Projeto recupera poesia escrita por mulheres em Goiás e tenta devolver ao público autoras esquecidas
05 setembro 2026 às 21h00

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Durante décadas, mulheres escreveram poemas em Goiás, publicaram textos em jornais, lançaram livros, participaram de movimentos literários e construíram trajetórias próprias na literatura. Muitas dessas produções, no entanto, permaneceram restritas a pequenos círculos, bibliotecas ou exemplares guardados por famílias. Algumas autoras chegaram a publicar livros que hoje são praticamente impossíveis de encontrar. Outras aparecem apenas em registros antigos de jornais e antologias. Há ainda aquelas que, apesar de terem produzido durante anos, simplesmente deixaram de ser lembradas nas principais narrativas sobre a literatura goiana.
É nesse território de esquecimentos que se concentra o projeto “A poesia escrita por mulheres em Goiás”, pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e desenvolvida por pesquisadores ligados à Rede de Pesquisa em Leitura e Ensino de Poesia. O trabalho resultará em uma antologia trilíngue, com poemas de dezenas de autoras, acompanhados de versões em inglês e espanhol. A publicação deverá ser distribuída gratuitamente, com prioridade para bibliotecas públicas e escolares, além de disponibilizada em formato digital.
A pesquisa nasceu de uma constatação que os próprios pesquisadores foram percebendo ao longo de trabalhos anteriores: a produção literária feminina em Goiás era muito maior do que aquela que aparecia nos livros de referência e nas antologias que ajudaram a construir a memória da literatura do Estado.
“Mais da metade” das autoras encontradas durante a pesquisa era desconhecida dos próprios pesquisadores, segundo Olliver Mariano Rosa, pesquisador do Instituto Federal de Goiás (IFG) e integrante da equipe. Para quem não é da área, a distância entre o que está registrado na história literária e o que efetivamente foi produzido pode ser ainda maior.
Entre os nomes mais conhecidos estão Cora Coralina, Leodegária de Jesus, Regina Lacerda e Yêda Schmaltz. Mas a pesquisa levou os pesquisadores a bibliotecas, jornais, antologias, dicionários e acervos em busca de outras autoras. O levantamento revelou mulheres que publicaram livros em diferentes períodos, mas cujas obras não tiveram continuidade editorial nem circulação suficiente para permanecerem no imaginário coletivo.
O trabalho também mostrou que o problema não está necessariamente na falta de produção. Em muitos casos, as mulheres estavam escrevendo. O que faltava era acesso às editoras, aos espaços de divulgação, às antologias e aos mecanismos que ajudavam uma obra a ser reconhecida como parte da literatura de seu tempo.
Uma história que começa muito antes de Cora
A trajetória da poesia escrita por mulheres em Goiás não começa com Cora Coralina. Antes dela, outras mulheres já escreviam e publicavam.

A pesquisa identifica, por exemplo, Honorata Minelvina Carneiro de Mendonça, que publicou um livro em 1875. Antes disso, ela já havia publicado textos em jornais. Um dos poemas recuperados pelo projeto foi publicado em 1867 no Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro.
A existência dessa produção ajuda a deslocar uma ideia recorrente sobre a história da literatura goiana: a de que as mulheres teriam começado a publicar apenas quando algumas autoras conquistaram maior reconhecimento no século XX.
O caso de Honorata Minelvina é particularmente simbólico porque seu livro praticamente desapareceu da circulação. Segundo os pesquisadores, o exemplar localizado está na Biblioteca Nacional de Portugal. No Brasil, não foi encontrado outro exemplar físico da obra.
A pesquisa conseguiu inclusive acesso a imagens do exemplar preservado em Portugal, que contém uma dedicatória manuscrita da própria autora. Uma reedição publicada pela Editora Kelps na década de 2010 também não foi localizada pelos pesquisadores.
“É um livro fantasma”, resume Olliver, ao explicar a dificuldade de encontrar a obra.
A situação ajuda a dimensionar o problema enfrentado pelo projeto. Não se trata apenas de descobrir nomes esquecidos, mas de reconstruir caminhos de acesso a uma produção que, em alguns casos, sobreviveu em um único exemplar.
Depois de Honorata, outro marco aparece em 1906, quando Leodegária de Jesus publicou um livro em Goiás. Ainda muito jovem, ela conseguiu chegar à publicação em um contexto em que as mulheres tinham pouca presença nos espaços intelectuais e editoriais.
Para os pesquisadores, o percurso dessas primeiras autoras também revela como fatores sociais interferiam diretamente na possibilidade de uma mulher publicar e ser reconhecida.
Em muitos casos, as primeiras mulheres a conquistar espaço intelectual estavam ligadas a famílias de prestígio ou a homens que já possuíam reconhecimento no meio literário. Isso não significa que a qualidade de suas obras dependesse dessas relações, mas que a existência de uma rede de apoio poderia determinar quem teria condições de publicar e quem permaneceria restrita ao ambiente doméstico.
A imprensa teve papel importante nesse processo.

Antes de livros individuais, muitos poemas e textos de mulheres circularam em jornais. Publicações como A Rosa e O Lar aparecem na pesquisa como registros importantes dessa produção.
Cora Coralina, por exemplo, já participava da imprensa no início do século XX. Em 1907, ela aparece entre as redatoras de A Rosa. O acervo sobrevivente do periódico é pequeno diante da quantidade de edições que teria circulado.
O Lar, por sua vez, teve mulheres na direção e publicou uma quantidade significativa de textos escritos por outras mulheres. Entre as autoras que aparecem nesses registros está Dinorah Pacca, cuja produção também se estende por décadas antes da publicação de seu livro.
Para os pesquisadores, esses jornais são uma espécie de arquivo paralelo da literatura feminina. Muitos textos que não chegaram aos livros permanecem preservados apenas nas páginas de periódicos antigos.
O que as antologias deixaram de fora
Uma das descobertas mais importantes do projeto veio da comparação com antologias que, ao longo do século XX, ajudaram a estabelecer quais escritores seriam considerados representativos da literatura goiana.
Segundo Maria Severina Guimarães, professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e integrante do projeto, a presença feminina nessas publicações é reduzida. Em algumas das principais antologias analisadas, a participação de mulheres não chega a 30%.
A questão, segundo ela, não pode ser explicada simplesmente pela existência de menos mulheres escrevendo.
A pesquisa encontrou evidências de uma produção feminina extensa. O problema estava na seleção, na divulgação e na permanência dessas autoras na memória literária.
A constatação é particularmente relevante quando se considera que algumas das antologias mais influentes foram utilizadas como referências para definir quem eram os principais poetas de Goiás.
O trabalho de Gilberto Mendonça Teles, por exemplo, foi fundamental para a organização de panoramas da poesia goiana. Posteriormente, outras antologias deram continuidade a esse processo. O problema, segundo os pesquisadores, é que a proporção entre homens e mulheres permaneceu muito desigual.
“Existe muito das poetas mulheres. Escreveram muito”, afirma Maria Severina durante a entrevista.
O fenômeno também se relaciona à própria posição da poesia dentro da literatura. A produção poética já ocupa um espaço considerado marginal em relação à prosa, especialmente quando se trata de literatura goiana. Quando o recorte passa a ser a produção feminina, a marginalização se torna ainda maior.
É uma espécie de sobreposição de invisibilidades: uma literatura produzida em um Estado historicamente periférico no circuito cultural brasileiro; um gênero literário que recebe menos atenção; e mulheres que enfrentaram ainda mais dificuldades para publicar e circular.
Cora Coralina e a construção de um fenômeno
A pesquisa não pretende diminuir a importância de Cora Coralina. Pelo contrário. A poeta é apresentada pelos pesquisadores como um fenômeno de reconhecimento e circulação.
O que o projeto procura questionar é a ideia de que a história da poesia feminina em Goiás possa ser resumida a ela.
Cora Coralina se tornou uma figura de enorme alcance popular. Sua imagem ultrapassou os limites da literatura e foi incorporada à identidade cultural da Cidade de Goiás. Ao mesmo tempo, os pesquisadores observam que existe uma diferença entre conhecer a figura de Cora e efetivamente conhecer sua obra.
Muitas pessoas conhecem frases atribuídas à autora ou trechos que circulam pela internet, mas não necessariamente leram seus livros.
A relação da poeta com as mulheres da Cidade de Goiás também é apontada como uma das razões de sua permanência. Cora colocou em seus poemas personagens que tradicionalmente ficavam fora da literatura, como lavadeiras, prostitutas e artesãs.
Maria Severina conta que presenciou essa identificação durante um trabalho realizado com mulheres da cidade. Uma artesã do barro declamava As Lavadeiras, poema de Cora, associando os versos à lembrança da própria mãe lavando roupas à beira do rio.
Nesse processo, a poesia deixou de ser apenas um texto escrito por uma autora consagrada e passou a representar a experiência de quem a lia.
A trajetória de Cora Coralina também mostra como a chancela literária pode mudar o destino de uma obra. Ao publicar seu primeiro livro pela José Olympio, uma das principais editoras brasileiras da época, a autora já alcançava um espaço editorial relevante. Ela também enviou um exemplar para Carlos Drummond de Andrade, que posteriormente escreveu sobre sua poesia no Jornal do Brasil.
Esse tipo de reconhecimento ajudou a consolidar a autora.
O problema é que nem todas tiveram acesso a esse mecanismo de legitimação.
“Quem disse que essa obra merece ser lida?”
É justamente nesse ponto que os pesquisadores identificam uma das questões centrais da pesquisa: o cânone não é construído apenas pela quantidade de obras produzidas.
Há uma rede de pessoas, instituições, editoras, críticos, professores, jornais e antologias que decide, ao longo do tempo, quais autores continuarão sendo lidos.
Para Olliver, historicamente, homens tiveram mais acesso a esse mecanismo de legitimação.
Um escritor reconhecido poderia indicar outro escritor, colocá-lo em uma antologia, escrever sobre seu trabalho ou apresentar sua obra ao público. Esse processo ajudava a estabelecer uma cadeia de reconhecimento.
As mulheres, em muitos momentos, ficaram fora dela.
Um cânone não é somente constituído por homens, mas é um homem chancelando outros homens, explica o pesquisador.
A dinâmica não desapareceu completamente. Apenas mudou de forma. Hoje, as indicações podem ocorrer nas redes sociais, por meio de influenciadores, professores, críticos ou leitores com grande alcance.
No passado, entretanto, a ausência de uma indicação podia significar algo muito mais definitivo: uma obra simplesmente deixava de circular.
Livros que existem, mas ninguém consegue ler
Um dos aspectos mais reveladores da pesquisa está nas bibliotecas.
Os pesquisadores encontraram livros de poetas que não estão disponíveis em livrarias e, muitas vezes, sequer podem ser emprestados pelas bibliotecas que os preservam.
A Estante do Escritor Goiano, mantida pelo Sesc, tornou-se uma das principais fontes de pesquisa para o grupo. O espaço reúne uma quantidade expressiva de obras da literatura produzida em Goiás.
A partir do catálogo, os pesquisadores foram atrás dos títulos. Depois, passaram a examinar os livros individualmente para procurar autoras que não estavam identificadas inicialmente.
Foi assim que surgiram vários nomes.
Em outros casos, os pesquisadores precisaram visitar diferentes bibliotecas. Entre os espaços estão a Biblioteca Cora Coralina, em Campinas, Biblioteca Marieta Telles Machado, na Praça Universitária, e a Biblioteca Pio Vargas, na Praça Cívica
O problema é que preservar não significa necessariamente garantir acesso.
Há livros que só podem ser consultados dentro da biblioteca. Alguns exemplares são únicos ou extremamente raros e, por isso, não podem ser emprestados.
A consequência é previsível: se uma pessoa não sabe que determinado livro existe, dificilmente irá até uma biblioteca específica, solicitar acesso a um acervo reservado e passar horas lendo uma obra de uma autora praticamente desconhecida.
Esses livros estão cumprindo o papel deles? Não, questiona Olliver.
Para ele, a preservação precisa estar acompanhada de circulação.
É essa constatação que ajuda a explicar por que a antologia será distribuída gratuitamente, principalmente para bibliotecas públicas e escolares.
A escola como ponto de partida
Os pesquisadores entendem que, se a intenção é mudar a percepção sobre a literatura produzida por mulheres, o caminho passa pela escola.
A literatura brasileira ensinada na educação básica já incorporou algumas escritoras. Cecília Meireles, Clarice Lispector e outras autoras aparecem nos livros didáticos. Mas, segundo os pesquisadores, a presença feminina continua pequena diante do espaço ocupado pelos homens.
No caso da poesia, o problema é ainda maior.
Cecília Meireles, Adélia Prado e Hilda Hilst são alguns dos nomes nacionais mais conhecidos, mas a lista de poetas mulheres que chegaram ao cânone continua muito menor do que a de homens.

A proposta do projeto é levar para professores e estudantes uma produção que dificilmente chegaria até eles por meio do circuito tradicional.
A antologia não será vendida. A previsão é de uma tiragem inicial de 300 exemplares, destinada prioritariamente a bibliotecas públicas e escolares. Parte dos livros deverá ser entregue também às famílias das autoras que autorizarem a publicação.
Os pesquisadores já dialogaram com o Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, responsável por iniciativas de formação de professores da Rede Estadual de Educação, para que a obra possa ser utilizada como referência em atividades de formação.
Também está prevista a disponibilização do conteúdo em formato digital.
A intenção é que o e-book possa ser acessado gratuitamente e que o arquivo circule amplamente. A obra deverá ser disponibilizada em plataformas que já trabalham com livros de autores goianos, como a Biblioteca do Futuro.
Nesse caso, a circulação livre do arquivo faz parte da própria proposta.
Uma antologia de 1,2 mil páginas
O resultado da pesquisa cresceu muito além do que os pesquisadores imaginavam inicialmente.
A antologia deverá ter aproximadamente 1,2 mil páginas e o número de poemas ultrapassa 150.
A quantidade de textos varia conforme a produção e o acesso às obras. Em geral, foram selecionados de um a três poemas por autora. Algumas, com produção mais extensa e disponibilidade maior de livros, aparecem com quatro textos.
Mas chegar a essa seleção não foi simples.
Os pesquisadores precisaram ler uma grande quantidade de livros e estabelecer critérios de escolha. A qualidade estética foi um deles.
Em vez de simplesmente reproduzir uma lista de autoras que publicaram livros, o grupo procurou selecionar poemas que considerasse relevantes do ponto de vista literário.
“É difícil isso. Porque a seleção faz sempre um juízo de valor”, reconhece Maria Severina.
Olliver explica que, diante da impossibilidade de estabelecer uma fórmula objetiva para medir a qualidade de um poema, os pesquisadores recorreram também à própria experiência de leitura.
O critério passou pela capacidade de o poema provocar uma reação no leitor, construir um mundo próprio e produzir uma experiência estética.
O processo levou a situações em que os pesquisadores precisaram ler vários livros de uma mesma autora para escolher apenas dois ou três poemas.
Também houve casos em que eles tiveram acesso a apenas um livro de determinada poeta, embora soubessem que ela havia publicado outros.
Isso significa que a antologia, apesar de extensa, não pretende ser definitiva.
Pelo contrário: os pesquisadores reconhecem que o levantamento ainda está incompleto.
A descoberta de novas autoras
Entre os nomes que chamaram a atenção da equipe estão autoras de diferentes gerações.
Algumas já eram conhecidas, enquanto outras apareceram pela primeira vez para os próprios pesquisadores durante a investigação.
Angélica Torres Lima, por exemplo, surgiu a partir do levantamento de obras indicadas em referências bibliográficas. A autora possui livros publicados, mas os pesquisadores encontraram dificuldades para localizar sua produção.
Outras descobertas ocorreram a partir da consulta direta aos acervos.
Runi Silva também chamou atenção por uma característica incomum de sua obra. Um de seus livros, publicado na década de 1970, possui uma concepção próxima do livro-objeto, reunindo elementos gráficos e artísticos que fazem da própria materialidade da publicação parte da experiência literária.
Tê Maria também aparece entre as poetas que impressionaram os pesquisadores pela qualidade da produção contemporânea.
Há ainda o caso de Lourdes Teodoro, autora negra nascida em Goiás e que foi professora da Universidade de Brasília (UnB). Apesar de possuir uma trajetória acadêmica e literária relevante, sua produção era desconhecida até mesmo por Maria Severina, que se dedicou durante anos à pesquisa de obras de mulheres.
O caso de Lourdes Toedoro é representativo do problema que o projeto encontrou repetidamente: autoras que produziram, publicaram e construíram trajetórias importantes, mas que não chegaram aos espaços de maior circulação da literatura.
O recorte racial
A pesquisa também revelou outra lacuna: a quantidade reduzida de mulheres negras na produção encontrada e, principalmente, naquilo que conseguiu alcançar maior circulação.
Os pesquisadores identificaram poetas negras entre as autoras selecionadas, mas reconhecem que essa presença ainda é pequena.
Um dos casos que chamou atenção da equipe envolve uma poeta contemporânea que possui um livro dedicado à temática dos orixás. A obra foi localizada na biblioteca do Sesc e apresenta uma perspectiva sobre a cultura afro-brasileira que, segundo os pesquisadores, dificilmente aparece no restante do levantamento.
O desafio dos direitos autorais
A equipe selecionou os poemas, iniciou as traduções e agora precisa garantir que todas as autorizações estejam em ordem para que o livro possa ser publicado.
No caso de autoras vivas, a autorização precisa ser obtida diretamente. Para aquelas que morreram, é necessário localizar familiares e herdeiros.
O problema é que, em alguns casos, até mesmo a família desconhece a trajetória literária da autora.
Os pesquisadores relatam situações em que filhos, netos ou outros parentes precisam ser procurados para descobrir quem foi a escritora e onde estão seus descendentes.
A dificuldade aumenta conforme o tempo passa.
Uma poeta que morreu há décadas pode ter deixado filhos que também já morreram, fazendo com que os direitos estejam hoje com netos ou outros familiares.
Há também situações em que a autora é muito idosa e não está acostumada a lidar com documentos digitais. Nesses casos, os pesquisadores podem precisar ir pessoalmente até a casa da poeta para explicar o projeto e colher a autorização.
“Não estamos querendo roubar nada de ninguém”, resume Olliver ao descrever a preocupação da equipe em explicar o caráter não comercial da publicação.
A antologia será distribuída gratuitamente. O objetivo é divulgar as obras, não gerar receita.
Mesmo assim, o processo exige cuidado jurídico e, sobretudo, diálogo com as famílias.
Algumas autoras já deram autorização. Outras ainda precisam ser localizadas.
A equipe chegou a pedir ajuda a escritoras, entidades e pessoas que participaram da cena literária goiana nas últimas décadas. A União Brasileira de Escritores (UBE) foi procurada porque algumas autoras tiveram ligação com a entidade.
O escritor Bento Fleury também colaborou fornecendo informações sobre várias poetas e seus familiares.
No IFG, dois estudantes do curso de Letras passaram a ajudar na busca por contatos.
A equipe também espera que a própria divulgação da pesquisa ajude a localizar pessoas que possam contribuir com informações.
75 tradutores para uma literatura que quase não circula
Enquanto os pesquisadores procuram autorizações, outra frente do projeto já está em andamento. A antologia será trilíngue: os poemas aparecerão em português, inglês e espanhol.
Para realizar esse trabalho, os pesquisadores lançaram uma chamada pública e conseguiram reunir 75 tradutores voluntários de diferentes partes do Brasil.
Há estudantes de cursos de tradução, pesquisadores de pós-graduação, professores e tradutores profissionais.
Alguns estão vinculados a instituições de ensino superior. Entre os colaboradores estão pessoas ligadas à UnB e a universidades de diferentes estados.
A proposta também criou uma situação curiosa: pessoas que nunca ouviram falar das poetas goianas passaram a conhecer e discutir suas obras enquanto trabalhavam nas traduções.
Traduzir poesia, porém, é uma tarefa especialmente complexa.
Não basta transportar palavras de uma língua para outra. Ritmo, imagens, sonoridade, ambiguidades e sentidos precisam ser considerados.
O projeto conta ainda com três colaboradoras responsáveis pela revisão das traduções.
Cada tradutor deverá ser identificado no livro, com informações sobre sua formação e atuação.
Assim, a antologia acaba reunindo duas redes que normalmente não se encontrariam: uma rede de mulheres poetas cuja produção foi pouco difundida e uma rede de tradutores espalhados pelo país que agora trabalham para levar esses textos a outros idiomas.
O projeto nasceu de uma pesquisa anterior
A iniciativa atual não surgiu isoladamente. A Rede de Pesquisa em Leitura e Ensino de Poesia existe desde 2007. Ela foi criada a partir de um edital da Fapeg voltado à formação de redes goianas de pesquisa.
Em 2011, o grupo desenvolveu uma investigação especificamente relacionada à literatura goiana.
Foi durante esse trabalho que os pesquisadores começaram a perceber a diferença entre a produção literária existente e a presença efetiva de homens e mulheres nas obras de referência.
A constatação levou, em 2024, à elaboração do projeto “A poesia escrita por mulheres em Goiás”.
A proposta é também uma extensão natural da preocupação da rede com o ensino da poesia.
Para os pesquisadores, a poesia ainda encontra resistência na escola porque exige uma leitura mais atenta e uma mediação capaz de ajudar o estudante a compreender o texto.
Por isso, uma produção que já é pouco conhecida acaba enfrentando uma segunda barreira: a dificuldade de chegar à sala de aula.
A pesquisa tenta atacar as duas questões simultaneamente, recuperando obras e criando condições para que elas sejam lidas.
Um livro que também guarda memórias pessoais
Além dos estudos críticos e da antologia, o projeto terá uma seção chamada “Escritas de Si”.
Nela, poetas foram convidadas a escrever sobre suas próprias trajetórias, sobre a relação com a poesia e sobre a experiência de serem mulheres escritoras.
São autoras de diferentes gerações.
Entre elas estão Darcy França Denófrio, Edir Guerra Malagoni, Lêda Selma, Maria Helena Chein, Lourdes Teodoro, Dheyne de Souza, Thaíse Monteiro, Kamilly Barros, Tarsilla Couto, Yani Rebouças, entre outras.

A proposta produziu depoimentos que não estavam disponíveis em outros lugares. Em alguns casos, as autoras escreveram diretamente. Em outros, o trabalho precisou ser adaptado à condição de cada poeta.
Edir Guerra Malagoni, por exemplo, teve sua fala registrada em áudio e posteriormente transcrita para o projeto. No caso de Darcy França Denófrio, o material foi produzido com ajuda do neto.
A participação dessas autoras ganha um peso especial porque algumas são idosas e já não produzem com a mesma frequência.
Para os pesquisadores, preservar esses relatos significa registrar não apenas a obra, mas também a memória de quem escreveu.
Uma pesquisa que pode levar uma década
Apesar do cronograma estabelecido, Olliver e Maria Severina reconhecem que o levantamento é muito maior do que o tempo disponível.
O projeto recebeu R$ 50 mil da Fapeg. Desse total, R$ 23 mil haviam sido inicialmente destinados à produção do livro. O restante contempla outras despesas, inclusive deslocamentos dos pesquisadores.
O grupo pretendia inicialmente publicar dois volumes, mas o edital prevê apenas um livro. O resultado será uma obra de aproximadamente 1,2 mil páginas.
A equipe tentou adequar o projeto ao orçamento disponível, mas encontrou dificuldades para conseguir uma editora que produzisse um volume desse tamanho pelo valor previsto.
A publicação em um único volume também cria um problema prático: um livro de 1,2 mil páginas é difícil de manusear, especialmente para estudantes.
Para os pesquisadores, dois volumes seriam mais adequados, mas, neste momento, a publicação de um único livro é o caminho possível dentro das regras do financiamento.
A Fapeg também não concedeu a prorrogação solicitada pela equipe. Isso aumentou a pressão sobre os pesquisadores, que precisam concluir simultaneamente seleção, revisão, tradução, autorização de direitos e preparação editorial.
O projeto é conduzido por quatro pesquisadores principais: Olliver Robson Mariano Rosa, Maria Severina Guimarães, Nismária Alves David e Mariana Castelo Branco Rabelo, além de colaboradores.
A maior parte da curadoria da antologia ficou concentrada em Olliver e Maria Severina.

Ambos conciliam a pesquisa com suas atividades profissionais. Maria Severina trabalha 40 horas semanais na UEG; Olliver, 40 horas no IFG.
O que vem depois
Mesmo antes de terminar a antologia, os pesquisadores já conseguem identificar possíveis desdobramentos.
A primeira etapa é fazer com que as obras recuperadas voltem a circular. A segunda é estimular novas pesquisas.
Muitas das autoras descobertas durante o levantamento aparecerão apenas na antologia. Não há, ainda, estudos críticos dedicados a elas.
O próprio grupo pretende, em um eventual desdobramento, voltar aos livros dessas escritoras e estudá-los com mais profundidade.
A ideia é que a antologia seja apenas uma porta de entrada.
Ao encontrar um poema e se interessar pela autora, o leitor poderá procurar outros livros. Um pesquisador poderá descobrir um objeto de estudo. Uma editora poderá identificar uma obra que merece ser reeditada.
Esse processo já acontece com algumas autoras.
Leodegária de Jesus, por exemplo, teve sua produção recuperada e estudada ao longo das últimas décadas, inclusive por Darcy França Denófrio. Mais recentemente, seus livros voltaram a circular por meio de novas edições.

O mesmo poderia acontecer com outras escritoras, avaliam os pesquisadores.
Há hoje editoras independentes e iniciativas editoriais em Goiás dedicadas à publicação de autores goianos. A existência de uma pesquisa que identifique essas obras pode ajudar a criar uma ponte entre as autoras esquecidas e o mercado editorial.
Uma história ainda incompleta
A lista reunida pelo projeto inclui nomes de diferentes épocas e estilos:
- Ada Ciocci Curado
- Alcione Guimarães
- Alice Spíndola
- Alma Marinoni
- Ana Cárita Margarida Figuerêdo
- Ângela Torres Lima
- Augusta de Godoi C Machado,
- Augusta Faro Fleury de Melo
- Belinha Neves
- Beta(mx)reis
- Cássia Fernandes
- Cecília Mello
- Célia Maria Ribeiro
- Claudia Carvalho Machado
- Cleicy Rita de Carvalho
- Clêudia Antônia Barbosa e Silva
- Conceição Cunha
- Cora Coralina
- Darcy França Denófrio
- Denise Godoy
- Dheyne de Souza
- Dina Cogolli
- Dinorah Pacca
- Diva Goulart
- Divina F. Nunes
- Edir Guerra Malagoni
- Fernanda Cruz
- Fernanda Ribeiro Marra
- Gabriela Azeredo Santos
- Getulina Pimentel
- Gilka Bessa
- Guiomar de Grammont Machado
- Heloísa Helena Campos Borges
- Honorata Minelvina Carneiro de Mendonça
- Júnia Magalhães
- Kamilly Barros
- Laura Chaer
- Lêda Selma
- Leodegária de Jesus
- Lia Sanford Werner
- Lieda Sobrosa Mesquita Monsores
- Lívia de Carvalho
- Lourdes Maria Frazão de Moraes
- Lourdes Teodoro
- Lucia Rios Peixoto da Silveira
- Luzia de Oliveira Sá
- Lygia de Moura Rassi
- Maria Abadia Silva
- Maria Amélia Trindade
- Maria Helena Chein
- Maria Lúcia Felix
- Maria Luísa Ribeiro
- Marilda Palínia
- Marilda de Godoi Carvalho
- Mariza de Castro
- Micheline Lage
- Neusa Peres
- Ornelina Ornelas
- Oscarlina Alves Pinto
- Raquel Rocha
- Regina Lacerda
- Rosane Mary Zacharias
- Runi Silva
- Ruth Vieira Diniz
- Silvia Nascimento
- Simone Cristina
- Sinvaline Pinheiro
- Sônia Elizabeth
- Sônia M. Ferreira
- Sônia Maria Santos
- Tarsilla Couto de Brito
- Tê Maria
- Telma Romão Maia
- Tereza Godoy
- Terezy Fleury de Godoi
- Thaíse Monteiro
- Vera Americano
- Vilda Guerra Fernandes
- Violeta Metran Curado
- Yani Rebouças
- Yêda Schmaltz
- Zina Brill
- Zulma Bessa.
Ajude
Nem todas as obras dessas autoras estarão necessariamente na versão final da antologia. A pesquisa ainda depende da conclusão das autorizações e da avaliação do material disponível.
Caso algum leitor conheça alguma das poetas ou tenha contato com seus familiares, pode ajudar os pesquisadores por meio dos seguintes canais:
E-mail: redep.poesia@gmail.com
Instagram: @rede.poesia
WhatsApp: (62) 98172-1877
O projeto não pretende dizer que encontrou todas as poetas que escreveram em Goiás. Os pesquisadores sabem que ainda existem livros, poemas, jornais e acervos esperando por alguém disposto a procurá-los.
Em alguns casos, talvez o único registro esteja em uma biblioteca. Em outros, em um jornal centenário. Pode ser que o livro esteja na casa de um familiar ou perdido em alguma coleção particular.
O que a pesquisa demonstra é que a ausência dessas mulheres dos livros de história não significa que elas não tenham existido. Elas estavam escrevendo.
Algumas publicaram muito. Outras publicaram apenas uma vez. Algumas tiveram reconhecimento durante a vida. Outras foram lembradas por poucos leitores. Algumas deixaram filhos e netos que preservaram suas obras. Outras deixaram apenas um livro em uma biblioteca distante.
A diferença entre ser lembrada e desaparecer, em muitos desses casos, pode estar justamente no acesso.
Por isso, a antologia pretende fazer mais do que reunir poemas. Ela tenta interromper o ciclo que começa quando um livro deixa de ser reeditado, passa a existir apenas em uma biblioteca, deixa de ser lido, não entra nas antologias seguintes e, finalmente, desaparece da memória.
A intenção dos pesquisadores é que o movimento seja o contrário: encontrar, publicar, traduzir, distribuir e provocar novas leituras.
“Não adianta a gente produzir pesquisa para não ser livro”, resume Olliver.
A expectativa é que, ao chegar às escolas, bibliotecas e plataformas digitais, a produção dessas mulheres deixe de depender exclusivamente de pesquisadores dispostos a procurar exemplares raros.
E que, a partir da leitura de um poema, novas perguntas apareçam.
Quem foi essa autora? O que mais ela escreveu? Por que seu livro desapareceu? Por que seu nome não aparece nos manuais? Quem decidiu que ela não deveria ser lida?
Talvez a principal contribuição da pesquisa esteja justamente aí: mostrar que a história da literatura não está encerrada nos livros que sobreviveram ao tempo. Ela também está nas obras que ficaram pelo caminho — e nas mulheres que, apesar das dificuldades, continuaram escrevendo.
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