População quer o “novo”, mas um “novo” experiente. Quem atender ao perfil está eleito

O discurso da gestão está em alta, mas precisa ser avaliado. O desejo da população é esquizofrênico e pode acabar pegando muitos candidatos no contrapé

Marcos Nunes Carreiro

O desejo da população é esquizofrênico e isso deve ser levado em consideração. Os eleitores querem mudança, mas elegerão quem demonstre ser capaz de gerir a cidade, seja “novo” ou não | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O desejo da população é esquizofrênico e isso deve ser levado em consideração. Os eleitores querem mudança, mas elegerão quem demonstre ser capaz de gerir a cidade, seja “novo” ou não | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O leitor provavelmente já ouviu mais de uma vez alguém dizer que a cidade, o Estado ou o país precisam de um gestor. Este não seria aquele político profissional, mas um técnico, alguém que seja preparado para gerir, fazer a administração pública acontecer de modo célere e com qualidade.

O discurso está ativo de modo forte no Brasil desde as eleições de 2010, encontrando seu auge nas eleições de 2014 e, agora, se mantém para os pleitos municipais. O consultor político Carlos Manhanelli, que está fazendo levantamentos em várias cidades de diferentes estados, diz que o desejo por um gerente é unanimidade no Brasil. “Isso a população quer em todo lugar”, diz.

Por quê? Em parte, devido à descrença da população na classe política, que vem se acentuando desde 2013, quando ocorreram manifestações por todos os lugares, e com uma grande concentração de pessoas. Isso descaracterizaria, em tese, a figura do político tradicional.

A verdade é que se trata de um ciclo. Algumas características de candidato são mais bem aceitas na variação de universo e de momento político. A insatisfação de uma região do Brasil não se reflete em todas. Uma cidade pode demandar um perfil de político muito diferente de outra.

Manhanelli cita o livro “O Estado Espetáculo”, de Roger-Gérard Schwartzenberg para falar sobre esses perfis, pois sociólogo francês traça quatro figuras que se repetem no imaginário popular de tempos em tempos: o “herói”, que vai resolver todos os problemas; o “pai”, que vai cuidar dos mais fracos; o “líder charme”, que conquista o voto por meio de sua elegância, postura e argumentação; e o “homem simples”, que emerge das massas.

Essas preferências não são, claro, conscientes, isto é, não são fruto de uma consciência individual, mas coletiva, ligada ao próprio momento histórico vivido por determinada sociedade. As imagens apontadas por Roger-Gérard, porém, são aquelas vistas pela população numa campanha eleitoral.

E a figura do gestor? Como é possível visualizá-la? Bem, esta figura pode ser colocada aqui como um entremeio. O desejo popular por esta imagem vem naqueles momentos em que o cidadão está mais cansado e quer no poder alguém mais experiente. Porém, a população não pensa tão claramente, a exceção de alguns setores da sociedade.

A terminologia “gestor” é geralmente usada pelo chamado mercado político, que envolve formadores de opinião, pesquisadores e os próprios políticos. A população no geral não pensa nesses termos. Essa diferenciação entre o gestor e o populista, o técnico e o político, é feita — via de regra — por essas pessoas, salvo alguns eleitores mais politizados.

Dessa maneira, o que é apontado pelo mercado político como o desejo por um gestor, um gerente, é entendido pela população como aquela pessoa que vai resolver os problemas. Não é o “herói” de Roger-Gérard, aquele que diz que vai resolver — caso de Fernando Collor de Mello —, mas aquele que mostra ter condições de resolver.

Isso explica o fato de muitos delegados estarem na frente nas pesquisas pelo Brasil. Manhanelli aponta: como em Goiânia, em Belém (PA), também um delegado está liderando as pesquisas: Éder Mauro, deputado federal pelo PSD. “Qual é a maior demanda da população? Ela quer alguém que gerencie a segurança. Quem tem capacidade de fazer isso? O delegado é, em tese, o gerente ideal para o maior problema da cidade”, afirma.

Contudo, o consultor político também alerta: “Mas esse candidato corre grande perigo se não conseguir mostrar que também é capacitado para as outras áreas”. Aí entra uma característica também demonstrada nas últimas eleições: embora diga querer a renovação da política, nas últimas duas eleições, a população reelegeu os gestores que já estavam no poder. Foi o caso do Brasil com Dilma Rous­seff (PT), de Goiás com Marconi Perillo (PSDB), e de Goiânia com Paulo Garcia (PT).

Isso aponta para uma situação que deve ocorrer nesta eleição municipal de Goiânia: o quadro atual aponta para a escolha de alguém já conhecido pela população, que não quer “arriscar”. Isso não significa, porém, que um candidato “novo” não possa conquistar a população. Por quê? Porque pesquisadores apontam também que o eleitor goianiense quer mudança.

Como praticamente todos os candidatos colocados na disputa representam esse aspecto, tudo dependerá da forma como a campanha será realizada; das bandeiras defendidas e das propostas apresentadas. O que é necessário: demonstrar a capacidade para resolver os problemas. Em outras palavras, de gerir a cidade como um todo.

Aqueles que têm no currículo a experiência de gestões bem sucedidas saem um pouco na frente, mas não há favoritos, pois entre os “japoneses” o eleitor vai buscar aquele que entender ter mais competência para governar. A verdade, é que o desejo popular é um tanto esquizofrênico: quer o novo, mas um novo que tenha experiência. Isso, ao mesmo tempo em que deixa o quadro, o fecha. E é isso o que faz desta eleição uma incógnita.

A população quer um gestor? Os candidatos respondem

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Com a minirreforma eleitoral, a legislação passou a reconhecer a figura do pré-candidato, aquele político que postula ser escolhido pelo partido para disputar um cargo eletivo — no caso desta eleição, à prefeitura ou à Câmara Municipal. Com o reconhecimento, veio também a valorização da pré-campanha, o período em que o político tem para dialogar com a população e verificar se sua possível candidatura é ou não viável.

Praticamente todos os pré-candidatos à Prefeitura de Goiânia estão em pré-campanha, promovendo reuniões com a população ou com segmentos organizados da sociedade, principalmente para estruturar seus planos de governo. Por esse contato com as pessoas, cabe a eles dizerem se a figura do gestor é ou não o que quer, de fato, a população. A reportagem conversou com alguns pré-candidatos para saber deles: qual é o gestor que Goiânia espera?

Na data do fechamento da re­por­tagem, as convenções partidárias ainda não haviam acontecido — a maioria delas acontecerá na sexta-feira, 5. Isso significa que, na data do fechamento, todos os entrevistados se postulavam à Prefeitura, mas não estavam confirmados por seus partidos à disputa. Isto é, ainda eram pré-candidatos — que po­dem, ou não, disputar a eleição. Por esse motivo, nem todos atenderam às ligações.

Pré-candidata pelo PT, a deputada estadual Adriana Accorsi relata que tem feito várias reuniões na cidade, por região e por setores da sociedade e entende a questão do gestor da seguinte maneira:

“Por um lado, a população deseja alguém que tenha eficiência para cuidar dos aspectos mais básicos da cidade, como limpeza e manutenção das vias públicas, dos parques e prédios públicos. Por outro, a sociedade necessita de uma gestão humanizada, que cuide das pessoas. E, dentro disso, existe a questão da transparência”.

Ela diz que, dentro dessa “gestão humanizada”, sua prioridade, caso seja eleita prefeita, será a criança e o adolescente, “até pela minha história de trabalho como delegada e também pela experiência acompanhando a gestão de meu pai [ex-prefeito Darci Accorsi], que trabalhou muito na área social. Vou cuidar das pessoas e não apenas da cidade em seu aspecto físico e estrutural”, relata.

Adriana argumenta pensar assim, justamente porque algumas de suas propostas para alcançar esse objetivo têm sido bem recebidas pela população: “Minha proposta de reativar projetos de meu pai, como as ‘Escolinhas esportivas’ e o ‘Cidadão 2000’, que deverá receber outro nome, é uma questão que tem emocionado a população e que está aliada a esse desejo por uma gestão mais transparente e humana. Eficiência, espírito agregador e dinamismo fazem um gestor eficiente, mas é preciso olhar para as pessoas”, ressalta.

Questionada sobre como fará para alcançar uma gestão humanizada, Adriana cita como exemplo o que propõe para a segurança pública, área em que tem vasta experiência e que receberá muita atenção durante a campanha. Ela lembra que Goiânia que um Guarda Civil, “que é capacitada e na qual precisamos investir bastante em estrutura para que ela possa auxiliar as polícias civil e militar com uma segurança comunitária”, mas ressalta que o município pode fazer mais.

“Segurança pública é uma das angústias da população e um dos pontos é relacionado à prevenção primária (em curto, médio e longo prazo), no cuidado com as crianças e adolescentes; prevenção ao uso de drogas e ao envolvimento com a violência. A ocupação dos espaços públicos também é um ponto importante. Além disso, incluir, como adolescente aprendiz, todos os meninos e meninas de 14 a 18 anos, também é um grande investimento em segurança pública. É investimento em perspectiva de uma vida digna das famílias”, argumenta.

Outro delegado que está na disputa é Waldir Soares (PR) e, para ele, a afirmação de que a população goianiense quer um gestor está errada. O delegado federal diz que tem feito várias reuniões, principalmente na periferia de Goiânia, e entende que o que as pessoas querem não condiz com a assertiva.

“Discordo dessa visão de que Goiânia precisa de um gestor. Goiânia precisa de um prefeito. Gestor é um gerente, que pode ser de qualquer lugar: de um prédio, de uma loja, de um jornal. As pessoas querem um prefeito, alguém que conheça a cidade, que se envolva com os problemas e os resolva”, afirma.

Qual a diferença entre um gestor um prefeito? Waldir explica: “Gerentes há muitos; o que a população quer é alguém diferenciado, que se preocupe com a vida das pessoas que moram na cidade, na região metropolitana e no Estado de Goiás, porque Goiânia traz todo esse fluxo de pessoas”.

Waldir diz que tem em mãos seis pesquisas, encomendadas para levantar quais são os principais problemas da capital na visão das pessoas. Ele relata, por ordem: “Segurança, saúde, transporte coletivo, educação e limpeza urbana. Esses são os cinco itens mais discutidos pelas pessoas em todas as reuniões que eu vou”.

Sobre suas propostas parar resolver os problemas da cidade, Waldir afirma que vai apresentá-las em seu plano de governo. “O plano já está quase pronto. Não vou ficar usando a imprensa para apresentar esse ou aquele ponto. No momento certo, vamos apresentar nossas propostas para resolver as prioridades do cidadão. É mais sensato mostrar tudo em um único projeto”, diz.

Já Francisco Júnior, pré-candidato pelo PSD, relata que a palavra “gestor” tem significados diferentes para quem faz a gestão e para as pessoas que moram na cidade, os eleitores. “Para o gestor, a gestão tem um significado, que diz respeito às mudanças das operações e do caminho processual, à economia, à otimização dos recursos, ao planejamento. Tudo isso são ferramentas de gestão. Porém, a população não vai falar sobre isso. Vai conversar é sobre o resultado, isto é, a consequência da boa gestão é que vai alcançar a população”, diz.

Em outras palavras: “O que a população quer é, quando adoecer, receber o atendimento do médico e ter remédio para tomar; quer que a luz da sua rua esteja acesa; que o lixo seja coletado e que, quando chover, a rua não inunde. A população quer que o asfalto seja de boa qualidade e que a praça esteja arrumada; que tenha escola e que ela ofereça boas aulas. Todas essas situações são resultados de uma boa gestão, mas o que a população quer é que o serviço público seja prestado”.

Dessa forma, para o deputado estadual, essa linguagem de gestão é utilizada “do lado de cá do balcão. ‘O que eu preciso fazer para que a população receba o serviço que ela tem direito, que está garantido por lei e pelo qual ela paga imposto?’. É nesse sentido que o diálogo precisa ser feito com a população, pois o resultado é o foco. Temos um número de ferramentas para alcançar isso e precisamos mostrar que a necessidade do cidadão será atendida.” l

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Antonio Alves

Pelo jeito estão querendo encontrar outro Collor de Melo.