor, que também é historiador, comentou a visão equivocada de muitos jovens que tentam negar que o Brasil viveu sim uma ditadura militar entre 1964 e 1985. Em 2001, Fausto escreveu em artigo na Folha de S.Paulo: “Quem viveu os longos anos do regime militar sabe o que significam a supressão de direitos, a censura aos órgãos de informação, o medo de arbitrariedades e da tortura que caracterizou aquele tempo. A ditadura custou vidas e sofrimento, e a redemocratização, em novas bases, abriu para o país caminhos que nem sempre se soube aproveitar”.

O discurso errado, e que tem ganhado cada vez mais coro, de que a ditadura militar nunca aconteceu em nosso País talvez também encontra uma boa explicação nas palavras do próprio historiador. “Seja como for, as gerações mais novas tomam o clima de liberdade em que vivemos hoje -falo da cidadania integrada à vida social – como um dado da natureza, e não como um ganho imenso que se deveu à sensibilidade de uma parte das elites e à mobilização da sociedade. E há também quem sonhe com um ‘governo forte’, capaz de dar um rumo ao país”, dizia Fausto há 16 anos.

Esse pensamento desconectado da realidade histórica brasileira que insiste em negar a existência da ditadura militar foi retomado com mais força a partir da declaração do cantor e compositor Mirosmar José de Camargo, o Zezé, de 55 anos, em entrevista à jornalista Leda Nagle. Zezé afirmou que o que houve no Brasil foi um “militarismo vigiado”. Ele é só mais um de muitos que negam fatos e se atrapalham na hora de explicar o que acabaram de dizer.

Entre um dos autores dos comentários usados no início deste texto, um deles tinha em seu perfil no Facebook a seguinte frase de Ronald Reagan, ex-presidente dos Estados Unidos: “O poder concentrado sempre foi o inimigo da liberdade”. Como essa pessoa pode afirmar que o período de 1965 a 1985 não deve ser definido como ditadura, pregar uma sociedade livre e ao mesmo tempo defender as ações do regime militar no Brasil?

O problema é que essa realidade de contradições em declarações que negam a obviedade não acontece apenas na tentativa de dizer que a ditadura militar é uma “invenção esquerdista”, mas está na base do pensamento dos extremismos verificados na defesa de posições políticas da direita e da esquerda radical em uma sociedade assustadoramente polarizada. E essas posturas têm gerado reações agressivas, ditatoriais e proibitivas contra exposições de arte que levantam a discussão do respeito e aceitação à diversidade e até o impedimento de que palestrantes expliquem seu posicionamento, como aconteceu este ano com uma autodeclarada antifeminista, mesmo que com argumentos fracos.

A imposição de determinado padrão moral contra aquilo que nos choca ou discordamos apenas evidencia o quanto precisamos evoluir. E não é mero acaso que os dados da Organização para a Cooperação e Desen­volvimento Econômico (OCDE) evidenciem que, em 2015, mais da metade dos adultos brasileiros, dos 24 aos 65 anos, não chegaram ao Ensino Médio e 17% da população tenha concluído a escolaridade básica, colocando o Brasil abaixo da média mundial em educação.

Some a esses dados negativos o fato de que em 2016 o total de brasileiros que não leram um livro que seja atinge a marca de 63%, de acordo com o Mapa do Lazer da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ). Ainda temos a constatação de uma realidade muito alarmante: 66% não foram ao cinema, 71% não viram um show, 89% não frequentaram qualquer teatro ou viram um espetáculo de dança e 90% não foram ao museu. Precisamos tomar cuidado para que a nossa falta de conhecimento e negação do óbvio não nos leve à um quadro educacional ainda mais preocupante, o da intolerância crônica.

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