Produtores goianos lamentam quebra na “safrinha” que pode chegar a 35% da colheita

Agronegócio ainda contesta decreto que, segundo a Faeg, cria “reserva de mercado” para indústrias processadoras em Goiás

Produção de milho na safra de inverno vai perder 35% de seu potencial de colheita, o que significa 3 milhões de toneladas a menos de grãos | Foto: Karine Viana/ Palácio Piratini

Produção de milho na safra de inverno vai perder 35% de seu potencial de colheita, o que significa 3 milhões de toneladas a menos de grãos | Foto: Karine Viana/ Palácio Piratini

Elder Dias

O setor do agronegócio em Goiás já se prepara para o que será a maior quebra da segunda safra — a chamada “safrinha” — da história: da previsão inicial de colheita de 8,5 milhões de toneladas de milho, cerca de 3 milhões serão perdidas. É um montante considerável: 35% da produção. Ou seja, de cada três sacos de milho, pelo menos um deixará de ser colhido. O motivo foi o regime de chuvas e as áreas mais afetadas, o Sudeste e o Sudoeste goiano.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner, disse que o quadro é preocupante, embora ainda inconcluso. “Vários municípios estão em estado de emergência ou vão ter de entrar, porque o que ocorre é um desastre para suas economias”, explica.

Investir na safrinha é, para o agricultor, um risco calculado, por conta exatamente da questão climática. Até anos atrás, a safra de inverno era uma complementação de renda, mas, principalmente por conta do aumento do cultivo do milho, ela ganhou muita importância. Para ter ideia, segundo o superintendente executivo de Agri­cultura da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Científico e Tecnológico e de Agricultura, Pecuária e Irrigação (SED), Antônio Flávio Camilo de Lima, em 2015, na safra de verão (a tradicional) foram colhidos em Goiás 1,7 milhão de toneladas de milho, ante 7,7 milhões na safrinha do mesmo ano. Uma diferença de 6 milhões de toneladas — o que não é um valor nada desprezível.

José Mário Schreiner, da Faeg: “Desastre na safrinha” | Foto: Alexandre Cerqueira

José Mário Schreiner, da Faeg: “Desastre na safrinha” | Foto: Alexandre Cerqueira

“Há uma aposta no regime de chuvas. Uns plantam mais cedo, outros um pouco depois. Só que o ‘corte’ de chuvas foi bem antecipado este ano”, lembrou o superintendente. De fato, o mês de abril foi praticamente sem chuvas no Estado, menos até do que costuma ocorrer em maio. Para o presidente da Faeg, falta um seguro mais eficiente por parte do governo federal, com o que concorda o integrante da SEC. “É preciso estudar mais medidas com o governo federal e com as instituições financeiras para dar segurança ao produtor”, diz Antônio Flávio.

De fato, há hoje uma realidade bem diferente da época em que a prioridade da safrinha era o sorgo. Menos rentável, a planta — utilizado como ração animal, mas que já se mostra, atualmente, com potencial para servir à indústria de cereais para alimentação humana — é mais resistente às intempéries. Isso ocasiona um risco menor de quebra em caso de descompensação do regime de chuvas.

Reserva de mercado

Uma “bola dividida” entre o setor primário e o secundário. Foi assim que caiu sobre a economia goiana o decreto estadual nº 8.548/16, que visa alterar o modelo de apuração e cobrança de ICMS sobre soja e milho em Goiás. Colocado em vigor em janeiro, foi suspenso já no fim de fevereiro, por causa dos muitos protestos dos agricultores, que logo acusaram queda nos preços internos da soja. “Pela diferença de preço pago a menos, de 3 a 4 reais por saco, temos um prejuízo total que pode chegar a R$ 700 milhões”, estima o presidente da Faeg.

Com a medida, o governo teve como finalidade manter o abastecimento das indústrias processadoras em Goiás, que alegavam ter de importar matéria-prima de outras unidades federativas. O setor do agronegócio, porém, tachou o decreto como uma espécie de reserva de mercado a favor das indústrias. “Querem fazer uma reserva de mercado para a indústria, só que elas já têm seus próprios incentivos. Nós, não. Fazer algo assim não é cabível. Se as indústrias quiserem o produto, tem de fomentar a produção, mas não se beneficiar de artimanhas fiscais”, diz José Mário Schreiner.

O problema se dá especialmente porque o agronegócio usa bastante do mecanismo das “tradings”, empresas comerciais especializadas em atuar como intermediárias entre produtores e destinatários. Negociar por meio de uma trading é a garantia da comercialização dos grãos de acordo com as necessidades e condições do mercado. O problema é que qualquer instabilidade faz com que o preço a ser pago por essas empresas caia no mercado. É o que, alega a Faeg, ocorreu após o decreto do governo entrar em vigor e que continua tendo efeitos mesmo meses após a medida ter sido suspensa. “Ainda estamos vendendo soja por um valor menor em Rio Verde do que em Rondonópolis (MT), mesmo que nossa condição logística seja muito mais favorável”, explica José Mário Schreiner.

Antônio Flávio: “Seguro agrícola precisa de mais recursos federais”  | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Antônio Flávio, da SED: “É preciso estudar medidas” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Antônio Flávio, da SED, diz que o desejo do governo é “conciliar os interesses de agricultura e da indústria”. “Represento o setor da agricultura e temos o entendimento de que os produtores não pode ser prejudicada. Estamos em contato com a Faeg para buscar um meio termo que sirva de acordo”, diz. Para tanto, a SEC pediu, tanto ao setor do agronegócio como às representantes da indústria, notas técnicas explicativas. Com essas informações, a expectativa é de buscar a melhor decisão possível para os dois lados. “A Faeg já tem a norma técnica, vamos buscar o ajuste com o secretário [Thiago Peixoto]. A coisa vai ficar mais clara e mais fácil de ser entendida. O que não pode acontecer, de forma alguma, é o Estado correr o risco de deixar de ser competitivo”, finalizou.

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