Por que 25% dos que fazem cirurgia bariátrica voltam a ganhar muito peso?

Um quarto dos pacientes que são submetidos à operação de redução do estômago tem reganho de gordura. Obesidade já atinge metade da população brasileira e o mal se tornou questão de saúde pública na Europa e nos Estados Unidos

Obesidade tornou-se um problema de saúde pública e mais de 50% da população brasileira é de obsesos

Obesidade tornou-se um problema de saúde pública e mais de 50% da população brasileira é de obsesos

Frederico Vitor

A obesidade tem aumentado de forma contínua e drástica no Brasil. Atual­mente, cerca de 50% dos brasileiros estão acima do peso, segundo pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Te­lefônico (Vigitel 2013), do Ministério da Saúde. O problema é tão grave que, caso algo não seja feito, em dez anos, o País pode ter números semelhantes aos dos Estados Unidos, o país mais obeso do mundo. O crescimento da população brasileira obesa é a causa do surgimento elevado na população de doenças como diabetes, hipertensão e câncer.

Para muitas pessoas que convivem com a obesidade, a dieta equilibrada, os remédios ou exercícios físicos já não são suficientes para alcançar o corpo magro e saudável. Para elas, o indicado é a cirurgia bariátrica ou redução do estômago, como é popularmente conhecido esse processo. Contudo, ocorre que cerca de 25% dos obesos que são submetidos a este procedimento cirúrgico reganham peso e podem ter indicação para uma nova operação, aumentando os riscos de complicações pós-cirúrgicas. A principal delas é a fístula, o rompimento dos grampos usados na redução do estômago.

A reoperação, em geral, visa aumentar ou restabelecer a restrição gástrica perdida. Pode-se utilizar, por exemplo, um anel no estômago para controlar a quantidade de alimentos ingeridos. O Brasil é o segundo em cirurgias bariátricas, com 80 mil procedimentos, sendo 10% na rede pública, atrás dos Estados Unidos, com cerca de 140 mil procedimentos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Para se ter uma ideia, o número de procedimentos cresceu 90% nos últimos cinco anos e 300% em dez anos.

A cirurgia bariátrica não tem indicação como tratamento estético e sim para melhora de doenças e qualidade de vida. Deve ser recomendada para pessoas com obesidade mórbida, ou seja, as que têm pelo menos 40 quilos a mais que o normal, ou doenças graves como diabetes, hipertensão, apneia do sono e doenças ortopédicas. Mas nada adianta reduzir o estômago se não houver mudanças dos hábitos alimentares e do estilo de vida. É preciso largar vícios antigos e adotar uma disciplina alimentar e de atividades físicas.

Justamente a não adoção de um novo estilo de vida, dietas inadequadas com ingestão de alimentos calóricos ricos em açúcar são os principais motivos do reganho de peso dos recém-operados. Os pacientes precisam aderir a um programa multidisciplinar, com auxílio de nutricionista e psicólogos. Caso contrário, a cirurgia bariátrica é em vão, o estômago volta a dilatar, o operado torna a registrar altas taxas de ganho de peso que trazem com elas várias complicações de saúde, como pressão alta, diabetes e danos cardíacos.

Segundo os especialistas, após o paciente ser submetido à operação de redução do estômago é esperado no curto prazo o ganho de até 10% do peso perdido na cirurgia bariátrica. Se um paciente perdeu 50 quilos, por exemplo, é natural que ela ganhe 5 quilos. O problema existe quando o reganho de peso é maior, ou seja, chegando a 30% ou mais. Mas se o paciente seguir a risca as recomendações pós-cirúrgicas, os resultados como melhora da autoestima, do convívio social, a possibilidade de realização de atividade física e a manutenção do peso vêm naturalmente.

Apesar de a obesidade estar relacionada a fatores genéticos, há importante influência significativa do sedentarismo e de padrões alimentares inadequados no aumento dos índices brasileiros. Forte aliado na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, o consumo de frutas e hortaliças está sendo deixado de lado por uma boa parte da população, que está ingerindo mais alimentos calóricos. Apenas 22,7% ingerem diariamente a porção certa de alimentos saudáveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Outro indicador que preocupa é o consumo excessivo de gordura saturada: 31,5% da população não dispensam a carne gordurosa e mais da metade (53,8%) consome leite integral regularmente. Os refrigerantes também têm consumidores fiéis, cerca de 25% tomam esse tipo de bebida ao menos cinco vezes por semana.

Não há consenso na literatura médica internacional sobre o reganho de peso

Josemberg Campos: “Operados precisam adotar novos hábitos” | Foto: jcristinarec.blogspot.com

Josemberg Campos: “Operados precisam adotar novos hábitos” | Foto: jcristinarec.blogspot.com

De acordo com o presidente da SBCBM, o médico cirurgião Josemberg Marins Campos, ainda não há consenso na literatura médica internacional sobre a definição de reganho e perda de peso insuficiente. Segundo ele, isto pode levar a uma grande variação dos índices, considerando os diversos fatores envolvidos no controle do peso do paciente em longo prazo. É importante ressaltar que os pacientes que apresentam adequado acompanhamento após a cirurgia alcançam resultados bastante positivos, havendo controle das doenças associadas.

Josemberg Campos afirma que quando o paciente não adota hábitos saudáveis, que foram orientados desde antes da operação, podem ocorrer problemas relacionados ao aumento do peso pós-cirúrgico. Segundo ele, para minimizar situações desse tipo deve ser ressaltado o importante papel do preparo e acompanhamento multidisciplinar nos resultados da cirurgia.Todos pacientes devem ser orientados antes do procedimento à necessidade de ajustes alimentares, suplementação e acompanhamento para evitar os problemas de absorção e carência nutricional. “O acompanhamento psicológico é muito importante para o sucesso da cirurgia e deve ser sempre preventivo e educativo.”

Áureo Ludovico: “Obesidade tornou-se problema mundial” | Foto: Fernando Leite/jornal Opção

Áureo Ludovico: “Obesidade tornou-se problema mundial” | Foto: Fernando Leite/jornal Opção

Segundo o médico goiano Áureo Ludovico de Paula, um dos criadores de uma técnica de redução do estômago, chamada gastrectomia vertical com interposição de íleo — à qual o apresentador de televisão Fausto Silva e o ex-senador Demóstenes Torres foram submetidos —, diz que o reganho de peso se dá por problemas relativos. Segundo ele, tão importante quando a cirurgia em si é a preparação psicológica do paciente. “Não se pode operar sem outros apoios, é necessário um elenco de coisas que deem resultados.”

Áureo Ludovico informa que recentemente participou de um congresso de Medicina em Londres e conta que as autoridades de saúde da Europa já consideram o problema da obesidade como questão de saúde pública. “A obesidade é uma realidade de nível mundial”, diz. Sobre a cirurgia bariátrica, lembra que seu resultado depende de vários fatores que, segundo ele, “há uma clara limitação, ou seja, a cirurgia em si, sem outros acompanhamentos, quase nunca alcança 100% de resultado.”

Avaliação psicológica é tão importante quanto o procedimento cirúrgico

Wadson Arantes: “Procedimento não pode ser apenas estético”­­­­ | Foto: CRM

Wadson Arantes: “Procedimento não pode ser apenas estético”­­­­ | Foto: CRM

Obesidade é um fator plural, não se trata apenas de dieta e exercícios físicos. Há casos não raros de pessoas que recorrem à cirurgia bariátrica por motivações puramente estéticas, em detrimento do quadro de saúde. Existem pacientes que aumentaram o próprio peso, propositalmente, apenas com o objetivo de estar dentro dos parâmetros necessários para que o SUS possa bancar o procedimento. Porém, quaisquer que sejam as motivações, o indivíduo que for para uma sala de cirurgia para reduzir o estômago precisa, primeiramente, condicionar-se psicologicamente, pois há um longo processo pela frente, que muitas vezes é de dor e perda.

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Psicologia 9ª Região (CRP-09), Wadson Arantes Gomes, uma avaliação psicológica é fundamental para a análise de vários fatores que levam o paciente ao reganho de peso. Depois de ser operado é comum que o indivíduo entre em um difícil processo de adaptação. Porém, se ele não conseguir resolver os fatores alimentares, a probabilidade do reganho de massa corpórea é alto. “É importante fazer uma reflexão para o fato de que a cirurgia bariátrica está sendo requisitada mais por questão estética do que de saúde, e isso é preocupante”, diz.

Outra questão importante levantada por Wadson Arantes é em relação ao risco de novos comportamentos compulsivos adquiridos na ausência de um acompanhamento psicológico sistemático. Na maioria dos casos, segundo ele, esses distúrbios desembocam para o alcoolismo e até mesmo a compulsão por compras. Em um dos casos ele revela que o paciente desenvolveu pânico ao ter que ingerir folhas em sua dieta. “Não é raro os casos em que pacientes venham a desenvolver bulimia ou entram em um processo depressivo.”

Da mesma maneira em que há indivíduos que desenvolveram quadros depressivos após a cirurgia bariátrica, outros passam a rejeitar o próprio corpo. Wadson Arantes relata casos de pacientes que adquiriram o sentimento de não pertencimento ao próprio corpo. “A pessoa que foi obesa a vida inteira e tem concebida uma autoimagem, porém quando emagrece de forma abrupta passa a não se sentir como si próprio, daí a importância do tratamento psicológico”, conta.

Quem fez a cirurgia bariátrica, resistiu às recaídas e evitou o reganho de peso?

Carlos Vasques chegou perto de pesar 200 kg, fez a cirurgia bariátrica, teve reganho de peso, porém voltou ter hábitos saudáveis, seguir dieta balanceada e acompanhamento psicológico | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Carlos Vasques chegou perto de pesar 200 kg, fez a cirurgia bariátrica, teve reganho de peso, porém voltou ter hábitos saudáveis, seguir dieta balanceada e acompanhamento psicológico | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Uma coisa é certa: não é fácil o processo de emagrecimento por meio da cirurgia bariátrica. Para alcançar os resultados satisfatórios é preciso muita disciplina e força de vontade. O artefinalista Carlos Ricardo Vasques, de 49 anos, pai de duas filhas, chegou a pesar quase 200 quilos no ápice de sua obesidade. Após a cirurgia bariátrica, ele conseguiu chegar a 115 quilos. Contudo, ele passou por um perigoso período de relapso, em que sua dieta e estilo de vida foram desregrados voltando, assim, a ganhar peso.

Atualmente, após a advertência de familiares, médico endocrinologista, nutricionista e psicólogo, Carlos Ricardo voltou a reduzir seu peso e voltou a seguir uma disciplina diária de alimentação saudável e atividades físicas. “Minha psicóloga fala que quem foi obeso a vida toda sempre terá a cabeça de gordo, nunca de um magro. Sempre terei que ter cuidado”, diz.
Carlos Vasques relata que foram seis meses de preparação para que pudesse ser conduzido a uma sala de cirurgia. Somente depois do aval de nutricionista, psicólogo, cardiologista, pneumologista, endocrinologista e anestesista, após um período de um semestre de avaliação, é que pôde ser operado. “A pessoa deve tomar cuidado com o comodismo após a cirurgia, pois não se consegue controlar o peso. Nisso, o apoio da família é fundamental.”

Eduardo Machado perdeu 60 kg após  cirurgia e ganhou qualidade de vida | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Eduardo Machado perdeu 60 kg após cirurgia e ganhou qualidade de vida | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Bem-sucedido empresarialmente e bastante conhecido entre a alta cúpula política do País, o presidente do PHS, Eduardo Machado, divide sua vida entre antes e depois da cirurgia de redução do estômago. “Eu me arrependo por não ter feito este procedimento antes”, revela. Ele que chegou a pesar 150 kg, hoje consegue subir na balança sem que o ponteiro exceda os 90 kg. O líder partidário conta que antes da cirurgia bariátrica, sua pressão sempre esteve entre 18 por 12, ou seja, sempre sujeito a sofrer um AVC. “Não tenho mais apneia, absolutamente nada de gordura nos fígados e minha pressão é normal sem nenhum auxílio de medicamentos”, conta.

A servidora pública Denise de Oliveira Resende Guarita, 31, teve que convencer primeiramente seus pais para que fosse encaminhada a sala de cirurgia. Ela foi orientada pelo médico, quando a balança apontava que estava com 150 kg. Em dezembro de 2012, enfim conseguiu fazer o procedimento e hoje está com 70 kg, graças a uma vida saudável com acompanhamento psicológico e de exercícios físicos diários na academia. “A cirurgia faz uma transformação muito grande na vida do paciente e precisa estar pronto para evitar o fracasso de voltar novamente a engordar”, diz.

Denise de Oliveira perdeu cerca  de 80 kg após a cirurgia bariátrica  ! Fotos: Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Denise de Oliveira perdeu cerca
de 80 kg após a cirurgia bariátrica ! Fotos: Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Denise de Oliveira mantém um blog — cirurgiabariatricaeufiz.com — especializado em dicas para pessoas que pretendem, estão em processo ou já fizeram a cirurgia de redução do estômago. Ela afirma que o estilo de vida no qual a sociedade tem levado termina por condicionar as pessoas a se alimentarem erroneamente, principalmente de alimentos ricos em calorias, que viciam e que estão presente em quase tudo. “A obesidade é um problema psicológico com o qual lido até hoje. Não é porque me alimento corretamente e vou para academia que me considero livre dela.”

6
Deixe um comentário

2 Comment threads
4 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
6 Comment authors
Priscila Augusto

Fiz bariátrica a um ano e um mês estou na luta para não ganhar peso pois sinto que qualquer deslize já vario não é fácil mesmo tem que se policiar 24hs por dia e trocar mesmo todos hábitos alimentares e tem que fazer exercícios físicos senão o ganho de peso é fato.

JOTA

Fazem 10 anos que fiz a bariátrica e não me arrependo! Foi a melhor decisão que tomei em toda minha vida. Hoje, aos 43 anos, me sinto bonita e sexy. Sim, temos que sempre nos policiar em relação ao que comemos e seguir um plano de exercícios. Não tem como se manter no mesmo peso com o passar dos anos se não tiver completamente comprometida com a decisão que tomou. Sim, engordamos alguns kilos, devido as questões hormonais e outras razões, mas não passam de 5 ao total. Até pq, com o passar dos anos, nem é tão legal pesar… Leia mais

Nara

Eu estou na 4ª bariátrica e somente agora me dei conta de que realmente sou uma pessoa doente crônica que precisa de tratamento para a vida toda. Fiz a nova cirurgia em 12/01 com 125,900 e dessa vez, mudei radicalmente meus hábitos, como muita fruta, faço academia 3x na semana e zumba 2x, porém não está surtindo o resultado esperado. Nestes quase 3 meses, eliminei apenas 14kg onde deveria no mínimo ter sido 20kg, estou entrando num ponto de desespero, não sei mais o que cortar na minha alimentação para surtir efeito. Será que algum médico pode me ajudar? Tem… Leia mais

Angel

Nara, você já operou 4 vezes?? De onde você é?

Lih ♥

Nara, você é de qual estado? Quem te operou?

Infelizmente minha cirurgia não deu certo e estou buscando a reoperação.
Você poderia informar o nome do seu médico?

Obrigada! ^^

luann

vc pode cortar as muitas frutas….nao e pra comer muito,,,,