Por que o governador vai tanto a Brasília?

A exata compreensão das relações do pacto federativo brasileiro, e principalmente as suas limitações e dependências, fazem do governador de Goiás habitué dos ambientes ministeriais

Michel Temer recebe governadores no Palácio do Planalto: acordo na dívida para aliviar caixa dos Estados por causa da crise econômica foi encampada por Marconi | Foto: Lailson Damásio

Michel Temer recebe governadores no Palácio do Planalto: acordo na dívida para aliviar caixa dos Estados por causa da crise econômica foi encampada por Marconi | Foto: Lailson Damásio

Afonso Lopes

O ano é 2003. O governador Marconi Perillo, perdido no meio de uma multidão no Pa­lá­cio do Planalto, é destacado no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As câmeras de TV correm o salão atrás de uma das poucas pessoas das muitas ali presentes nominadas pelo novo presidente do Brasil. Lula diz que Marconi era o verdadeiro autor da ideia do Bolsa Família.

O ano é 2011. O governador Marconi Perillo é visto com frequência rondando os ambientes palacianos, mas jamais atinge o famoso e poderoso gabinete presidencial. Perambula nos ministérios, despacha com alguns ministros do Palácio, mas a presidente Dilma Roussef se mantinha arredia, sem jamais conceder uma só audiência para o governador de Goiás. Ficava a impressão que a rixa política de Lula com Marconi havia contaminado Dilma também.

Pois se água mole em pedra dura, diz o ditado, quebra a dureza da pedra, Marconi não se incomodou com o fato inequívoco de que era recebido com má vontade. O governador tanto insistiu, tanto tentou, tanto foi atrás que a rocha fria cedeu: Dilma não apenas passou a receber Marconi no Palácio como aceitar parcerias administrativas que trouxeram benefícios para os goianos. E ele soube retribuir, inclusive com certa dose de relacionamento político. Mesmo com alguns líderes do PSDB defendendo o impeachment da presidente em meados de 2015, Marconi fez declarações contra a iniciativa. Manteve-se nessa posição até que todas as circunstâncias exigiram dele uma nova postura.

O ano é 2016. Michel Temer assume a Presidência interinamente após a abertura de processo de impeachment pelo Senado. Desde então, Marconi Perillo não se distancia dos gabinetes mais poderosos da República. Está zanzando por lá o tempo todo, e agora não mais levando as demandas apenas do Estado, mas também do chamado consórcio do Centro-Oeste, que reune os governadores da região, além de mais alguns da região Norte do Brasil. Fala em nome do grupo e com farto respaldo de todo o grupo. Já se encontrou com vários ministros, inclusive com o mais poderoso de todos eles, Henrique Meirelles, o homem que tem a difícil tarefa de apontar um rumo para a combalida economia do país.

Seria o caso aqui de se questionar por que, afinal, Marconi Perillo tem esse tipo de comportamento? A explicação é resultado de sua grande experiência após três mandatos completos à frente do governo do Estado. Ele conseguiu não apenas compreender a exata dimensão do pacto federativo que se vive hoje no país, e suas limitações para os Estados enquanto governabilidade. Em linhas gerais, as administrações regionais conseguem apenas sobreviver. É em Brasília, com habilidade e convivência política, e com projetos prontos e acabados que se encontra recursos suficientes para atender ao menos parte das imensas e infindáveis demandas sociais e estruturais dos Estados.

Em nível municipal, pelo menos no Estado de Goiás, é possível constatar a importância dessa pacificação política e boa relação administrativa entre os prefeitos e o governo. Em Aparecida de Goiânia, o também muito experiente Maguito Vilela contrariou seu partido, o PMDB, as grandes lideranças internas e foi o primeiro prefeito eleito por um partido oposicionista a pedir, e obter, audiência com governador Marconi Perillo em janeiro de 2011. Ele dizia que governo não faz oposição a governo. Não faz mesmo, mas pode ir muito além da mera posição oposicionista, pode se tornar um parceiro no campo administrativo, o que resulta necessariamente numa harmonia que tem como desejável efeito imediato ou não a melhoria das condições de vida das populações diretamente envolvidas.

No exato oposto pode ser citado o prefeito de Goiânia Paulo Garcia, que amarrado por interesses dentro de sua coligação governista, se viu na obrigação de rejeitar todos os acenos de boa convivência com o Palácio das Esmeraldas. O resultado desse isolamento foi terrível. Sem o apoio estadual, precisou enfrentar dificuldades cotidianas sozinho, e isso foi muito ruim como resultado administrativo e para a imagem do governo de Goiânia perante a população. Após ser abandonado pelos antigos companheiros que o constrangeram na relação administrativa respeitosa e construtiva com o governo estadual, o próprio Paulo Garcia admitiu publicamente que o conflito entre os Palácios foi muito ruim para todos os goianienses.

A principal razão para que os posicionamentos políticos-partidários sejam colocados em segundo plano quando está em jogo a questão administrativa é a divisão do imenso bolo tributário no país. Estados e municípios ficam praticamente com todas as obrigações cotidianas e 25% e 5% dos tributos respectivamente. Isso é suficiente para o “arroz com feijão aguado”. Qualquer coisinha a mais nesse prato básico precisa dos 70% do bolo orçamentário que vai parar em Brasília.

Administradores que entendem esse jogo e, principalmente, sabem como jogá-lo, são naturalmente diferenciados em relação aos equivocados herdeiros da política de tempos remotos. O resto, além disso, é somente arroubo.

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